"A Filha do Chefe da Máfia Se Recusava a Sobreviver… Até a Babá Pobre Cantar Uma Canção Que Ninguém Deveria Conhecer" Capítulo 2 — Não Toque Nela
“Eu mandei tirar a bandeja.”
A funcionária olhou para Dante, que permanecia na porta.
Esperava autorização.
Isabela percebeu.
“Ela está tremendo.”
Dante olhou para Sofia.
As mãos da menina estavam apertadas contra o peito.
“Leve”, ordenou.
A bandeja desapareceu.
Poucos segundos depois, Sofia parou de tremer.
Isabela não comemorou.
Não perguntou nada.
Simplesmente tirou os sapatos, sentou-se no tapete e apoiou as costas na lateral de uma poltrona.
Dante franziu a testa.
“O que está fazendo?”
“Sentando.”
“Eu consigo ver.”
“Então não precisava perguntar.”
Bruno desviou o rosto.
Valentina quase sorriu.
Dante entrou no quarto.
“Você pretende fazer alguma coisa?”
“Pretendo.”
“O quê?”
“Nada.”
Ele ficou em silêncio.
Isabela apontou discretamente para Sofia.
“Todo mundo entra aqui querendo alguma coisa dela.”
“Ela precisa beber.”
“Eu sei.”
“Então faça ela beber.”
Isabela ergueu os olhos.
“Se o senhor pudesse mandar nela como manda em todo mundo, ela já teria bebido.”
A expressão dele mudou.
“Cuidado.”
“Com o senhor?”
“Com o que diz.”
“Estou cuidando dela.”
Dante deu um passo na direção de Isabela.
Sofia imediatamente se encolheu.
Isabela viu.
Ele também.
Aquilo o atingiu com força suficiente para fazê-lo parar.
“Saia do quarto”, disse Isabela.
Bruno levantou a cabeça.
“Você acabou de mandar—”
“Não estou falando com você.”
Dante ficou imóvel.
“Você está me expulsando do quarto da minha filha?”
“Estou pedindo que dê espaço para ela.”
“Não é a mesma coisa.”
“Para uma criança assustada, às vezes é.”
Valentina tocou o braço de Dante.
“Dante.”
Ele retirou o braço.
Mas saiu.
Isabela permaneceu no chão.
Dez minutos.
Vinte.
Trinta.
Ela não perguntou o nome de Sofia.
Não ofereceu comida.
Não mostrou brinquedos.
Apenas pegou um livro infantil que estava caído perto da estante e começou a folheá-lo em silêncio.
Quarenta minutos depois, Sofia mexeu o pé.
Isabela continuou olhando para o livro.
Então ouviu o colchão ranger.
Sofia estava observando-a.
Isabela virou uma página.
Nada mais.
Do outro lado do vidro discreto do corredor, Dante acompanhava pelas câmeras.
“Ela não está fazendo nada”, disse.
Henrique cruzou os braços.
“Talvez seja exatamente por isso que Sofia ainda não entrou em pânico.”
***
Na hora do almoço, Isabela pediu uma coisa estranha.
“Quero um copo de plástico.”
Teresa Nogueira olhou para ela.
“Plástico?”
“Sim.”
“Temos cristal.”
“É justamente esse o problema.”
Teresa encontrou um copo azul na cozinha, esquecido desde uma festa infantil.
Isabela voltou ao quarto com ele vazio.
Sentou-se no chão novamente.
Depois de alguns minutos, bebeu água de uma garrafa própria.
Sofia observou.
Isabela encheu o copo azul e colocou-o no tapete.
Longe da cama.
“Essa água é minha”, disse casualmente.
Sofia não reagiu.
“Então nem pensa em pegar.”
Dante, assistindo à câmera, fechou os olhos.
“Ela está provocando uma criança de quatro anos?”
Henrique quase riu.
“Espere.”
Passaram-se quinze minutos.
Sofia desceu um pé da cama.
Depois o outro.
Isabela continuou folheando o livro.
A menina ficou em pé.
Deu dois passos.
Parou.
Isabela não olhou.
Sofia voltou correndo para a cama.
Não tocou na água.
Mas tinha saído da cama por vontade própria.
Henrique respirou fundo.
“Isso é progresso.”
Dante não respondeu.
***
À tarde, Valentina entrou.
Diferente dos outros, ela não levou comida.
Ajoelhou-se perto da cama.
“Oi, meu amor.”
Sofia olhou para a parede.
Valentina engoliu o choro.
“Sou eu. Tia Val.”
Nada.
Valentina levantou-se.
No corredor, seus olhos estavam molhados.
“Ela me adorava.”
Isabela fechou a porta parcialmente.
“Você era próxima da mãe dela?”
“Helena era minha melhor amiga.”
“Estava com ela no dia do ataque?”
Valentina hesitou.
“Não.”
“E Sofia?”
“Eu fui ao hospital.”
Ela respirou fundo.
“Dante não conseguia sair do lado do corpo de Helena. Então fui eu quem ficou com Sofia nas primeiras horas.”
Isabela observou o rosto dela.
“Ela falou alguma coisa?”
“Gritava pela mãe.”
Valentina fechou os olhos.
“Depois perguntou se a mãe ia acordar.”
A voz falhou.
“Eu menti.”
“Disse o quê?”
“Que sim.”
Valentina enxugou uma lágrima.
“Às vezes penso que foi naquele momento que ela parou de confiar em todo mundo.”
Isabela não respondeu.
Mais tarde, Teresa levou sopa.
Dessa vez em uma tigela comum.
Sem bandeja.
Sofia não tremeu.
Isabela guardou a informação.
“Quem normalmente servia Sofia antes do ataque?”
“Eu, às vezes”, respondeu Teresa. “Ou a mãe.”
“E depois?”
“Enfermeiras.”
“Por que bandejas de prata?”
Teresa pareceu confusa.
“São as bandejas da casa.”
“Ela tem medo delas.”
A expressão da governanta mudou.
“Tem certeza?”
“Tenho.”
Teresa olhou para o quarto.
“Na noite em que Helena morreu…”
Parou.
“O quê?”
“Nada.”
“Teresa.”
“Não cabe a mim falar.”
Ela foi embora.
Ao anoitecer, Dante entrou com uma tigela.
Isabela ergueu uma sobrancelha.
“Agora o senhor serve jantar?”
“Ela gostava dessa sopa.”
Ele se aproximou da cama.
“Sofia.”
A menina fechou os olhos.
Dante colocou a tigela no criado-mudo.
“Filha, precisa comer.”
Nada.
“Uma colher.”
Silêncio.
“Por mim.”
Sofia virou o rosto.
A mão de Dante se fechou.
Isabela percebeu que não era raiva.
Era desespero.
“Não faça isso.”
Ele olhou para ela.
“O quê?”
“Não transforme comida numa prova de amor.”
Dante ficou pálido.
“Você chegou hoje.”
“E ela está há quatro dias ouvindo adultos implorarem para ela comer.”
“Porque ela pode morrer!”
Sofia estremeceu.
Isabela se levantou imediatamente.
“Fora.”
Dante respirou pesado.
“Não.”
“Olhe para ela.”
Ele olhou.
Sofia tinha tapado os ouvidos.
Dante ficou imóvel.
Depois saiu.
Isabela fechou a porta.
Não tocou em Sofia.
Sentou-se novamente no chão.
“Adultos são barulhentos, né?”
Nenhuma resposta.
“Eu também acho.”
Depois de alguns minutos, Sofia tirou as mãos dos ouvidos.
Isabela pegou o copo azul.
Bebeu um pouco.
Deixou-o no mesmo lugar.
“Vou ao banheiro.”
Ela caminhou até a porta.
Quando passou pela cama, sentiu alguma coisa prender seu vestido.
Parou.
Olhou para baixo.
Uma mão pequena segurava o tecido.
Sofia.
Isabela não se mexeu.
A menina não levantou os olhos.
Só segurou com mais força.
No corredor, Dante viu.
Valentina também.
Bruno também.
Isabela lentamente voltou a sentar.
Sofia soltou o vestido.
Minutos depois, seus olhos foram até o copo azul.
Ela não bebeu.
Mas apontou para ele.
Uma única vez.
Isabela colocou o copo no chão, mais perto.
“Quando você quiser.”
Sofia olhou para a água.
Depois para Isabela.
E, pela primeira vez desde que ela chegara à mansão, seus lábios se moveram.
Nenhum som saiu.
Mas Isabela entendeu.
Fica.
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