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"A Filha do Chefe da Máfia Se Recusava a Sobreviver… Até a Babá Pobre Cantar Uma Canção Que Ninguém Deveria Conhecer" Capítulo 1 — A Menina Que Não Queria Mais Viver

正文开头

Sofia Montenegro não bebia água havia quatro dias.

Na suíte principal da mansão dos Montenegro, no Jardim Europa, aquela frase parecia absurda até para os médicos que a repetiam em voz baixa.

Crianças choravam.

Crianças faziam birra.

Crianças gritavam quando sentiam dor e imploravam quando sentiam fome.

Sofia não fazia nada disso.

A menina de quatro anos permanecia encolhida contra a cabeceira da cama, abraçada aos próprios joelhos, com os cachos negros grudados na testa.

Um acesso venoso estava preso à mão esquerda.

O monitor ao lado da cama marcava cada batimento com um som baixo e regular.

Sobre uma bandeja, havia água, suco de maçã, sopa, frutas cortadas e um pequeno pote de sorvete de chocolate.

Nada tinha sido tocado.

Dante Montenegro estava diante da janela.

A chuva escorria pelo vidro, deformando as luzes de São Paulo.

Aos quarenta anos, Dante comandava empresas de logística, construção, segurança privada e operações portuárias que movimentavam milhões entre São Paulo e Santos.

Havia homens que mudavam de calçada quando ouviam seu sobrenome.

Outros só pronunciavam Montenegro depois de verificar se a porta estava fechada.

Naquela manhã, porém, Dante não conseguia fazer uma menina de quatro anos beber um gole de água.

“Senhor Montenegro.”

Dr. Henrique Sampaio fechou a pasta que segurava.

Dante não se virou.

“Fale.”

“A hidratação intravenosa está mantendo Sofia estável por enquanto.”

“Por enquanto?”

Henrique respirou fundo.

“Não podemos continuar tratando apenas o corpo.”

Dante finalmente olhou para ele.

“Então trate o resto.”

“Já tentamos.”

A mandíbula de Dante endureceu.

Três especialistas em trauma infantil haviam passado pela mansão.

A primeira tentou aproximar-se demais.

Sofia começou a gritar.

A segunda trouxe brinquedos.

Sofia virou o rosto para a parede.

A terceira permaneceu quase duas horas no quarto.

Quando tentou tocar na mão da menina, o monitor disparou.

Depois vieram duas babás especializadas.

Nenhuma ficou até o fim do primeiro dia.

“Ela precisa confiar em alguém”, disse Henrique.

“Ela confiava na mãe.”

O silêncio caiu sobre o quarto.

Henrique baixou os olhos.

Fazia dezenove dias que Helena Montenegro havia morrido.

O carro em que ela viajava com a filha fora atacado quando seguia em direção à Marginal Pinheiros.

Os investigadores acreditavam que homens ligados a Marcelo Ferraz tinham planejado a emboscada.

Helena não sobreviveu.

Sofia sobreviveu porque o segurança conseguiu protegê-la no banco traseiro.

Fisicamente, a menina tinha apenas pequenos ferimentos.

Mas havia algo dentro dela que parecera morrer naquela noite.

Nos primeiros dias, ainda chorava.

Depois parou.

Parou de perguntar pela mãe.

Parou de brincar.

Parou de falar.

E, quatro dias antes, parou voluntariamente de comer e beber.

Dante caminhou até a cama.

“Sofia.”

Nenhuma reação.

Ele se ajoelhou.

Aquele mesmo homem que fazia diretores de empresas se levantarem quando entrava numa sala agora falava quase num sussurro.

“Olha para o papai.”

Os olhos da menina permaneceram presos à janela.

Dante pegou o copo.

“Só um gole.”

Sofia virou o rosto.

正文1

“Por favor.”

Henrique observou Dante congelar depois daquela palavra.

Provavelmente fazia anos que ninguém ouvia Dante Montenegro dizer “por favor”.

Sofia fechou os olhos.

Um som escapou da garganta dela.

Pequeno.

Quebrado.

Dante colocou o copo sobre a mesa.

“Saia.”

Henrique hesitou.

“Dante—”

“Todo mundo.”

O médico saiu.

Bruno Almeida, chefe da segurança, fechou a porta.

Dante ficou sozinho com a filha.

Do lado de fora, ninguém ouviu o homem que metade de São Paulo temia chorar.

***

Na Vila Mariana, Isabela Oliveira Martins encarava um boleto sobre a mesa da cozinha.

R$ 38.740.

Era apenas a próxima etapa do tratamento de Marta.

Não o tratamento inteiro.

A próxima etapa.

Isabela esfregou as mãos no rosto.

Aos vinte e seis anos, tinha aprendido que existiam números que não pareciam números.

Pareciam sentenças.

O aluguel estava atrasado.

A faculdade de pedagogia tinha sido interrompida havia quase um ano.

As economias tinham acabado.

Na geladeira havia arroz, três ovos, margarina e meio pacote de café.

No quarto, Marta dormia depois de passar a madrugada enjoada.

O celular vibrou.

**VERÔNICA TAVARES.**

Isabela quase não atendeu.

Trabalhara algumas vezes para a agência de Verônica, normalmente cobrindo folgas de babás em casas dos Jardins e do Morumbi.

“Oi.”

“Isabela, preciso que você vá para um trabalho agora.”

“Hoje não posso.”

“Você nem perguntou quanto.”

“Minha mãe tem consulta amanhã.”

“Quinze mil.”

Isabela ficou imóvel.

“Quinze mil o quê?”

“Reais. Uma semana.”

Ela se levantou devagar.

“Que tipo de trabalho paga quinze mil por uma semana?”

Verônica demorou a responder.

“Um trabalho que ninguém está conseguindo fazer.”

Isabela olhou para a porta do quarto da mãe.

“Explique.”

“Menina de quatro anos. A mãe morreu recentemente. Trauma grave. A criança não aceita praticamente ninguém.”

“Então precisam de psicóloga, não de babá.”

“Já têm médicos.”

“E?”

“Não funcionou.”

Isabela percebeu alguma coisa na voz de Verônica.

“Tem mais.”

Silêncio.

“Ela parou de comer.”

Isabela apertou o telefone.

“Há quanto tempo?”

“Quatro dias.”

“Meu Deus.”

“Ela está recebendo suporte médico em casa. Você não vai medicar ninguém. Não vai substituir os médicos. Querem alguém para permanecer com ela, acompanhar e tentar estabelecer vínculo.”

“Quem são eles?”

Outra pausa.

“Montenegro.”

Isabela conhecia o nome.

Todo mundo conhecia.

“Não.”

“Isabela.”

“Não.”

“Se você ficar um mês, o valor pode chegar a setenta e cinco mil.”

A mão de Isabela apertou a cadeira.

Setenta e cinco mil.

Ela olhou novamente para o boleto.

Depois para a porta do quarto.

Marta apareceu justamente naquele instante.

Estava mais magra do que dois meses antes.

“Quem é?”

Isabela desligou a tela.

“Ninguém.”

Marta olhou para o boleto.

Depois para a filha.

“Não faça nenhuma loucura por minha causa.”

Isabela tentou sorrir.

“Eu nunca faço loucura.”

Uma hora depois, estava dentro de um carro enviado pelos Montenegro.

Os portões da mansão se abriram sem ruído.

Isabela olhou pela janela.

Aquilo não parecia uma casa.

Parecia um hotel escondido atrás de muros.

正文2

Dois seguranças verificaram sua bolsa.

Bruno Almeida apareceu no hall.

“Celular.”

“Como?”

“Durante o trabalho, fica guardado.”

“Minha mãe está doente.”

Bruno a estudou por um instante.

“Você terá uma linha interna para emergências.”

Isabela entregou o aparelho.

“Que lugar acolhedor.”

“Não foi feito para ser acolhedor.”

Ele a conduziu pela escada.

No corredor do segundo andar, Isabela viu uma mulher elegante diante de uma porta.

Valentina Albuquerque.

Vestido bege.

Cabelo preso.

Olhos inchados de chorar.

“Você é a nova babá?”

“Isabela.”

Valentina segurou a mão dela.

“Por favor, não desista dela.”

Antes que Isabela respondesse, uma voz surgiu atrás.

“Valentina.”

Ela soltou a mão imediatamente.

Dante Montenegro estava no corredor.

Isabela já tinha visto fotografias dele em jornais de negócios.

Ao vivo, era diferente.

Mais alto.

Mais cansado.

E muito mais assustador.

“Você tem experiência com trauma infantil?”, perguntou ele.

“Tenho experiência com crianças.”

“Não foi o que perguntei.”

“Então não.”

Bruno olhou para ela, surpreso.

Dante não piscou.

“Três especialistas fracassaram.”

“Então talvez ela esteja cansada de especialistas.”

O corredor inteiro pareceu esfriar.

Valentina escondeu uma reação.

Dante aproximou-se.

“Você sabe quem eu sou?”

“Sei.”

“E mesmo assim fala desse jeito?”

Isabela sustentou o olhar.

“Se o senhor queria alguém com medo de responder, contratou a pessoa errada.”

Por um segundo, ninguém falou.

Então Dante abriu a porta.

Sofia estava na cama.

Pequena demais no meio daquele quarto enorme.

Isabela sentiu o estômago apertar.

Dante não olhou para ela.

“Você não está aqui para fazê-la gostar de você.”

Isabela observou a menina.

“Entendi.”

Dante virou o rosto.

“Está aqui para mantê-la viva.”

Isabela entrou.

A porta se fechou atrás dela.

Sofia não se mexeu.

Isabela viu a bandeja intocada.

Viu o copo cheio.

Viu o acesso na pequena mão.

E percebeu outra coisa.

Quando uma funcionária entrou trazendo uma nova bandeja de prata, Sofia começou a tremer.

Não por causa da comida.

Por causa da bandeja.

Isabela virou-se imediatamente.

“Tira isso daqui.”

A funcionária congelou.

“Senhorita?”

“Agora.”

Do corredor, Dante ouviu.

E pela primeira vez naquela manhã, Sofia olhou diretamente para alguém.

Para Isabela.

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