"O Menino de Rua Apanhou no Lugar do Meu Filho… Mas o Que Ele Gravou Fez o Restaurante Inteiro Ficar em Silêncio" Capítulo 5 — A Promessa de Um Prato de Comida
Às onze e cinquenta e oito, Nico ainda estava do lado de fora do Bellavita.
Duas vezes ele colocou a mão na maçaneta.
Duas vezes desistiu.
A fachada de vidro refletia seu moletom rasgado, o tênis gasto e o hematoma escuro em volta do olho esquerdo. Do outro lado, garçons de camisa branca passavam entre mesas impecáveis.
Nico olhou para o cartão que Tomás lhe dera.
Meio-dia.
Ele poderia jogar o cartão no lixo.
Poderia voltar para a Bela Vista.
Poderia fingir que a noite anterior nunca acontecera.
Então a porta abriu.
Tomás apareceu.
“Você veio.”
Nico deu de ombros.
“Eu tava passando.”
Tomás olhou para o cartão na mão dele.
“Claro.”
Pela primeira vez desde o estacionamento, Nico quase sorriu.
Tomás o puxou para dentro.
O sorriso desapareceu assim que os primeiros clientes olharam.
Uma mulher interrompeu a conversa.
Um homem acompanhou Nico com os olhos até a mesa.
Outro cliente chamou discretamente um garçom.
Nico conhecia aquilo.
“Eu falei que era uma ideia ruim.”
“Eles não mandam aqui.”
“E você manda?”
“Minha mãe manda.”
“Isso não ajuda.”
Tomás escolheu uma mesa no canto.
Rogério Almeida se aproximou.
O gerente conhecia Tomás desde pequeno.
“Bom dia, campeão.”
“Rogério, traz dois espaguetes?”
“Dois?”
Tomás apontou para Nico.
Rogério observou o hematoma.
Não fez pergunta.
“Claro.”
“E refrigerante.”
“Tomás.”
“Tá. Suco.”
Rogério saiu.
Nico permaneceu de pé.
“Pode sentar”, Tomás disse.
“Eu sei.”
“Então senta.”
“Para de mandar em mim.”
“Você reclama muito pra quem veio comer de graça.”
Nico olhou sério.
Tomás percebeu.
“Desculpa.”
Nico se sentou.
Quando o prato chegou, o cheiro de molho de tomate e manjericão fez seu estômago doer.
Mesmo assim, não tocou no garfo.
Tomás começou a comer.
Depois percebeu.
“Não gostou?”
“Gostei.”
“Nem provou.”
“Vou esperar.”
“O quê?”
Nico não respondeu.
Esperava alguém dizer que precisava ir embora.
Esperava alguém tirar o prato.
Esperava a cobrança escondida atrás da gentileza.
Foi então que Helena entrou no salão.
Ela vinha de uma reunião no escritório do restaurante quando Rogério a chamou.
“Helena, o Tomás trouxe um menino.”
“Da escola?”
“Não sei.”
“E?”
Rogério hesitou.
“Você precisa ver.”
Helena encontrou o filho sentado diante de um garoto machucado.
Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, uma cliente se aproximou.
“Helena, querida, talvez você não tenha percebido, mas esse menino está incomodando algumas mesas.”
Helena olhou para Nico.
Ele ouviu.
Claro que ouviu.
“Ele fez alguma coisa?”
“Não exatamente.”
“Então qual é o problema?”
A mulher baixou a voz.
“Olha para ele.”
Helena sustentou o olhar.
“Estou olhando.”
A cliente entendeu o recado e se afastou.
Nico levantou.
“Eu vou embora.”
Foi aí que Tomás se colocou na frente dele.
A partir daquele instante, tudo aconteceu rápido demais.
“Mãe, não manda ele embora.”
Helena tentou entender.
Tomás insistiu.
Nico tentou sair.
Até que veio a frase:
“Ele apanhou no meu lugar.”
E depois:
“Do meu pai.”
Agora, alguns minutos depois, Helena estava sentada diante dos dois.
A taça quebrada já tinha sido retirada.
O salão continuava silencioso demais.
O telefone de Helena tinha parado de tocar.
MARCELO desaparecera da tela.
Mas Tomás ainda olhava para o aparelho.
“Filho.”
Ele não respondeu.
Helena colocou o celular virado para baixo.
“Eu não vou atender.”
Tomás levantou os olhos.
“Agora?”
A palavra doeu.
“O que você quer dizer?”
“Agora você não vai atender?”
Helena respirou fundo.
“Tomás, eu preciso entender.”
“Eu tentei contar.”
“Quando?”
“Um monte de vezes.”
Helena lembrou da pergunta no quarto.
Se eu disser que ele fez uma coisa ruim, você acredita em mim ou nele?
Ela sentiu náusea.
“Meu Deus.”
Tomás enxugou o rosto.
“Eu perguntei.”
“Eu não entendi.”
“Não quis entender.”
Helena abriu a boca.
Nenhuma defesa parecia aceitável.
“Você tem razão.”
Tomás pareceu surpreso.
Helena continuou:
“Eu devia ter perguntado mais. Devia ter escutado.”
Nico observava em silêncio.
Helena se virou para ele.
“Foi Marcelo que fez isso no seu rosto?”
Nico puxou o capuz.
“Não importa.”
“Importa para mim.”
“Pra mim também importava quando eu contei outras coisas pra outros adultos.”
Helena não sabia do que ele falava.
Mas reconheceu a desconfiança.
“Eu não vou obrigar você a falar.”
Nico olhou para a saída.
“Ótimo.”
“Mas também não vou mandar você embora.”
Tomás respirou melhor.
Helena aproximou a cadeira, sem tocar em nenhum dos dois.
“Tomás, me conta desde o começo.”
O menino falou sobre o celular de Marcelo.
Camila.
As mensagens.
As contas.
A ameaça.
Helena sentiu cada frase desmontar uma parte da vida que acreditava ter.
“Camila Sampaio?”
Tomás assentiu.
Helena conhecia Camila havia seis anos.
Tinham dividido mesas em eventos.
Camila tinha ido ao aniversário de Helena.
Tinha abraçado Tomás.
“Você tem certeza do nome?”
“Tenho.”
Helena odiou a própria pergunta no instante em que a fez.
Tomás percebeu.
“Tá vendo?”
“Não. Filho, olha pra mim.”
Ele não quis.
“Eu acredito em você.”
Tomás ficou imóvel.
Helena repetiu:
“Eu acredito em você.”
As lágrimas voltaram.
“Mesmo?”
“Mesmo.”
“E se ele disser que eu tô mentindo?”
“Eu continuo acreditando.”
Tomás chorou.
Helena abriu os braços, mas esperou.
Foi ele quem decidiu se aproximar.
Quando o filho a abraçou, Helena sentiu o corpo dele tremendo.
Nico desviou o rosto.
“Por que você não me ligou ontem?”, Helena perguntou.
Tomás respondeu contra o ombro dela:
“Porque ele disse que você ia escolher ele.”
Helena fechou os olhos.
“Ele disse que você sempre escolhia.”
Aquelas palavras doeram mais do que qualquer acusação.
Ela acariciou o cabelo do filho.
“Eu sinto muito.”
A porta principal do Bellavita se abriu.
Nico foi o primeiro a olhar.
Seu rosto perdeu a cor.
Tomás se soltou da mãe.
Helena virou.
Marcelo Ferraz entrou usando um terno escuro, o cabelo perfeitamente arrumado e a expressão tranquila de quem esperava encontrar a própria família para almoçar.
Ele deu dois passos.
Viu Nico.
Parou.
O sorriso morreu.
“Você.”
A cadeira de Nico bateu na mesa quando ele recuou.
Tomás segurou sua mão.
Marcelo olhou para os dedos dos dois.
Depois para Helena.
Em menos de um segundo, o choque desapareceu de seu rosto.
O marido perfeito voltou.
“Helena”, disse, com voz calma. “Graças a Deus você encontrou esse garoto.”
Nico sussurrou:
“Ele vai mentir.”
Helena não tirou os olhos do marido.
Marcelo abriu os braços.
“Eu passei a noite procurando por ele.”
E sorriu como se estivesse prestes a salvar todos de uma história que ele mesmo havia criado.
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