标题上

"O Menino de Rua Apanhou no Lugar do Meu Filho… Mas o Que Ele Gravou Fez o Restaurante Inteiro Ficar em Silêncio" Capítulo 4 — Você Vai Ter Que Passar Por Mim

正文开头

Marcelo Ferraz não parecia um homem perigoso.

Era isso que Nico pensaria muitas vezes depois.

Homens perigosos, na cabeça de uma criança, deveriam parecer perigosos.

Marcelo usava relógio caro.

Camisa branca.

Sapatos limpos.

Falava baixo.

Tinha o tipo de rosto que aparecia em fotografia de evento beneficente.

Ainda assim, quando caminhou na direção de Nico no estacionamento, o menino reconheceu alguma coisa.

Controle.

Não raiva descontrolada.

Controle ameaçado.

“Me dá o telefone.”

Nico recuou.

“Não.”

Tomás se levantou atrás do pai.

“Deixa ele!”

Marcelo nem olhou.

“Tomás, cala a boca.”

Nico sentiu o telefone pressionado contra o peito por dentro do moletom.

A gravação ainda estava ligada.

Seis por cento de bateria.

Marcelo estendeu a mão.

“Última chance.”

“Pra quê?”

“Pra você sair daqui sem piorar sua situação.”

Nico soltou uma risada nervosa.

“Minha situação já é ruim.”

“Você não faz ideia.”

“Pai, para!”

Marcelo virou o rosto.

Tomás encolheu.

Foi pequeno.

Quase imperceptível.

Mas Nico viu.

E alguma coisa dentro dele mudou.

Ele conhecia aquele movimento.

Já tinha feito o mesmo.

O corpo aprendia antes da cabeça.

Aprendia a prever a mão.

O passo.

O tom.

O barulho da chave na porta.

Nico saiu da frente de Marcelo e foi para perto de Tomás.

“Fica atrás de mim.”

Tomás piscou.

“Quê?”

“Fica atrás.”

Marcelo riu.

“Você acha que está fazendo o quê?”

Nico não respondeu.

Tomás ficou atrás dele.

Marcelo avançou.

“Saia.”

“Não.”

“Esse assunto é entre mim e meu filho.”

“Então não bate nele.”

O rosto de Marcelo endureceu.

“Você viu alguma coisa que não entendeu.”

“Entendi bastante.”

“Você é um moleque de rua.”

Nico sentiu a frase como algo conhecido.

Não doeu porque era nova.

Doeu porque já tinha ouvido versões dela muitas vezes.

“E daí?”

“Daí que ninguém vai acreditar em você.”

Tomás segurou a parte de trás do moletom de Nico.

Marcelo percebeu.

“Tomás, venha aqui.”

O menino não foi.

“Agora.”

Nada.

“Eu sou seu pai.”

Tomás apertou o tecido.

“Não.”

Foi uma palavra pequena.

Mas fez Marcelo perder o resto da máscara.

Ele tentou puxar o filho pelo braço.

Nico entrou no meio.

“Não toca nele.”

Marcelo empurrou Nico.

O garoto tropeçou, mas não caiu.

“Some.”

Nico voltou.

“Não.”

“Quer apanhar por alguém que você nem conhece?”

Nico olhou para Tomás.

“Ele não precisa me conhecer.”

Marcelo ergueu a mão.

Nico respirou fundo.

“Pra chegar nele, vai ter que passar por mim.”

O golpe o atingiu no rosto.

Nico caiu.

O chão de concreto pareceu subir contra sua cabeça.

Por alguns segundos, ouviu apenas um zumbido.

“Nico!”

Era a primeira vez que Tomás dizia seu nome.

Ele tinha perguntado segundos antes, quando Nico apareceu.

Agora gritava como se fossem amigos havia anos.

Nico colocou a mão no chão.

Marcelo falou alguma coisa.

Ele não entendeu.

O olho esquerdo ardia.

O telefone.

Nico apalpou o moletom.

Ainda estava ali.

A gravação.

Ainda precisava estar gravando.

正文1

Ele tentou se levantar.

Marcelo o empurrou outra vez.

“Fica no chão.”

Nico cuspiu sangue no concreto.

“Não.”

“Nico, para!”, Tomás chorou.

Mas Nico levantou.

Não porque fosse forte.

Não era.

Não porque não estivesse com medo.

Estava apavorado.

Levantou porque sabia o que aconteceria se ficasse no chão.

Marcelo voltaria para Tomás.

“Você é idiota?”, Marcelo perguntou.

“Provavelmente.”

O segundo golpe atingiu perto do olho.

Nico caiu contra a lateral de um carro.

Um alarme disparou.

O som explodiu pelo estacionamento.

Marcelo congelou.

Tomás correu para Nico.

“Você tá bem?”

“Não.”

Tomás quase riu no meio do choro.

Passos ecoaram na rampa.

Uma voz gritou:

“Ei! O que está acontecendo aí?”

Marcelo olhou para a saída.

Um segurança aparecia ao longe.

Ele ajeitou a camisa.

A transformação foi imediata.

Quando o homem se aproximou, Marcelo já parecia novamente um pai preocupado.

“Meu filho foi abordado por esse garoto.”

Tomás se levantou.

“Mentira!”

Marcelo lançou um olhar.

Tomás parou.

Nico viu o medo voltar.

O segurança olhou de Marcelo para Nico.

“Preciso que todo mundo fique aqui.”

“Claro”, Marcelo respondeu.

Mas, quando o segurança pegou o rádio, Marcelo caminhou rapidamente para o carro.

“Senhor, espere.”

“Tenho uma emergência familiar.”

“Senhor!”

Marcelo entrou no veículo.

Tomás deu um passo.

“Pai!”

Marcelo nem olhou.

O carro saiu.

O segurança anotou a placa.

Depois se aproximou de Nico.

“Você precisa de atendimento.”

Nico recuou.

“Não.”

“Seu olho está inchando.”

“Eu tô bem.”

“Não está.”

Nico puxou Tomás pelo braço.

“Vem.”

Os dois subiram pela outra saída antes que o segurança conseguisse detê-los.

Na rua, Nico andou rápido.

Tomás o seguiu.

“Espera.”

“Vai pra casa.”

“Não.”

“Seu pai foi embora.”

“Ele vai voltar.”

Nico parou.

Tomás estava chorando outra vez.

“Você tem alguém pra ligar?”

Tomás assentiu.

“Minha mãe.”

“Liga.”

O menino tirou o celular.

Ficou olhando para a tela.

Não ligou.

“Por quê?”

Tomás sussurrou:

“Ele disse que ela vai escolher ele.”

Nico não sabia o que responder.

“Ela sempre escolhe.”

“Talvez dessa vez não.”

“E se escolher?”

Nico olhou para o próprio telefone.

Quatro por cento.

“Dessa vez tem prova.”

Tomás ergueu os olhos.

“Você gravou mesmo?”

Nico assentiu.

“Tudo?”

“Quase tudo.”

Tomás respirou fundo.

“Então vem comigo.”

“Pra onde?”

“Minha casa.”

“Nem morto.”

“Meu pai não vai fazer nada se minha mãe estiver lá.”

Nico deu uma risada sem humor.

“Você não sabe onde seu pai está.”

Tomás percebeu que ele tinha razão.

“Então onde você vai dormir?”

“Por aí.”

“Você tem casa?”

Nico ficou calado.

Tomás entendeu.

“Você mora na rua?”

“Eu durmo na rua. É diferente.”

“Não parece diferente.”

“Pra mim é.”

Tomás abriu a mochila.

Tirou uma barrinha de cereal.

“Pega.”

Nico não pegou.

“Não quero caridade.”

“Não é caridade.”

“Então o que é?”

“Você apanhou por mim.”

“Não fiz isso pra ganhar comida.”

“Eu sei.”

Tomás colocou a barrinha no bolso do moletom dele mesmo assim.

Depois procurou outra coisa.

正文2

Um cartão.

Branco, letras douradas.

RESTAURANTE BELLAVITA JARDINS — SÃO PAULO

“Minha mãe é dona.”

Nico devolveu.

“E?”

“Amanhã, meio-dia.”

“Não.”

“Eu vou estar lá.”

“Não.”

“Tem comida.”

Nico olhou para ele.

Tomás quase sorriu.

“Sabia.”

“Não vou.”

“Vai.”

“Você é chato.”

“Você apanhou por um chato.”

Nico tentou não sorrir.

Falhou por meio segundo.

Tomás colocou o cartão na mão dele.

“Me promete.”

Nico olhou para o endereço.

“Prometer o quê?”

“Que vai aparecer.”

“Por quê?”

“Porque você não devia passar fome depois de me salvar.”

Nico fechou a mão em torno do cartão.

“Ninguém me salvou quando eu precisei.”

Tomás não sabia o que dizer.

Nico guardou o cartão.

“Meio-dia?”

“Meio-dia.”

“Só comida.”

“Só comida.”

“E depois eu vou embora.”

Tomás assentiu.

Nico se afastou.

Depois de alguns metros, ouviu:

“Nico!”

Virou.

“Obrigado.”

Nico levantou uma mão e continuou andando.

Só quando chegou de volta à padaria percebeu que o telefone tinha desligado.

A bateria morrera.

Ele se sentou no chão e conectou o aparelho ao carregador improvisado de uma tomada externa.

A tela acendeu por um instante.

Havia um arquivo novo no gravador.

Vinte e três minutos e quarenta e oito segundos.

Nico ficou olhando para ele.

Pensou em apagar.

Prova trazia problema.

Problema trazia adulto.

Adulto trazia pergunta.

Mas então lembrou de Tomás encolhendo antes da mão do pai sequer se mover.

Guardou o telefone.

Na manhã seguinte, às onze e quarenta e sete, Nico estava parado do outro lado da rua do Bellavita.

Viu carros importados chegando.

Homens de terno.

Mulheres elegantes.

Olhou para o próprio moletom rasgado.

Aquilo era uma péssima ideia.

Virou para ir embora.

Então ouviu a voz de Tomás dentro da cabeça:

“Eu vou estar lá.”

Nico atravessou a rua.

Sem saber que, antes de aquele almoço terminar, o homem que o tinha atingido na noite anterior entraria pela mesma porta.

E, dessa vez, haveria um restaurante inteiro para ouvir a verdade.

下一张上
下一章下

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos:

页面底部