"A Empregada Entendeu o Que a Mãe do Chefe da Máfia Tentava Dizer Há Nove Anos" Capítulo 5 — O Homem Que Morreu Duas Vezes
O vídeo continuou mesmo depois do sinal de Beatriz.
Vicente ergueu o jornal, repetiu que Maya devia ser entregue e olhou para um ponto fora da câmera. A imagem parecia ao vivo, mas Lucas apontou três falhas: a sombra do relógio não mudava, o jornal tinha uma dobra idêntica em dois movimentos e o ruído do ar-condicionado recomeçava a cada quarenta segundos.
“É uma gravação em ciclo”, traduziu Maya.
Dante aproximou o rosto do monitor.
“Minha mãe sinalizou morto. Quando ele morreu?”
Beatriz respondeu: três meses, vinte e dois dias depois da fuga.
Era impossível e, ao mesmo tempo, explicava tudo. A fotografia no armário fora tirada três meses antes. O recibo encontrado no quarto sete tinha vinte e dois dias. Vicente sobrevivera ao acidente, passara quase nove anos preso e morrera pouco depois de escapar.
“Quem encontrou o corpo?”, perguntou Maya.
Beatriz sinalizou mulher, fundação, filho ameaçado.
“Lorena”, disse Dante.
O monitor ficou preto. Em seguida, surgiu uma contagem regressiva de dez minutos e uma mensagem: ENTREGUEM MAYA OU O ARQUIVO NOVE SERÁ DESTRUÍDO.
“Eles não querem a mim”, afirmou Maya. “Querem alguém que traduza sua mãe diante deles.”
Dante respondeu sem olhar para ela.
“Não vão ter nenhuma das duas.”
Camila isolou o instituto. Cecília foi levada para uma sala de interrogatório, enquanto Otávio permaneceu algemado no corredor. Rafael verificou as câmeras e encontrou uma saída de emergência aberta minutos antes da chegada deles. Nenhum veículo fora registrado.
“César não está aqui”, disse Rafael. “Está nos conduzindo por gravações.”
Lucas rastreou o vídeo até um servidor instalado na própria mansão Montenegro. O sinal vinha da ala oeste, fechada desde a morte de Vicente.
Dante voltou imediatamente para São Paulo. Maya seguiu com Beatriz no carro blindado. Durante o caminho, a mulher explicou em sinais que o “arquivo nove” não era um único documento. Vicente dividira as provas em nove partes. Cada uma estava escondida num objeto que César desprezava por pertencer a Beatriz.
“Qual objeto?”, perguntou Maya.
Beatriz desenhou no ar o formato de uma taça.
Na noite do acidente, ela colocara no vinho de Vicente um marcador inofensivo, criado para rastrear medicamentos. Desconfiava que César desviava remédios do hospital da fundação. Vicente beberia o líquido e faria um exame discreto no dia seguinte.
“Mas César trocou as taças”, traduziu Maya.
Beatriz confirmou. O marcador ficou na taça de César. Quando Vicente percebeu, fingiu beber da outra e guardou o cristal. A peça continha a primeira prova física de que César estivera na mesa e manipulara as bebidas.
“Então a taça quebrada no jantar não tinha veneno”, disse Dante.
“Não. Sua mãe a derrubou porque reconheceu a marca no pé do cristal. César usou uma peça do mesmo conjunto.”
Na mansão, a ala oeste estava vazia. O servidor funcionava atrás de uma parede no antigo escritório de Vicente. Lucas interrompeu a transmissão e encontrou arquivos de edição. O vídeo mostrava Vicente gravado numa casa azul. A data original fora apagada, mas o relógio digital refletido na janela conservava o registro.
Vinte e dois dias depois da fuga.
O arquivo seguinte continha apenas áudio.
“Dante, se você ouvir isto, não procure vingança antes de proteger sua mãe. César sabe que Beatriz entendeu tudo. Ele precisa que pareça doente porque a assinatura dela ainda controla metade da Fundação Horizonte.”
A voz de Vicente falhou.
“Eu devia ter acreditado nela na primeira vez. Quando tentei voltar, já estava fraco demais. Lorena me escondeu, mas César ameaçou Gabriel, o filho dela. Não a trate como cúmplice antes de saber o preço que pagou.”
Dante fechou os olhos. Maya ficou ao lado dele sem tocar em seu braço. Pela primeira vez, o homem não escondia a dor atrás de uma ordem.
“Meu pai morreu acreditando que eu talvez não protegesse minha mãe.”
“Ele morreu deixando um caminho para o senhor corrigir isso.”
Beatriz entrou no escritório. Aproximou-se do filho e tocou seu rosto. Dante segurou a mão dela, sem se importar com os homens presentes.
“Eu devia ter ouvido.”
Ela sinalizou: escute agora.
Lucas abriu uma pasta chamada NOVE. Havia fotografias de nove pequenos aparelhos auditivos, todos iguais ao dispositivo retirado de Beatriz. Cada peça possuía um número e uma localização. O número um correspondia à taça. O três indicava o armário 317. O sete indicava o Instituto Albertus.
O número nove não mostrava endereço. Trazia apenas a fotografia de Maya saindo de casa seis meses antes.
“Eles me observavam antes da vaga existir”, disse ela.
Outro documento comprovava que Cecília pagara a uma clínica para obter cópias dos exames auditivos de Lucas. A agência procurava alguém capaz de interpretar Libras sem chamar atenção.
Dante ordenou que Cecília fosse trazida da viatura. Quando chegou, ela viu a pasta aberta e perdeu a firmeza.
“César disse que Beatriz inventava acusações”, afirmou. “Mandou encontrar uma intérprete sem formação oficial, alguém fácil de desacreditar.”
“Por que Maya?”
“Porque o irmão dela consertou um aparelho de Vicente sem saber quem era o dono.”
Lucas sinalizou depressa. Meses antes, um homem idoso levara à oficina um aparelho auditivo modificado. Pagara em dinheiro e pedira que ele preservasse a memória interna. Lucas copiara os dados antes de substituir a placa.
“A cópia ainda existe?”, perguntou Dante.
Lucas confirmou. Estava guardada num servidor doméstico.
Cecília começou a chorar.
“Foi por isso que César mandou sequestrá-lo. O arquivo nove está naquela cópia.”
Rafael recebeu um alerta. A casa de Maya, em Vila Mariana, acabara de pegar fogo.
Lucas tentou acessar o servidor remotamente. A conexão caiu. Ele sinalizou que havia uma cópia física num cartão de memória escondido dentro de um rádio antigo.
Dante mandou duas equipes para o endereço.
Nesse instante, as luzes da mansão piscaram. O sistema de segurança bloqueou todas as portas. Um alarme silencioso apareceu no telefone de Rafael: acesso não autorizado ao quarto de Beatriz.
Eles correram para a ala leste.
O quarto estava vazio. A janela continuava fechada, e os guardas permaneciam conscientes no corredor. Ninguém vira Beatriz sair.
Sobre a cama havia uma taça de cristal intacta e o aparelho auditivo número nove.
Maya levou a peça ao ouvido. Uma gravação começou automaticamente.
A voz de César surgiu clara:
“Seu pai morreu duas vezes, Dante. Na primeira, perdeu o nome. Na segunda, perdeu a esperança de que o filho enxergasse o traidor dentro da própria casa.”
Depois veio a voz de Beatriz, fraca, mas audível pela primeira vez em nove anos:
“Dante… não entregue Maya. Abra a taça.”
Dante examinou o cristal. O pé era mais pesado do que deveria. Rafael envolveu a peça numa toalha e separou a base com uma ferramenta fina. Dentro havia um cilindro de metal, protegido da umidade.
Lucas conectou-o ao computador. A tela exibiu nove transferências bancárias, nove nomes falsos e nove datas. A última operação fora autorizada naquela noite, minutos depois do desaparecimento de Beatriz.
O beneficiário era uma empresa de transporte funerário de Mairiporã.
“Eles não pretendem apenas escondê-la”, disse Maya.
No arquivo havia uma certidão de óbito ainda incompleta. O espaço do nome permanecia vazio, mas a idade, o histórico médico falso e o endereço coincidiam com Beatriz.
A hora da morte já estava preenchida: 5h20.
Faltavam quarenta e três minutos.
Dante guardou o cilindro no bolso e entregou a Rafael a localização da empresa.
“Desta vez, nenhuma certidão será assinada antes do crime.”
Maya pegou o aparelho número nove. Sob a gravação de César existia um segundo arquivo, protegido por senha. Lucas testou a data do acidente, o número do armário e o nome Vicente. Nenhuma funcionou.
Maya olhou para a taça aberta.
“Tente a frase que sua mãe repetiu durante nove anos.”
A senha aceita foi: ESCUTE BEATRIZ.
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