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"A Empregada Entendeu o Que a Mãe do Chefe da Máfia Tentava Dizer Há Nove Anos" Capítulo 4 — Onze Minutos Depois da Morte

正文开头

O Instituto Albertus não aparecia em nenhuma placa.

O endereço da ficha levava a um prédio de três andares nos limites de Atibaia, cercado por eucaliptos e um muro alto. Na fachada lia-se Centro de Recuperação São Jerônimo. As janelas do último andar tinham grades escondidas atrás de venezianas brancas.

Dante chegou antes do amanhecer com Maya, Lucas, Rafael e seis homens. A delegada Camila vinha vinte minutos atrás com um mandado emergencial. Dante não pretendia esperar.

“Minha mãe está lá dentro.”

Rafael examinou o portão.

“Se entrarmos à força, podem removê-la pelos fundos.”

Lucas conectou o notebook a uma caixa de distribuição externa. As câmeras usavam um sistema antigo, protegido por senha simples. Ele abriu a planta digital e sinalizou que o prédio tinha apenas seis quartos registrados no corredor norte.

“O sete está fora da planta”, traduziu Maya.

Dante observou a imagem térmica. Uma área retangular atrás da lavanderia apresentava consumo de energia, embora constasse como parede estrutural.

“Entramos pelo serviço.”

Maya segurou seu braço.

“Beatriz deixou o recado para mim também. Se vir homens armados, talvez pense que César venceu.”

“Você fica atrás de Rafael.”

“Não. Eu entro primeiro no quarto.”

Dante quis negar. Então lembrou que a mãe passara nove anos tentando falar com homens que a tratavam como incapaz. Concordou com um movimento curto.

O portão lateral foi aberto sem alarme. Lucas repetiu o sinal de uma câmera em looping enquanto Rafael conduzia o grupo até a lavanderia. Atrás de prateleiras com lençóis havia uma porta sem maçaneta.

Um leitor biométrico brilhava na parede.

Rafael usou o dedo do sequestrador detido, cuja impressão Camila enviara num molde autorizado. A luz ficou verde.

O corredor secreto cheirava a desinfetante e umidade. Havia sete portas. As seis primeiras estavam vazias, com camas presas ao chão. A última tinha uma pequena janela de vidro escuro.

Maya olhou primeiro.

Beatriz estava sentada numa cadeira. Otávio permanecia atrás dela com uma seringa junto ao pescoço. Cecília Prado segurava uma câmera, gravando.

“Eles querem uma imagem dela descontrolada”, sussurrou Maya. “Vão aplicar o remédio e filmar a reação.”

Dante encostou a arma na fechadura. Maya impediu.

Ela bateu três vezes no vidro e sinalizou: feche os olhos.

Beatriz compreendeu. Quando as luzes se apagaram, jogou o corpo para o lado. Rafael arrombou a porta. Dante atingiu o pulso de Otávio antes que a agulha tocasse a pele. Cecília tentou fugir, mas Lucas fechara eletronicamente todas as saídas.

Maya abraçou Beatriz. A mulher verificou o rosto dela e perguntou por Lucas.

“Ele está seguro”, respondeu Maya em Libras. “Foi ele quem abriu o caminho.”

Beatriz chorou sem som.

Dante segurou Otávio contra a parede.

“Onde está meu pai?”

“Morto.”

“A certidão dizia isso onze minutos antes do acidente. Tente outra resposta.”

O médico olhou para Cecília. Ela recuou.

“Eu apenas administrava o instituto”, disse a diretora. “César tomava as decisões.”

“Você escolheu Maya”, afirmou Dante.

正文1

Cecília apertou os lábios.

Maya encontrou seu próprio formulário sobre uma mesa. A ficha mencionava Lucas, o endereço da família, a experiência dela com Libras e até o horário em que costumava pegar o ônibus.

“Vocês sabiam que eu entenderia Beatriz.”

“Precisávamos descobrir o que ela ainda lembrava”, admitiu Cecília. “As outras empregadas ignoravam os gestos. Você serviu de teste.”

“E, se eu traduzisse, ameaçariam meu irmão.”

“Era para você se calar.”

Beatriz levantou-se e atingiu Cecília no rosto. O gesto não foi forte, mas o som pareceu atravessar os nove anos de silêncio.

“Ela diz que você a escolheu porque César tinha medo da frase completa”, traduziu Maya.

Dante voltou-se para a mãe.

“Que frase completa?”

Beatriz sinalizou que Vicente sobrevivera ao acidente e fora mantido ali. Três meses antes, acordara durante uma troca de medicação. Um enfermeiro chamado Paulo o ajudara a escapar. César mandara Otávio encontrá-lo, mas Vicente conseguira enviar provas para o armário 317.

“Ele veio falar com a senhora?”, perguntou Maya.

Beatriz negou. Vicente usara um aparelho auditivo modificado para transmitir mensagens curtas ao receptor escondido no quarto dela. O mesmo sistema fora descoberto e invertido por Otávio, que passou a escutar Beatriz.

Rafael revistou o quarto sete. Atrás da cama encontrou riscos na parede, agrupados em sequências de sete. Havia noventa e dois grupos completos.

“Ele contou os dias”, disse Maya.

Num compartimento sob o colchão, Lucas encontrou uma fotografia recente de Vicente diante de uma casa azul. Ao lado havia um recibo de pedágio da Rodovia Fernão Dias, emitido vinte e dois dias antes.

“Ele ainda estava vivo depois de escapar”, disse Dante.

Otávio riu com amargura.

“Estava. Até tentar bancar o herói.”

Dante o atingiu uma vez. Rafael segurou seu braço antes do segundo golpe.

“Precisamos dele falando.”

Camila entrou com os agentes e assumiu a prisão. Otávio recusou-se a continuar sem advogado. Cecília, ao contrário, começou a negociar.

“Posso entregar os registros de pagamento.”

“Em troca de quê?”, perguntou Camila.

“Proteção. César mata quem deixa de ser útil.”

Cecília forneceu a senha de um servidor. Lucas abriu dezenas de prontuários falsos, certidões antecipadas e transferências da Fundação Horizonte. Entre os documentos estava o laudo original do acidente de Vicente.

O perito chegara ao local às 23h18. A certidão oficial, contudo, registrava a morte às 22h41. O carro saíra da pista às 22h52.

“Onze minutos”, disse Dante.

Maya ampliou a assinatura. O documento não fora assinado por Otávio, mas por outro médico: Heitor Leme, pai dele, morto quatro anos antes.

“A fraude atravessa duas gerações”, observou Camila.

Beatriz pediu papel. Com dificuldade, escreveu um nome: Lorena Vasconcelos.

Dante conhecia Lorena. Ela dirigia uma fundação parceira das empresas Montenegro e fora amiga da família durante anos.

“Ela ajudou César?”

Beatriz escreveu: obrigada.

Depois sinalizou que Lorena falsificara documentos sob ameaça, mas também escondera parte dos registros. Era ela quem poderia localizar Vicente.

Dante ligou. O telefone foi atendido por uma voz masculina.

“Lorena não pode falar.”

“Quem é?”

“Alguém sentado à sua direita durante muitos anos.”

César.

Ao fundo, Lorena chorava. César informou que estava com ela numa propriedade em Mairiporã. Exigiu a pasta do armário 317 e o servidor do instituto.

“E minha mãe?”, perguntou Dante.

“Beatriz já viveu mais do que devia.”

Dante encerrou a chamada antes que a raiva alterasse sua voz.

Rafael recebeu um alerta da mansão. César escapara do escritório usando uma passagem antiga, mas deixara o paletó e o telefone. A localização da chamada em Mairiporã podia ser falsa.

Lucas analisou o áudio. Encontrou uma diferença entre a voz e o ruído ambiente: a fala chegava com atraso de dois segundos. Era uma gravação reproduzida por um sistema automático.

“Não foi ao vivo”, traduziu Maya.

No monitor, surgiu outra transmissão. Vicente apareceu sentado numa sala escura, mais magro que na fotografia, segurando um jornal daquela manhã.

“Dante”, disse ele, olhando para a câmera. “Se quer me ver vivo, entregue Maya. Foi ela quem trouxe César de volta até mim.”

Todos olharam para a empregada.

Beatriz levantou as mãos e sinalizou com urgência.

“Ela diz que o homem no vídeo é Vicente”, traduziu Maya. “Mas a transmissão é uma mentira.”

Na tela, o pai de Dante ergueu discretamente a mão esquerda e formou um sinal aprendido com Beatriz décadas antes.

O movimento não era um pedido de resgate. Era a advertência que Vicente preparara para o caso de usarem sua imagem.

Morto.

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