"Casei Com o Chefe da Máfia Para Pagar Minhas Dívidas… Na Noite de Núpcias, Descobri Que Até o Corpo Dele Era Uma Mentira" Capítulo 5 — A Carta do Meu Pai
“Isabela não é minha única filha.”
A voz de Augusto Martins continuou ecoando na cabeça de Isabela mesmo depois que Dante fechou o computador.
Ela permaneceu parada diante da mesa.
Não chorou.
Não perguntou nada.
Durante alguns segundos, simplesmente tentou respirar.
— Coloque de novo.
Dante a observou.
— Isabela...
— Coloque de novo.
Ele abriu o arquivo.
A voz de Augusto voltou a preencher o escritório.
“Eles acham que minha filha é a única chave.”
Dante, quatro anos mais jovem, perguntava:
“Ela não é?”
A pausa.
Então:
“Não. Isabela não é minha única filha.”
O áudio terminava.
Isabela fechou os olhos.
— Outra filha.
Dante permaneceu em silêncio.
— Meu pai teve outra filha.
— É o que a gravação indica.
Ela virou-se rapidamente.
— Você sabia?
— Não.
— Não minta para mim.
— Eu não sabia quem era.
Isabela percebeu a escolha das palavras.
— Eu perguntei se você sabia.
Dante apertou o maxilar.
— Eu sabia que Augusto tinha mencionado a possibilidade de existir outra herdeira.
— Possibilidade?
Ela soltou uma risada sem humor.
— Ele disse “minha filha”.
— E o restante da gravação desapareceu.
— Como?
— O arquivo foi corrompido.
— Que conveniente.
— Eu tentei recuperar.
— Durante quatro anos?
— Sim.
Isabela passou as mãos pelo cabelo.
O casamento tinha menos de vinte e quatro horas.
Nesse tempo, ela descobrira que o marido usava um corpo falso, conhecia seu pai, investigava sua família, comprara suas dívidas antes da morte de Augusto e sabia que existia uma segunda herdeira.
Ela já não conseguia imaginar o que ainda faltava.
— Minha mãe sabe?
— Não sei.
— Não vou perguntar a ela.
Dante franziu o cenho.
— Por quê?
— Porque minha mãe passou quatro anos tentando sobreviver à morte do meu pai. Eu não vou aparecer na casa dela dizendo que talvez Augusto tivesse uma filha escondida.
Ela pegou a bolsa.
— Primeiro eu descubro a verdade.
— Aonde você vai?
— Higienópolis.
— Eu vou com você.
— Não.
— Isabela.
— Você já participou demais das decisões da minha família.
Ela saiu.
Desta vez, Dante não tentou detê-la.
A antiga casa dos Martins ficava numa rua tranquila de Higienópolis.
Estava fechada havia meses.
A família não morava ali desde a morte de Augusto, mas Isabela ainda pagava o mínimo necessário para impedir que o imóvel se deteriorasse.
Ao abrir a porta, sentiu o cheiro de madeira antiga.
Por um instante, voltou a ter vinte anos.
A mãe chamando da cozinha.
O pai falando ao telefone no escritório.
A televisão ligada na sala.
Agora havia apenas silêncio.
Isabela subiu diretamente para o escritório de Augusto.
Abriu gavetas.
Pastas.
Caixas.
Encontrou documentos que já conhecia.
Fotografias.
Recibos.
Uma agenda de couro.
Nada sobre outra filha.
Duas horas depois, estava quase desistindo quando percebeu uma diferença na estante.
Um dos livros estava mais para frente.
Isabela puxou.
Era um antigo volume de direito empresarial.
Atrás dele havia uma pequena chave presa com fita adesiva.
Ela ficou imóvel.
— Pai...
A chave abriu a última gaveta da escrivaninha.
Dentro havia apenas uma caixa de madeira.
Isabela levantou a tampa.
Fotografias.
Uma pulseira de maternidade.
E um envelope.
Na frente, escrito à mão:
**ISABELA.**
Ela reconheceu a caligrafia imediatamente.
Sentou-se.
As mãos começaram a tremer.
Abriu.
“Filha,
se você está lendo isto, significa que Dante Montenegro chegou até você.”
Isabela parou.
O nome dele.
Outra vez.
Continuou.
“Talvez você o odeie quando encontrar esta carta. Talvez tenha motivos.”
Apesar de tudo, uma pequena risada escapou entre as lágrimas.
Era exatamente o tipo de frase que Augusto escreveria.
“Não sei se você poderá confiar nele. Eu também não confiava quando o conheci.”
Isabela respirou fundo.
“Mas, se Dante respeitou minha única exigência, ele terá contado parte da verdade antes de pedir qualquer autorização relacionada ao fundo.”
Ela parou.
Dante nunca lhe pedira assinatura alguma.
Nem antes.
Nem depois do casamento.
A carta continuava.
“Não confie cegamente nele. Mas também não acredite em quem disser que Dante é o homem por trás da Vértice.”
Isabela sentiu um arrepio.
“Marcelo Ferraz sabe mais do que admite. Álvaro Siqueira também.”
Ela se levantou.
Álvaro.
O homem que cuidava dos documentos da família.
“Mas nenhum dos dois é o motivo principal desta carta.”
Isabela voltou a sentar.
“Há algo que escondi de você e de sua mãe por muitos anos.”
Ela já sabia o que viria.
Mesmo assim, não estava preparada.
“Você tem uma irmã.”
As lágrimas caíram.
“Ela nasceu seis anos antes de você.”
Isabela levou a mão à boca.
Sua mãe sempre dissera que perdera um bebê antes de Isabela nascer.
Uma menina.
Nunca falavam sobre isso.
“Durante muitos anos, sua mãe acreditou que ela morreu pouco depois do parto.”
Isabela sentiu o coração disparar.
“Eu também.”
Ela leu a frase seguinte duas vezes.
“Mas Helena não morreu.”
O nome parecia estranho.
E íntimo.
Helena.
“Descobri a verdade tarde demais. Nossa filha foi entregue a outra família por meio de documentos falsificados.”
Isabela levantou-se tão rápido que a cadeira caiu.
— Não.
Andou pelo escritório.
Voltou.
Pegou a carta.
“Não contei à sua mãe porque ainda não sabia quem havia feito isso nem por quê. Quando finalmente encontrei sinais de Helena, comecei a perceber movimentações financeiras ligadas às mesmas empresas que depois formariam a estrutura da Vértice.”
Isabela sentiu o sangue gelar.
A irmã perdida.
As empresas.
As dívidas.
Tudo estava ligado.
“Procurei Helena. Não consegui chegar até ela antes que percebessem que eu sabia.”
A próxima linha estava sublinhada.
“Se alguma coisa acontecer comigo, não procure primeiro Marcelo.”
Outra linha.
“Procure Helena.”
Isabela ficou imóvel.
Havia mais.
“E, filha, se algum homem tentar fazer vocês duas acreditarem que apenas uma pode herdar o que deixei, não acredite sem verificar tudo.”
Ela leu novamente.
Vocês duas.
O telefone tocou.
Dante.
Isabela ignorou.
Tocou outra vez.
Ela desligou.
Então recebeu uma mensagem.
Não era dele.
Número desconhecido.
Uma fotografia.
Isabela abriu.
Uma mulher de cabelos escuros saía de um cartório.
Parecia ter cerca de trinta e cinco anos.
Havia algo nos olhos dela que fez Isabela prender a respiração.
Não porque fossem iguais aos seus.
Eram iguais aos de Augusto.
Abaixo da foto:
**HELENA MARTINS.**
Segunda mensagem:
**“Sua irmã se casou ontem à noite.”**
Isabela sentiu um frio no estômago.
Terceira mensagem.
Outra fotografia.
Helena estava de branco.
Ao lado dela, um homem de terno escuro.
Isabela ampliou.
Conhecia aquele rosto.
Tinha acabado de vê-lo na porta do escritório de Dante.
Bruno Almeida.
O segurança em quem Dante mais confiava.
O telefone de Isabela escorregou de sua mão.
Duas irmãs.
Duas noivas.
Na mesma noite.
E um único fundo esperando por assinaturas.
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