"Casei Com o Chefe da Máfia Para Pagar Minhas Dívidas… Na Noite de Núpcias, Descobri Que Até o Corpo Dele Era Uma Mentira" Capítulo 2 — A Dívida Nunca Foi Dela
Isabela não dormiu.
Às quatro e dezessete da manhã, ainda estava sentada no sofá da suíte, usando o vestido de noiva.
Dante permanecia do outro lado da sala.
Nenhum dos dois mencionara a cama.
Sobre a mesa estavam os documentos deixados por Augusto Martins.
Isabela já os havia lido duas vezes.
Na terceira, começou a perceber o que não tinha visto antes.
Os nomes das empresas mudavam.
Santa Luz Participações.
Ramos Crédito.
Paulista Gestão Patrimonial.
Vértice Serviços Financeiros.
Contratos diferentes.
Endereços diferentes.
Mas algumas contas bancárias se repetiam.
— O que é isso?
Ela empurrou uma folha para Dante.
— Uma transferência.
— Eu sei ler.
Isabela apontou para dois números.
— A dívida da empresa do meu pai foi vendida para a Santa Luz. Depois aparece aqui, transferida para outra companhia.
— Ramos Crédito.
— E três meses depois vai parar na Vértice.
Dante assentiu.
— Exatamente.
— Isso é normal?
— Vender dívida é normal.
— E isso?
Ela abriu outras folhas.
— Cinco empresas diferentes transferindo contratos para o mesmo grupo?
— Não dessa maneira.
Isabela passou as mãos pelo rosto.
— Grupo Vértice.
O nome não era desconhecido.
Durante meses, representantes do grupo tinham ligado oferecendo refinanciamento.
Falavam com educação.
Prometiam prazo.
Diziam querer ajudá-la a preservar o patrimônio da família.
— Eles me ofereceram um acordo.
— Eu sei.
Isabela ergueu os olhos.
— Como sabe?
— Porque acompanhei cada tentativa deles de chegar até você.
Ela se levantou.
— Desde quando você me vigia?
— Eu não disse que vigiava você.
— Não precisa dizer. Você sabe quem me ligou, quais dívidas eu tinha e conhecia meu pai.
Dante não respondeu.
— Desde quando?
— Antes de nos conhecermos.
A resposta caiu como outra traição.
— Você sabia quem eu era naquele jantar.
Onze meses antes, os dois haviam se encontrado em um evento beneficente nos Jardins.
Isabela se lembrava de ter derrubado vinho no próprio vestido.
Dante lhe oferecera um lenço.
Ela achara que fora acaso.
— Sim.
— Você foi até lá por minha causa?
— Sim.
Isabela fechou os olhos.
— Meu Deus.
— Eu não esperava que acontecesse daquela forma.
— O quê? Que eu falasse com você?
— Que você gostasse de mim.
Ela abriu os olhos.
— Não use isso agora.
— Não estou usando.
— Está, sim.
Isabela tirou a aliança.
Dante acompanhou o movimento.
Ela a colocou sobre a mesa.
— Vamos tirar a parte romântica dessa história.
A expressão dele ficou fria.
— Tudo bem.
— Você conhecia meu pai. Sabia das dívidas. Sabia que o Grupo Vértice estava comprando tudo. Depois você comprou as dívidas deles e me pediu em casamento.
— Sim.
— Então eu quero a versão que você contaria para um advogado.
Dante aproximou uma cadeira e sentou-se.
— Seu pai descobriu uma rede de empresas usadas para adquirir dívidas de famílias e negócios específicos.
— Para quê?
— Controle.
— Controle de quê?
— Patrimônio. Empresas. Heranças. Assinaturas.
Isabela franziu o cenho.
— Assinaturas?
— Algumas pessoas valem mais pelo que podem autorizar do que pelo dinheiro que têm.
— E meu pai estava investigando isso?
— Sim.
— Por que você estava envolvido?
Dante hesitou.
— Uma das empresas tentou entrar no Grupo Montenegro.
Isabela conhecia a reputação do conglomerado.
Logística.
Imóveis.
Segurança privada.
Portos.
E negócios sobre os quais ninguém fazia perguntas em voz alta.
Era por isso que alguns chamavam Dante Montenegro de chefe da máfia, embora nunca houvesse uma condenação que sustentasse o apelido.
— Tentaram comprar suas dívidas também?
— Tentaram comprar pessoas dentro das minhas empresas.
Dante cruzou as mãos.
— Eu comecei a seguir o dinheiro. Augusto também.
— E vocês se encontraram.
— Sim.
— Então por que ele nunca falou de você?
— Porque não confiava em mim.
A sinceridade a surpreendeu.
— Finalmente algo em que concordamos.
Dante aceitou o golpe sem reagir.
— Seu pai acreditava que alguém próximo dele fazia parte da rede.
— Quem?
— Ele não sabia.
— E você?
— Ainda não sei.
Isabela soltou uma risada amarga.
— Você investigou por quatro anos e não sabe?
— Sei vários nomes. Não sei quem está no topo.
Ela voltou aos papéis.
Encontrou contratos assinados por ela.
— Eu li isso.
— Leu o que colocaram na sua frente.
— Não sou idiota.
— Nunca disse que era.
— Parece.
Dante puxou um documento.
— Veja a cláusula dezessete.
Isabela leu.
Uma garantia cruzada permitia transferir determinadas obrigações em caso de inadimplência.
Ela ficou pálida.
— Isso não estava...
Parou.
— Estava.
— Sim.
— Mas o advogado disse que era padrão.
— Qual advogado?
— Dr. Álvaro Siqueira.
Dante ficou imóvel.
Isabela percebeu.
— O quê?
— Nada.
— Você acabou de mudar de expressão.
— Álvaro administrava assuntos jurídicos do seu pai.
— Há vinte anos.
— Eu sei.
— Você suspeita dele?
— Suspeito de qualquer pessoa que teve acesso aos documentos de Augusto.
Isabela levantou-se novamente.
— Isso é absurdo.
— Talvez.
— Álvaro me viu crescer.
— Isso não o inocenta.
— E casar comigo inocenta você?
Dante não respondeu.
Isabela apontou para ele.
— Por que casamento?
Dante ficou em silêncio por tempo demais.
— Dante.
— Porque as dívidas não eram o objetivo final.
— Então qual era?
Ele abriu uma pasta preta.
Retirou uma cópia de um documento registrado em cartório.
— Seu pai deixou um fundo patrimonial.
Isabela olhou para ele.
Depois riu.
— Meu pai morreu endividado.
— Oficialmente.
— Eu passei quatro anos pagando contas.
— Eu sei.
— Quase perdi a casa da minha mãe.
— Eu sei.
— E você está dizendo que havia dinheiro escondido?
— Não apenas dinheiro.
Dante colocou o documento diante dela.
No alto estava escrito:
**FUNDO MARTINS — INSTRUMENTO PARTICULAR DE PROTEÇÃO PATRIMONIAL E DOCUMENTAL.**
Isabela leu o nome duas vezes.
— Nunca ouvi falar disso.
— Era essa a intenção.
— Quanto tem aí?
— Não sei.
— Você sabe tudo, menos isso?
— O valor não é o mais importante.
— Para alguém que devia doze milhões de reais, parece importante.
— O fundo contém documentos.
Ela ergueu os olhos.
— Que documentos?
— As provas que seu pai reuniu.
Isabela sentiu a respiração mudar.
— Então abra.
— Eu não posso.
— Por quê?
Dante empurrou o contrato para ela.
— Porque Augusto colocou uma condição.
Ela começou a ler.
Encontrou seu nome.
Depois uma expressão jurídica.
**Descendente legalmente reconhecido.**
Mais abaixo:
**cônjuge legal.**
Isabela parou.
— Não.
Dante ficou calado.
— Não me diga que...
— O fundo exige duas autorizações para ser ativado.
Ela o encarou.
— A minha.
— Sim.
— E a do meu marido.
— Sim.
Isabela olhou para a aliança sobre a mesa.
De repente, o casamento inteiro assumiu outra forma.
O pedido.
A pressa.
A quitação das cobranças.
A cerimônia.
Tudo.
— Você se casou comigo para abrir isso.
— Não.
— Não minta de novo.
— Eu me aproximei de você por causa do fundo.
A frase atingiu exatamente onde deveria.
— E depois?
Dante sustentou o olhar dela.
— Depois você deixou de ser um nome num arquivo.
Isabela virou o rosto.
— Não.
— É verdade.
— Eu não quero essa parte da história.
Ela apontou para o documento.
— Quero saber por que meu pai transformou meu casamento numa chave.
Dante fechou a pasta.
— Então precisamos falar com o homem que redigiu essa cláusula.
Isabela já sabia o nome.
— Álvaro.
— Sim.
O celular dela vibrou.
Número desconhecido.
Isabela abriu a mensagem.
Havia apenas uma frase:
**“Se Dante contou sobre o Fundo Martins, pergunte por que ele comprou sua primeira dívida dois meses antes da morte do seu pai.”**
Isabela sentiu o sangue gelar.
Virou lentamente a tela para Dante.
Pela primeira vez naquela noite, ele não teve resposta imediata.
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