"A Empregada Encontrou Algo Debaixo do Colchão do Chefe da Máfia… E Ele Mandou Trancar a Mansão" Capítulo 4 — O Boxe 317
A chuva transformava a Rodovia dos Imigrantes em um corredor de luz cinzenta quando o carro blindado deixou São Paulo.
Camila viajava ao lado de Dante. Bruno dirigia; Rafael seguia em outro veículo, apesar de ter perdido o acesso aos sistemas da mansão.
Vitória ficara trancada na ala de hóspedes por ordem de Dante. Antes de partirem, ela batera na porta e gritara que Samuel Braga era uma armadilha.
Dante não respondera.
"Ela pode estar dizendo a verdade", Camila comentou.
"Pessoas que dizem a verdade não esperam seis meses."
"Pessoas com medo esperam anos."
Ele virou o rosto.
"Está defendendo Vitória?"
"Estou lembrando que alguém escreveu que ela não pagou pelo tiro. Se ignorarmos a única informação que recebemos, vamos enxergar apenas o que confirma sua raiva."
Dante ficou em silêncio.
Pouco depois, ajustou a manta sobre as pernas. O movimento foi pequeno, mas Camila percebeu a contração em seu rosto.
"Dor?"
"Não."
"De zero a dez?"
"Você não está trabalhando."
"E o senhor continua sendo um péssimo mentiroso fora do meu turno."
Dante soltou o ar pelo nariz.
"Seis."
Camila pediu que Bruno parasse no posto de apoio da rodovia. Verificou a pele das pernas de Dante, reposicionou seus pés e administrou apenas a medicação prescrita para aquele horário.
Ele suportou tudo sem reclamar, mas evitou olhar para o próprio corpo.
"Não precisa fingir comigo", Camila disse baixo.
"Fingir o quê?"
"Que a única coisa que perdeu naquela noite foi movimento."
Dante ergueu os olhos.
Por um momento, não havia chefe nem empregada. Apenas um homem que aprendera a desconfiar do modo como os outros o tocavam e uma mulher cansada de ver pessoas tratadas como se a doença apagasse quem eram.
"Thiago cuidava da nossa mãe", Camila contou. "Quando ela adoeceu, ele largou a faculdade e trabalhava à noite no porto. Depois que ela morreu, prometeu que não abandonaria Júlia nem a mim. Por isso sei que a mensagem de despedida era falsa."
"O que ele fazia no porto?"
"Conferência contábil para uma terceirizada da Montenegro Logística. Verificava lacres, notas e peso de contêineres."
"Qual terceirizada?"
"Costa Sul Operações."
Dante ficou alerta.
"A Costa Sul pertence a um fundo administrado por Augusto."
Dante conhecia aquele fundo. Augusto o criara anos antes para concentrar contratos menores e evitar que o sobrenome Montenegro aparecesse em cada operação portuária. Era uma estrutura legal, mas perfeita para esconder decisões de quem não deveria prestar contas.
Camila sentiu o frio subir pelos braços.
"Seu tio conhecia meu irmão?"
"Augusto conhece todo mundo que pode afetar o dinheiro dele."
Ao chegarem a Santos, Bruno estacionou em uma área lateral da rodoviária. O local estava cheio de passageiros, vendedores e anúncios. A multidão tornava impossível controlar todos os movimentos.
"Ficamos juntos", Bruno avisou.
Rafael aproximou-se do carro.
"O boxe foi aberto há quarenta minutos."
"Como sabe?" Dante perguntou.
"Liguei para a administração durante o caminho. O sistema registra horário, não identidade."
Camila olhou para ele.
"Então chegamos tarde."
"Talvez", Rafael respondeu.
Bruno empurrou a cadeira de Dante até o corredor dos guarda-volumes. O boxe 317 ficava no fim, entre duas máquinas quebradas.
A fechadura não apresentava sinais de violação.
Camila aproximou o bilhete do leitor. Um código impresso abriu o compartimento sem necessidade da chave dourada.
Dentro havia uma mochila azul.
Bruno a retirou e verificou antes de entregá-la. Camila reconheceu um rasgo costurado na alça. A mochila pertencera a Thiago.
Ela abriu o zíper.
Encontrou duas camisas, um crachá vencido da Costa Sul, um caderno de capa preta e um pen drive embrulhado em plástico.
No fundo havia um carrinho de madeira que Thiago fizera para Júlia quando eram crianças.
Camila apertou o brinquedo contra o peito.
"Ele esteve aqui."
Dante abriu o caderno. As páginas continham números de contêineres, datas e iniciais. Em várias linhas aparecia a letra A ao lado de valores transferidos para empresas de fachada.
"Isso pode provar desvio de carga", ele disse.
"A de Augusto?"
"Pode ser qualquer pessoa. Precisamos dos arquivos."
Rafael retirou um notebook isolado da mochila de segurança e conectou o pen drive. Havia planilhas, fotografias do porto e três arquivos de áudio.
O primeiro registrava Thiago conversando com Samuel Braga.
"Eles mudam o peso depois que o contêiner entra", Thiago dizia. "A diferença desaparece antes da auditoria."
Samuel perguntou quem autorizava.
"O código vem do escritório de São Paulo. AM-01."
Dante não reagiu, mas Camila entendeu. Augusto Montenegro.
No segundo áudio, Samuel dizia que Vitória lhe pagara para proteger Dante e identificar o vazamento. Não havia menção a contratar atirador.
"Ela falou a verdade", Camila disse.
Dante permaneceu olhando para a tela.
"Em parte."
O terceiro arquivo estava corrompido. Rafael tentou recuperá-lo. O som surgiu entre chiados: vozes masculinas, uma porta batendo e Thiago respirando rápido.
Então uma frase ficou clara.
"O sobrinho não assina. Enquanto Dante estiver no comando, não controlamos os armazéns."
Camila reconheceu a voz de Augusto. O homem estivera na mansão muitas vezes. Falava baixo, como se cada palavra fosse conselho.
Outra voz perguntou: "E o rapaz do porto?"
Augusto respondeu: "Tirem os dois da rota antes da reunião."
O áudio terminou.
Dante fechou os olhos. O tio que o ensinara a dirigir, que ficara ao lado de seu pai no funeral, acabara de se ligar ao desaparecimento de Thiago e ao atentado.
"Não é prova completa", Rafael disse. "A gravação pode ter sido editada."
"Você reconheceu a voz", Camila afirmou.
"Reconhecer não basta diante de um juiz."
Dante olhou para Rafael.
"Nem diante de mim?"
Rafael sustentou o olhar, mas não respondeu.
Um telefone tocou dentro da mochila azul.
Não estava ali antes.
Bruno puxou a arma, e passageiros no corredor se afastaram. Camila encontrou um aparelho costurado no forro interno. A tela mostrava uma chamada de vídeo.
Dante fez sinal para atender.
Júlia apareceu amarrada a uma cadeira em uma sala desconhecida. Usava a pulseira do Hospital Santa Cecília e ainda vestia o casaco claro que Camila lhe dera na semana anterior.
"Camila?" A voz da jovem tremia. "Eles me tiraram da clínica."
A imagem mudou. Um homem encapuzado segurava a chave dourada diante da câmera.
"O pen drive pelo tratamento da sua irmã", disse a voz distorcida. "Hoje, às oito. Sozinha."
Camila avançou para o telefone.
"Onde está meu irmão?"
O homem riu.
"Thiago fez a mesma pergunta sobre você antes de desaparecer."
A ligação terminou.
Camila agarrou o braço da cadeira de Dante.
"Vou entregar o pen drive."
"Não vai sozinha."
"Se virem alguém, matam Júlia."
"Se entregar a única prova, matam todos que sabem."
Camila retirou o pen drive do computador e o apertou na mão.
"Ela é minha irmã."
Dante segurou seu pulso. Não com força, mas com firmeza suficiente para impedi-la de se afastar.
"E agora está sob minha proteção."
Rafael recebeu uma mensagem. Ao lê-la, seu rosto mudou.
Dante percebeu.
"Mostre."
"Não é nada."
"Mostre."
Rafael entregou o celular.
Na tela havia uma fotografia tirada segundos antes, dentro da rodoviária. Camila segurava o pen drive. Dante mantinha a mão sobre o pulso dela.
A mensagem dizia: "RAFAEL, VOCÊ FALHOU DE NOVO. TERMINE O SERVIÇO OU SUA FILHA SERÁ A PRÓXIMA."
Camila olhou para o chefe da segurança.
Rafael levou lentamente a mão para dentro do paletó.
Dante não soltou o pulso dela.
"Há quanto tempo Augusto ameaça sua filha?" perguntou.
Rafael retirou a arma.
E apontou diretamente para Dante Montenegro.
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