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"O Menino Que Reconheceu a Fotografia" Capítulo 10 — Antes que o Navio Parta

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Capítulo 10 — Antes que o Navio Parta

"O contêiner passou pelo portão há quatro minutos", Ana disse ao telefone. "A equipe do terminal está tentando localizá-lo."

Júlia já tinha aberto o mapa da área de embarque. O navio aparecia atracado no píer mais distante. Entre nós e ele havia filas de caminhões, guindastes e uma quantidade de contêineres que tornava absurdo imaginar que conseguiríamos encontrar um único lacre a olho nu.

Ana encerrou a chamada.

"O pedido para reter a carga está sendo analisado. Precisamos entregar a identificação completa e mostrar por que os documentos podem estar dentro dela."

Mostrei a fotografia da folha de Rafael. O número do lacre estava ali, formado pela data de nascimento de Tomás. Ao lado, uma sequência de letras indicava a empresa de armazenagem.

"Isso basta?", perguntei.

"Para localizar, sim. Para justificar uma busca, vamos juntar o vídeo, a carta e o depoimento de Rafael."

Vicente apontou uma entrada lateral no mapa.

"Um supervisor antigo trabalha nesse turno. Posso pedir que segure o contêiner."

"Sem uma ordem, ele pode perder o emprego", Ana respondeu. "E qualquer pessoa ligada a Leandro saberá exatamente quem avisou."

Eu ainda tinha o telefone encontrado no armário. Nele, Rafael guardara fotografias dos registros que tentara copiar. Abri a pasta outra vez. Em uma imagem, vi o canto de uma etiqueta de papel presa a uma caixa metálica. A mesma sequência de letras aparecia na folha do armário.

"O contêiner leva a caixa", falei. "Rafael fotografou a embalagem antes de escondê-la."

Ana encaminhou as imagens. Enquanto ela explicava a ligação entre os arquivos, meu celular vibrou.

Era Neide.

"Helena, há um homem do lado de fora da casa."

Olhei para Vicente. Ele percebeu minha expressão antes que eu dissesse qualquer coisa.

"Tomás está com você?"

"Está comigo e com Lívia. Júlia pediu que não abríssemos para ninguém. Ele ficou parado na esquina por dez minutos."

Júlia pegou o próprio telefone. Avisou a amiga dona da casa e pediu que usasse a saída dos fundos com Neide e as crianças. Não mandou ninguém confrontar o homem.

"Ele viu vocês?", perguntei.

"Não sei", Neide respondeu. "Tomás estava brincando perto da janela. Fechei a cortina."

O chão pareceu se afastar dos meus pés. Eu não podia correr até lá antes que o navio saísse. Também não deixaria Tomás naquele endereço por mais um minuto.

"Vá com a amiga da Júlia", falei. "Não conte a ninguém para onde estão indo. Ela vai falar diretamente com você."

"Está bem."

Ouvi Tomás perguntar se era eu. Pedi que Neide não o colocasse ao telefone enquanto atravessavam a casa. Só desliguei depois que Júlia confirmou que as duas estavam seguindo a rota combinada.

Vicente chamou um funcionário de outra empresa para observar a rua, mas eu o impedi de enviar o homem até as crianças.

"Júlia sabe quem pode chegar perto delas. Ninguém mais."

Ele aceitou.

正文1

Ana recebeu a resposta que esperávamos: a carga fora localizada e seria mantida em terra para verificação. Ainda assim, alguém tentava alterar a documentação de destino. Uma ordem de transferência interna tinha sido registrada minutos após nosso pedido.

"Querem tirar a caixa de dentro do contêiner antes da inspeção", disse Vicente.

Fomos ao terminal com Ana. Rafael, ainda sob cuidados médicos, falou por vídeo com a equipe responsável pela busca. Identificou a caixa metálica, explicou onde a escondera e descreveu uma marca de solda irregular na lateral. Eu fiquei ao lado de Ana, segurando as fotografias abertas para que ninguém precisasse confiar apenas na memória dele.

Esperamos numa sala administrativa com vista para os guindastes. A cada movimento do braço de aço, eu pensava que estivessem carregando o contêiner errado.

Júlia mandou uma mensagem:

Saíram da casa. Tomás está bem.

Só então consegui respirar mais fundo.

Um funcionário do terminal entrou com duas folhas impressas.

"Encontramos o lacre", disse. "Mas a declaração de conteúdo foi substituída hoje. Consta como equipamento de cozinha."

"Abra diante de testemunhas", Ana pediu.

"Estamos providenciando."

Vicente olhou o nome no rodapé da nova declaração. Era o de um gerente que continuara trabalhando para Leandro mesmo após a prisão. O documento registrava o mesmo horário em que o homem aparecera perto da casa onde Tomás estava.

"Ele tentou nos dividir", falei.

"E quase conseguiu", Vicente respondeu.

Do lado de fora, a equipe abriu o contêiner. Pela janela, vimos retirarem duas fileiras de caixas. A terceira parecia conter peças de metal embaladas em plástico. Um funcionário fotografou a marca de solda que Rafael descrevera.

Ana foi chamada. Insisti em acompanhá-la até a área permitida.

A caixa metálica estava ali. Quando a abriram, encontrei pastas seladas, unidades de armazenamento e cadernos com datas que coincidiam com a folha do armário. Havia nomes de empresas, pagamentos e registros de funcionários usados para movimentar cargas sem que os motoristas soubessem o que levavam.

Um nome aparecia repetidamente nas autorizações: Leandro Ferraz.

Outro me fez erguer a cabeça.

"Vicente."

Ele se aproximou. O nome dele constava numa autorização digital de dois anos antes, quando Rafael ainda era mantido escondido.

"Eu não assinei isso", disse.

"Pode provar?"

"Vou entregar os registros de acesso e os aparelhos que usava na época."

Era a primeira vez que o via aceitar uma investigação sobre si mesmo sem tentar controlá-la.

Ana pediu que fotografassem a página no lugar onde fora encontrada. Eu observei o funcionário fechar a pasta num invólucro próprio e registrar quem a recebera. Rafael perdera anos tentando impedir que aqueles papéis desaparecessem. Não suportaria vê-los sumir por descuido agora.

No corredor de saída, meu telefone tocou de novo. Neide e as crianças haviam chegado a outro endereço. Tomás queria falar comigo.

"Eu achei que você tinha esquecido o pão de queijo", ele disse.

"Não esqueci."

"Você vem hoje?"

Olhei para o porto pela janela. O navio ainda estava ali, mas o contêiner já não sairia nele.

"Vou", respondi. "Estou indo."

Antes que eu guardasse o celular, Ana recebeu uma fotografia enviada pela equipe que examinava a caixa. Era a última página de um dos cadernos. Rafael escrevera no canto, com a própria letra:

Helena precisa ver este nome antes de decidir em quem confiar.

Abaixo da frase, havia a identificação de quem autorizara a primeira busca por mim e por Tomás.

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