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"O Menino Que Reconheceu a Fotografia" Capítulo 8 — O Preço de Voltar

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Capítulo 8 — O Preço de Voltar

Tomás me esperava à mesa da cozinha, com um pedaço de pão de queijo em cada mão.

Júlia tinha levado todos a uma casa pequena, pertencente a uma amiga dela, longe das propriedades Ferraz. Neide dormia numa cadeira com Lívia apoiada em seu ombro. Quando Tomás me viu, correu tão depressa que deixou um dos pães cair.

Abracei-o até ele reclamar que eu o apertava.

"Você demorou."

"Demorei. Desculpa."

"Trouxe mais?"

Mostrei o pacote. Ele pareceu satisfeito com aquela resposta. Crianças de quatro anos podiam nos conceder uma segunda chance por motivos surpreendentemente simples.

Só depois que o vi comer consegui pensar no encontro com Rafael.

Ana telefonou naquela tarde. Leandro prestava depoimento, mas se recusava a dizer para onde pretendia transferir o primo. Os arquivos do cartão e do armário precisavam ser examinados, e Rafael receberia proteção enquanto fosse ouvido. Ela pediu que eu não divulgasse a localização de Tomás, nem mesmo a parentes de Vicente.

"Há outra pessoa ajudando Leandro?", perguntei.

"É uma possibilidade concreta. A entrada dos homens na casa e a fotografia tirada hoje mostram que eles receberam informações recentes."

Quando desliguei, Vicente estava na varanda. A camisa que usava fora emprestada; a manga cobria o sangue seco da noite anterior. Ele não entrou até eu abrir a porta.

"Ana pediu que ninguém saiba onde Tomás está", falei.

"Eu sei."

"Você contou a alguém que veio para cá?"

"Não. Júlia escolheu o lugar."

"Isso inclui seus seguranças?"

"Inclui."

Observei-o por um instante. Na casa dele, Tomás adormecera em seus braços. No galpão, ele ajudara Rafael a sair. Também me vigiara durante anos e decidira sozinho o quanto eu podia saber.

"Quero conversar com seu irmão antes de decidir se Tomás vai conhecê-lo", falei.

"Rafael está no hospital. Posso pedir..."

"Eu mesma vou falar com Ana e marcar."

Vicente assentiu. A facilidade com que aceitou me surpreendeu.

"Você e Rafael sempre foram próximos?", perguntei.

"Quando éramos jovens. Depois ele começou a encontrar coisas nas empresas que eu não queria ver."

"Você não queria ou não podia?"

"Eu dizia a mim mesmo que estava protegendo funcionários. Se interrompesse tudo de uma vez, muita gente perderia trabalho. Era uma boa justificativa para adiar perguntas difíceis."

Foi a resposta mais honesta que ele me dera. Não bastava para reparar o que fizera, mas eu conseguia trabalhar com uma verdade imperfeita melhor do que com outra promessa de proteção.

No dia seguinte, encontrei Rafael numa sala reservada do hospital. Ana ficou do lado de fora. Havia um policial no corredor. Rafael estava sentado, com os pulsos enfaixados e um copo d'água intacto à frente.

"Não trouxe Tomás", eu disse.

"Eu não esperava que trouxesse."

Sentei-me diante dele. A distância entre nossas cadeiras pareceu maior do que os anos de ausência.

"Quero a história inteira. Comece antes do acidente."

Rafael explicou que Leandro usava transportadoras terceirizadas para desviar cargas e pagar pessoas fora dos registros da empresa. Quando Rafael descobriu, tentou reunir provas sem avisar Vicente, porque documentos internos tinham desaparecido depois de uma pergunta feita ao irmão.

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"Achou que Vicente estava envolvido?"

"Por um tempo, sim. Depois vi que Leandro interceptava parte das mensagens dele."

"Você poderia ter me contado."

"Eu devia ter contado. Achei que conseguiria resolver antes de Tomás nascer."

Olhei para as faixas em seus pulsos.

"O corpo enterrado em seu nome?"

"Um funcionário morto naquela noite. Fui obrigado a desaparecer. Quando descobri que tinham usado o corpo dele, já me mantinham preso."

"Mas você saiu ao menos duas vezes. Mandou uma carta. Gravou o vídeo."

"Leandro precisava que eu encontrasse uma parte dos registros que havia escondido. Houve períodos em que me deixaram trabalhar num galpão sob vigilância. Eu usei cada oportunidade para mandar alguma coisa para fora."

"O dinossauro?"

"Preparei o cartão. Uma pessoa aceitou postar o pacote sem saber o que havia dentro."

"Você soube que Tomás recebeu?"

"Não. Quando Leandro foi à escola, entendi que provavelmente tinha chegado."

Aquela resposta explicava muita coisa. Não apagava a escolha anterior: revelar minha gravidez ao homem que o ameaçava. Rafael não tentou diminuí-la.

"Eu queria ser pai dele", disse. "Ainda quero. Mas você decide quando ele vai me ver."

"Tomás não sabe o que aconteceu. Sabe que tinha um pai e que esse pai não estava aqui."

"Não vou pedir que minta por mim."

Saí do hospital com uma condição clara: Rafael poderia mandar uma mensagem de voz para Tomás, dizendo seu nome, sem se apresentar ainda como pai. Eu a ouviria primeiro. Se meu filho quisesse saber mais, avançaríamos aos poucos, com ajuda de alguém preparado para orientar uma criança naquela situação.

Na volta, Tomás estava desenhando à mesa. Havia feito três pessoas, um carro preto e um dinossauro quase do tamanho da casa.

"Quem são?", perguntei.

"Eu, você e o tio Vicente."

"Por que o carro está aqui?"

"É o carro dele."

"Você viu esse carro hoje?"

"Não. O moço viu."

Sentei-me ao lado dele.

"Que moço?"

"O que veio na escola. Ele falou do carro do tio Vicente."

"Quando?"

Tomás apontou para o desenho, impaciente com minhas perguntas.

"Depois do bolo. Ele disse que, se o tio me chamasse, eu podia ir. Ele conhecia o papai."

Até então eu pensara que o homem do boné só queria descobrir se o brinquedo estava com Tomás. Aquela frase tinha outro propósito. Alguém o preparara para obedecer a Vicente.

"Você contou isso a mais alguém?"

"Contei pro moço da casa grande."

"Qual moço?"

"O que abriu a porta lá em cima, quando a gente estava escondido."

O segurança que nos conduzira ao quarto na noite da invasão.

Pedi a Tomás que descrevesse o rosto dele. Meu filho não lembrava. Lembrava de uma pulseira de tecido azul, amarrada junto ao relógio.

Eu a vira naquela noite.

O homem da escola tinha falado de Vicente antes de eu levar Tomás à casa Ferraz. E um segurança da casa tinha conseguido fazer meu filho confiar nele ao repetir a mesma conversa.

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