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"O Menino Que Reconheceu a Fotografia" Capítulo 6 — O Nome Escrito na Lista

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Capítulo 6 — O Nome Escrito na Lista

"De lá onde?"

Perguntei a Júlia antes que Vicente pudesse pegar o telefone. Ela abriu o restante do rascunho. Havia coordenadas, um número de galpão desativado e o nome de uma empresa terceirizada que fazia transporte de funcionários entre terminais do porto.

"Foi Rafael quem escreveu?", perguntei.

"Não dá para afirmar pelo telefone", respondeu Júlia. "Mas o aparelho estava com a carta dele."

Vicente examinou o número do galpão.

"A empresa encerrou as atividades há dois anos."

"Uma empresa encerrada pode continuar sendo usada", falei. "A pergunta é por quem."

Leandro controlava os contratos de transporte e tinha acesso às escalas de segurança. Também podia saber quando Vicente convocava funcionários à casa. A reunião inesperada que me fizera voltar na noite anterior deixara de parecer uma coincidência.

Não contei a Vicente essa conclusão de imediato. Liguei para a coordenadora da escola, que finalmente encontrara o registro da festa. Um visitante se apresentara como representante da empresa que doara o bolo. Assinara com um nome falso; a fotografia do documento anexada ao cadastro estava borrada.

Mas a câmera da portaria o mostrava com boné azul.

Pedi que preservassem a gravação e enviassem uma cópia para meu advogado. Eu não tinha advogado. Ainda assim, a coordenadora prometeu não apagar nada. Em seguida, procurei no celular o contato de uma defensora que ajudara uma colega minha num problema trabalhista. Ela indicou uma advogada criminalista de confiança, doutora Ana Lemos, e me passou o número.

Contei a Ana apenas o necessário para que entendesse o perigo: havia um homem desaparecido, provas em minha posse e pessoas tentando alcançar meu filho. Enviei as cópias da carta e dos arquivos para um endereço seguro fornecido por ela. Ana confirmou o recebimento e pediu que não enfrentássemos ninguém sem registrar a origem do material.

Vicente ouviu a chamada inteira.

"Você está trazendo alguém de fora", disse.

"Foi Rafael quem pediu isso."

"Eu li a carta."

"Então sabe por que fiz."

Tomás estava com Neide e Lívia no apartamento de uma amiga de Júlia, longe da rodoviária. Eu havia falado com ele há dez minutos. Perguntara se eu voltaria para o almoço. Prometi que sim, embora não soubesse se conseguiria cumprir.

Júlia examinou as datas na folha do armário. Três contêineres apareciam tanto ali quanto nas imagens do cartão. Em cada uma das datas, a transportadora de Leandro registrara uma mudança de motorista perto do galpão desativado.

"Se Rafael estiver lá", disse Vicente, "vamos buscá-lo."

"Se você mandar homens armados, eles o levam antes de vocês chegarem."

"Você tem outra ideia?"

Eu tinha começado a formar uma.

O homem na casa de Neide não tentara levar Tomás depois de saber que eu possuía o cartão. O objeto valia mais, ao menos naquele momento. Quem dera as ordens acreditava que a única cópia ainda estava comigo.

"Vamos oferecer uma troca."

"Não", Vicente respondeu.

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"Você ainda não ouviu o resto."

"Não precisa se colocar na frente de Leandro."

"Ele já sabe meu nome, meu endereço antigo e a escola de Tomás. Estou na frente dele desde antes de saber que existia."

Pedi a Júlia que preparasse uma unidade contendo apenas um vídeo e dois documentos sem as páginas finais. Era material suficiente para convencer Leandro de que eu tinha o resto. O cartão original ficaria comigo até Ana confirmar a guarda de outra cópia completa.

Ana insistiu em saber onde seria a troca. Dei a localização e combinei uma condição: se eu não telefonasse até determinado horário, ela entregaria o material e o registro da escola às autoridades. Não era uma garantia de que alguém chegaria a tempo. Era uma forma de impedir que o silêncio resolvesse tudo a favor de Leandro.

Vicente queria acompanhar-me até o galpão. Aceitei que fosse até as proximidades, não que entrasse comigo. Leandro precisava acreditar que eu escolhera agir sem ele.

À tarde, mandei uma mensagem ao número que ligara do apartamento de Neide.

Tenho o cartão. Quero ver Rafael antes de entregar qualquer coisa. Sem Tomás.

A resposta chegou onze minutos depois.

Dez horas. Galpão 14. Venha sozinha.

Não havia fotografia de Rafael, nem prova de que estava lá. Insisti.

Quero ouvi-lo agora.

Recebi um áudio de seis segundos. Primeiro, o barulho de uma porta. Depois, uma respiração irregular.

"Helena, não venha."

Era a voz de Rafael. Mais fraca do que na gravação antiga, mas dele.

Ouvi uma vez. Na segunda, reparei num apito ao fundo e em dois estalos metálicos. Eram os mesmos sons sob a mensagem que ele enviara na noite do suposto acidente. Ele podia ter estado naquele lugar muito antes de saber da existência de Tomás.

Entreguei o áudio a Júlia para que comparasse os ruídos. Vicente ficou imóvel, os olhos presos ao meu celular.

"Está vivo", disse ele.

"Está. Agora vamos tirá-lo de lá."

Às nove e quarenta, Ana confirmou que recebera os arquivos completos. Enviou também uma palavra combinada: se eu a escrevesse por mensagem, ela entenderia que a troca tinha falhado e encaminharia o material imediatamente. Guardei o celular num bolso interno do casaco, com a conversa aberta.

Cheguei ao galpão às dez em ponto. Vicente e Júlia ficaram a várias ruas dali. Eu conhecia a placa do carro deles, mas não conseguia vê-los. Era melhor assim.

Leandro esperava sob uma cobertura de metal. Usava camisa clara, relógio discreto e a expressão cansada de quem fora obrigado a comparecer a uma reunião inconveniente.

Atrás dele, um homem segurava uma pasta. Outros dois vigiavam a entrada lateral.

"Você veio sem o menino", disse Leandro.

"Foi a condição."

"Rafael sempre disse que você fazia perguntas demais."

"Então ele pode me dizer isso pessoalmente."

Leandro estendeu a mão. "O cartão primeiro."

Mostrei a unidade preparada por Júlia sem entregá-la.

"Rafael primeiro."

Um dos homens abriu a porta lateral. Trouxeram Rafael pelo braço. Ele caminhava sozinho, mas havia perdido peso. Uma cicatriz recente atravessava sua sobrancelha. Quando me viu, parou.

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O mundo pareceu estreitar até caber naquele espaço entre nós.

"Helena", ele disse.

Eu queria correr até ele. Queria perguntar por que não tinha voltado, por que me deixara acreditar numa morte que não acontecera. Permaneci onde estava.

"Conte-me uma coisa que só você sabe", pedi.

Rafael olhou para minha mão fechada em torno da unidade.

"Você pôs o nome Tomás numa lista na porta da geladeira antes de saber se era menino."

Minha garganta se contraiu. Era Rafael. A voz do áudio já me convencera; vê-lo transformou a certeza em algo que doía.

Leandro fez um gesto. O homem puxou Rafael para trás.

"Agora me entregue."

"Deixe-o vir até mim."

"Você não está em posição de exigir mais nada."

Ele tirou o celular do bolso e mostrou uma imagem de Tomás entrando no apartamento onde estava com Neide. A fotografia tinha sido tirada naquela tarde.

"Meus homens sabem onde seu filho está", disse. "Se eu sair daqui sem o cartão, eles o levam."

Eu havia previsto que tentaria me assustar com Tomás. Não sabia que chegaria tão perto dele outra vez.

"Você disse que queria o arquivo", falei.

"Quero que Rafael pare de usar a criança para esconder o que roubou."

Rafael ergueu a cabeça. "Ela não sabe do restante, Leandro."

"Você está vivo porque eu ainda preciso dessa informação."

Leandro deu um passo em minha direção. Atrás dele, Rafael tentou se soltar, mas o homem apertou seu braço.

Eu podia entregar a unidade incompleta. Leandro logo perceberia. Precisava fazê-lo falar antes.

"Foi você quem mandou buscar Tomás na casa de Vicente?"

"Foi. Seu filho não teria se machucado se você tivesse entregado o brinquedo."

"O brinquedo que chegou pelo correio há um ano?"

"Rafael encontrou uma maneira de tirá-lo do galpão. Eu só soube quando vi o menino com ele na escola."

A gravação no meu bolso estava ligada desde que entrei.

"Você mostrou a fotografia do pai dele", falei. "E mandou homens armados atrás de uma criança de quatro anos."

Leandro perdeu a paciência.

"Eu mandei buscar o que estava dentro do dinossauro. Rafael vai ser transferido esta noite. Você pode sair daqui com seu filho em paz, se me entregar o original."

Pensei em Tomás perguntando se eu voltaria para o almoço. Pensei na carta guardada junto ao meu corpo e no áudio enviado a Ana. Então apertei, sem tirar o celular do bolso, o botão que mandava a gravação para ela.

Leandro estendeu a mão mais uma vez.

"Acabou, Helena."

Olhei para Rafael, ainda preso junto à porta, e depois para o homem que achava ter vencido.

"Então diga de novo", falei. "Na frente deles: quem mandou tirar Rafael daqui hoje à noite?"

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