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"O Menino Que Reconheceu a Fotografia" Capítulo 5 — A Carta Que Nunca Chegou

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Capítulo 5 — A Carta Que Nunca Chegou

O homem esperava que eu puxasse o cartão de dentro da roupa. Em vez disso, pedi que Neide trouxesse um copo d'água para Tomás.

"Fique aí", ele ordenou a ela.

"Então deixe meu filho beber da torneira", respondi. "Ele já passou a noite ouvindo tiros."

O homem olhou para Tomás. Talvez o tamanho dele tornasse mais difícil fingir que aquela era apenas uma busca por um objeto.

Neide foi à cozinha. Eu a acompanhei com os olhos. Havia uma porta de serviço depois da pia, mas a corrente estava fechada pelo lado de dentro.

"Dou o cartão a você quando Tomás estiver fora daqui", falei.

"Não vai negociar."

"Seu patrão pediu o cartão. Se tentar pegá-lo enquanto seguro meu filho, posso quebrá-lo."

Ele hesitou. Era a primeira vantagem que eu tinha naquela sala.

Pedi que Neide levasse Tomás até o apartamento da vizinha da frente. O homem recusou. Ofereci outra coisa: Tomás ficaria com Neide no quarto de Lívia, de porta aberta, longe da conversa. Ele aceitou depois de verificar que o quarto só tinha uma janela voltada para o pátio interno.

Antes que Tomás entrasse, me agachei.

"Sir Dente vai com você. Mostre para a Lívia quando ela acordar."

Ele me abraçou pelo pescoço. "Você vem?"

"Já."

Neide segurou a mão dele. Quando passaram pela cozinha, vi-a tocar duas vezes no interruptor junto à porta de serviço. A luz não acendeu. Era um sinal para mim, não entendi qual.

O homem voltou a estender a mão.

Tirei do bolso um cartão de memória idêntico ao original. Enquanto esperara o envio dos arquivos na clínica, Júlia me dera um cartão vazio para conferir o leitor. Eu o guardara sem pensar que teria utilidade tão cedo.

"Não aqui", falei. "Você pode conferir no seu carro. Primeiro, a senhora Neide e as crianças ficam em paz."

Ele pegou o cartão e o ergueu contra a luz. Não havia como distinguir os dois por fora. Atravessou a sala rumo à porta, discando um número.

Quando abriu, Júlia o atingiu no braço com a própria porta.

O telefone caiu. Ela imobilizou o homem contra a parede do corredor antes que ele se recuperasse. Um vizinho abriu uma fresta para olhar e tornou a fechá-la.

Saí da frente para que Vicente entrasse.

"Você me seguiu", falei.

"Júlia viu um carro parar aqui antes de vocês chegarem. Eu esperei do lado de fora."

"Podia ter avisado."

"Se ele percebesse que estávamos perto, as crianças ficariam no meio."

Eu não tinha tempo para discutir isso. Corri ao quarto. Tomás estava sentado no chão com Neide e Lívia, mostrando o dinossauro. Os três estavam bem.

Neide ergueu os olhos para mim. "Eu não queria abrir."

"Eu sei."

Na sala, Júlia recolheu o telefone do homem. O cartão falso continuava no chão. Vicente não perguntou onde estava o verdadeiro.

"Ouviu a voz?", perguntei.

正文1

"Ouvi parte."

"Ele conhece uma coisa que Rafael contou a pouquíssimas pessoas."

Vicente ficou sério. "Pode ter ouvido do próprio Rafael."

Era o que eu temia.

Saímos pela porta de serviço. Desta vez, não fui a outro esconderijo escolhido por Vicente. Pedi a Júlia que nos levasse a uma agência dos Correios próxima ao meu antigo endereço. Se Rafael havia tentado falar comigo, talvez tivesse usado mais de um caminho.

A agência estava fechada àquela hora. Esperamos amanhecer num pequeno apartamento de Júlia, sem contar a ninguém para onde tínhamos ido. Vicente ficou no corredor do prédio durante quase toda a madrugada. Eu dormi pouco, sentada ao lado de Tomás.

Pela manhã, levei comigo uma fotografia recente de Rafael extraída do vídeo. Antes de chegar à agência, passei no prédio onde morara quando ele desapareceu. A antiga zeladora, dona Célia, reconheceu-me na hora.

"Helena? Você ainda recebe correspondência aqui às vezes."

"De quem?"

Ela foi até a pequena sala da portaria. Voltou com dois envelopes amarelados e um papel de aviso preso a um deles.

"Esse chegou quando você já tinha mudado. Tentei ligar para o número que tinha, mas não funcionava mais."

Meu nome estava escrito na letra de Rafael.

A data do carimbo era de oito meses depois do suposto enterro.

Abri o envelope ali mesmo. Dentro havia uma folha dobrada e uma chave pequena presa com fita.

Helena, se esta carta chegar a você, não venha me procurar com Tomás. Sei que ele nasceu. Sei que você acredita que eu escolhi não estar aí. Não posso pedir que acredite em mim só porque estou escrevendo.

Há uma cópia do que encontrei num armário da rodoviária de Santos. A chave está aqui. Se eu não conseguir sair, entregue tudo a alguém de fora das empresas Ferraz. Não a Vicente. Ele acha que ainda controla as pessoas à sua volta, mas alguém consegue usar as ordens dele antes mesmo que sejam dadas.

A última linha fora escrita com mais força.

Perdoe-me por ter deixado que você enfrentasse os primeiros meses sozinha. Não tenho o direito de pedir nada além de que proteja nosso filho.

Segurei a carta pelo canto. Eu passara anos tentando decidir se sentiria saudade ou raiva de Rafael, caso pudesse vê-lo outra vez. Agora as duas coisas me sufocavam ao mesmo tempo.

Vicente leu apenas depois que lhe entreguei a folha.

"Ele não confiava em você", falei.

"Eu posso entender por quê."

"Eu preciso saber se o armário ainda existe."

Júlia já procurava o endereço no celular. Vicente sugeriu mandar alguém antes. Recusei. Rafael havia escondido a chave para que a decisão fosse minha. Eu não deixaria outra pessoa abrir aquele armário sem mim.

No trajeto para Santos, liguei para a escola de Tomás. Pedi a lista de visitantes do dia da festa. A coordenadora disse que precisaria verificar o registro físico. Insisti que ninguém, além de mim ou de Neide, estava autorizado a buscar meu filho. Tomás brincava no banco traseiro com Lívia, que Júlia havia levado conosco para que Neide pudesse ficar junto da filha sem se separar de nós. Neide dormia exausta ao lado dela.

O armário ficava numa ala antiga da rodoviária. A chave girou com dificuldade. Dentro havia um envelope impermeável, um telefone desligado e uma folha com números de contêineres e datas de embarque.

No envelope encontrei cópias de mensagens enviadas a Rafael. Algumas eram ameaças. A última continha uma fotografia tirada de longe: eu empurrando o carrinho de Tomás por uma calçada.

Atrás da fotografia, Rafael escrevera um nome e uma pergunta.

Leandro viu meu filho. Quem contou a ele?

Leandro Ferraz era primo de Vicente e diretor das operações no porto. Eu o vira uma única vez, atravessando o salão da casa sem sequer olhar para os empregados.

Mostrei a frase a Vicente.

"O homem da ligação?", perguntei.

Ele não confirmou. Também não negou.

Júlia ligou o telefone encontrado no armário a um carregador. Havia uma mensagem não enviada, salva como rascunho. A primeira linha dizia:

Se Leandro conseguir tirar Rafael de lá antes de sexta-feira, ninguém mais vai encontrá-lo.

Era quinta-feira.

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