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"O Menino Que Reconheceu a Fotografia" Capítulo 4 — A Mentira Que Protegeu Ninguém

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Capítulo 4 — A Mentira Que Protegeu Ninguém

"Então diga o que Rafael contou naquela sala."

Vicente não respondeu de imediato. Na tela do notebook, sua imagem permanecia curvada sobre a mesa, a mão esquerda cobrindo parte da lente. Atrás dele, Rafael aparecia perto da porta.

Júlia estava ao lado do sofá onde Tomás dormia. Olhava para nós sem interferir.

"Ele disse que alguém da minha empresa tinha descoberto a existência de Tomás", respondeu Vicente. "Eu não sabia que era seu filho. Rafael se recusou a dizer onde vocês moravam."

"Mas você encontrou a mim."

"Encontrei depois."

"Por que Rafael estava naquele armazém? Por que não saiu com você?"

Vicente passou a mão pelo rosto.

"Porque estava seguindo o dinheiro das cargas desaparecidas. Disse que precisava de mais alguns dias."

"Você acreditou nele?"

"Não a ponto de deixá-lo sozinho. Pus dois homens meus vigiando o lugar."

"E onde eles estavam quando ele sumiu?"

"Um foi encontrado morto. O outro desapareceu."

A resposta fez Júlia desviar os olhos. Ela conhecia os nomes daqueles homens, percebi. Talvez conhecesse também o que Vicente não estava dizendo.

Voltei ao vídeo. Havia som, mas os primeiros segundos tinham sido gravados baixo demais. Aumentei o volume. Rafael estava dizendo alguma coisa antes de Vicente entrar no quadro.

"...ela não pode saber que você esteve lá."

Parei.

"Esteve onde?"

Vicente olhou para a tela. Eu já sabia que ele reconhecera a frase.

"Na sua casa."

Tomás dormia a poucos passos. Mantive a voz baixa com esforço.

"Quando?"

"Na semana em que Rafael desapareceu, no ano passado. Eu precisava saber se você e o menino ainda estavam no endereço que ele tinha guardado."

"Você me viu?"

"Vi você saindo com Tomás para a creche."

"Ele pediu que não me procurasse?"

"Sim."

"Mesmo assim você procurou."

"Eu não falei com vocês."

"Isso não é a mesma coisa."

Fechei o notebook. Vicente poderia ter me contado tudo ao me contratar. Tivera três semanas para isso. Em vez disso, esperara até que homens armados batessem à porta do quarto onde meu filho se escondia.

"Vou embora com Tomás", falei.

"Helena, a casa não é segura."

"Também não foi. E você me levou para lá."

"Eu não sabia que viriam esta noite."

"Esse é justamente o problema."

Júlia ergueu a chave que me dera. "Há uma saída para a rua. Posso levá-los a um lugar que escolher."

Vicente pareceu prestes a contestar, mas se conteve.

Escolhi o apartamento da senhora Neide. Ela cuidava de Tomás desde que ele tinha dois anos. Se houvesse alguém em quem eu podia confiar, era a mulher que sabia preparar a comida dele sem precisar me perguntar o que o fazia passar mal.

Antes de sair, enviei a cópia dos vídeos para uma pasta protegida cuja senha Vicente não conhecia. O arquivo maior levou vários minutos para carregar. Fiquei diante do computador até receber a confirmação. O cartão original continuou comigo; a unidade com a segunda cópia, sob minha blusa.

正文1

Júlia nos deixou a duas ruas do prédio de Neide. Não quis que o carro fosse visto na porta. Eu concordei.

A chuva diminuíra. Tomás acordou no caminho e pediu para andar. Segurou minha mão com uma, Sir Dente com a outra.

Neide abriu a porta antes de tocarmos a campainha.

"Meu Deus, Helena. Você disse que tinha chegado bem, mas não respondeu mais."

Ela trazia uma blusa antiga e tinha olheiras fundas. Sua filha, Lívia, fora ao hospital naquela tarde com febre. Perguntei por ela.

"Está dormindo. O médico disse que foi uma infecção, já está medicada."

Tomás correu até o tapete da sala. Neide sempre deixava ali uma caixa com lápis e carrinhos. Eu me abaixei para tirar seus tênis molhados.

Foi quando vi os sapatos masculinos atrás do sofá.

Levantei a cabeça.

"Neide, quem está aqui?"

Ela fechou a porta devagar. Sua mão tremia sobre a maçaneta.

"Me desculpa."

Um homem surgiu do corredor. Não era o que gritara diante do quarto, mas reconheci sua voz: ele havia falado com um dos seguranças nos degraus da casa de Vicente. Tinha um telefone na mão e nenhuma arma à vista.

"Deixe o menino onde está", disse.

Puxei Tomás para junto de mim.

"Você trouxe homens armados até a casa onde ele estava", falei. "E agora veio atrás da única pessoa que cuidava dele?"

"Eu vim buscar uma coisa que pertence ao meu patrão."

"Não sei quem é seu patrão."

"Não precisa saber."

Neide começou a chorar. "Eles sabiam em qual hospital a Lívia estava. Disseram que, se eu não abrisse..."

O homem mandou que se calasse.

Tomás apertou minha mão. Eu tinha duas cópias dos arquivos fora dali. Ele não sabia disso.

"O que você quer?", perguntei.

"O cartão."

"Está com Vicente."

"Você não confiaria nele a esse ponto."

Mantive os olhos no homem e afastei Tomás para trás do meu corpo. A porta do apartamento ficava a três passos. A janela da sala dava para a rua, quatro andares abaixo. Não havia saída fácil.

O telefone dele vibrou. Ele atendeu sem tirar os olhos de mim.

"Sim, senhor. Ela está aqui."

Uma voz respondeu do outro lado. O homem ouviu por alguns segundos e então estendeu o aparelho em minha direção.

"Ele quer falar com você."

Não peguei.

A voz saiu pelo alto-falante, calma demais para aquela sala.

"Helena. Rafael me pediu uma vez que não deixasse você descobrir onde ele estava."

Meu corpo inteiro ficou imóvel.

"Quem está falando?"

"Ele também me disse que você guardava os limões na geladeira, apesar de ele reclamar que isso estragava a casca."

Rafael reclamara daquilo tantas vezes que eu costumava comprar um limão só para deixá-lo na fruteira e provocá-lo.

Olhei para Neide. Ela não sabia daquela história. Vicente também não.

"Você esteve com Rafael", falei.

"Estive. Se quiser saber onde ele está agora, entregue o cartão."

A chamada terminou.

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