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"O Menino Que Reconheceu a Fotografia" Capítulo 3 — O Que Havia Dentro do Dinossauro

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Capítulo 3 — O Que Havia Dentro do Dinossauro

Vicente fechou a porta do quarto e colocou a poltrona de volta contra ela. Eu continuava com a unha presa na fenda do brinquedo.

"Tem alguma coisa aí?", perguntou.

"Não sei."

Tentei outra vez. A peça não abriu. Se eu forçasse pelo lado errado, poderia quebrar o que estivesse dentro. Tirei uma presilha do cabelo e a introduzi com cuidado na abertura. Uma pequena tampa se soltou.

Havia um cartão de memória envolto em fita transparente.

Por alguns segundos, ninguém falou.

Tomás estendeu os braços para o dinossauro. Recoloquei a tampa antes de devolvê-lo. A cavidade vazia ficou invisível.

Vicente olhou para o cartão na minha mão. "Preciso ver o que contém."

"Eu também."

"Pode ser a única prova que Rafael deixou."

"Então você entende por que não vou entregá-la."

Um ruído de vidro estilhaçado veio do andar de baixo. O segurança falou pelo rádio e recebeu a confirmação de que a porta lateral ainda estava livre.

Guardei o cartão dentro da costura rasgada do meu casaco molhado. Vicente viu onde o coloquei. Não comentei. Queria que soubesse que eu não tinha medo de contrariá-lo.

Descemos pela escada de serviço, com o segurança à frente. Vicente carregou Tomás depois que meu filho pediu para ir com ele. Mantive-me perto o bastante para pegá-lo de volta ao menor sinal de perigo.

A cozinha estava vazia. Uma panela ainda soltava vapor sobre o fogão, como se aquela continuasse sendo uma noite normal. Do outro lado da porta envidraçada, um utilitário aguardava com o motor ligado.

"Quem dirige?", perguntei.

"Júlia", respondeu Vicente. "Ela trabalha comigo há oito anos."

Uma mulher de cabelo preso saiu do veículo e abriu a porta traseira. Verifiquei o banco, as travas e a janela antes de colocar Tomás ali. Júlia não pareceu ofendida. Entregou-me apenas uma manta seca.

Saímos por uma rua de serviço enquanto a chuva escondia a casa atrás de nós.

No banco traseiro, Tomás voltou a dormir. Vicente estava à frente. Eu segurava a mão do meu filho e vigiava o trajeto pelo vidro. Não reconheci a rua estreita onde Júlia estacionou vinte minutos depois.

O lugar era uma pequena clínica desativada, com persianas baixadas e uma sala nos fundos. Vicente disse que a empresa a usava como ponto de apoio. Não gostei da resposta, mas havia uma porta para a rua e Júlia me deu a chave.

Coloquei Tomás num sofá, perto de mim. Então tirei o cartão do casaco.

"Quero uma cópia antes de você abrir qualquer arquivo", falei.

Vicente trouxe um notebook e um leitor de cartões. Eu não permiti que conectasse o original diretamente. Júlia encontrou um computador antigo sem acesso à rede, copiou os arquivos para uma unidade vazia e me deixou verificar a lista. Havia vídeos curtos, imagens de documentos e uma pasta protegida por senha.

Fiz outra cópia para uma unidade pequena que prendi à corrente sob minha blusa. Só então deixei Vicente sentar ao meu lado.

O primeiro vídeo mostrava um corredor de armazém. Na parede havia uma placa com o nome da transportadora Ferraz. Rafael aparecia de perfil, falando baixo para a câmera.

"Se você encontrou isto, alguém chegou perto demais do menino."

Parei a reprodução.

Vicente me encarou. "Ele sabia."

"Há um ano, pelo menos." Li a data de criação do arquivo. "Tomás já tinha três."

Recomecei.

Rafael parecia exausto. Tinha uma marca escura sob o olho e olhava repetidamente para trás.

"Helena, eu tentei voltar. Não acredite em quem disser que fui embora porque quis. Não mostre isto a ninguém antes de guardar uma cópia. Principalmente..."

A imagem tremeu. Uma porta se abriu fora do enquadramento. O vídeo acabou.

"Principalmente quem?", perguntei.

Vicente não respondeu. Eu também não esperava que adivinhasse.

Abri o arquivo seguinte. A câmera estava fixa sobre uma mesa. Dois homens discutiam ao fundo, fora de foco. Um deles era Rafael. O outro se aproximou, apoiou as mãos na madeira e ergueu o rosto para a lente.

Vicente.

No vídeo, ele usava o mesmo relógio que Tomás tocara naquela noite.

"Você disse que Rafael desapareceu depois do acidente", falei.

"Foi o que aconteceu."

"A gravação é do ano passado."

Vicente aproximou-se da tela. Quando falou, sua voz saiu mais baixa.

"Eu não sabia que havia uma câmera."

Pus a mão sobre o notebook, impedindo que ele tocasse no teclado.

"Então vai me contar, sem pular nenhuma parte, por que encontrou seu irmão vivo e deixou meu filho acreditar que ele estava morto."

No sofá, Tomás se mexeu sob a manta. Vicente olhou para ele, depois para a imagem congelada de si mesmo.

"Porque naquela sala Rafael me disse uma coisa", respondeu. "E, se ele estava certo, a pessoa que mandou buscar Tomás esta noite ainda tem acesso à minha casa."

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