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"O Menino Que Reconheceu a Fotografia" Capítulo 2 — O Homem Que Devia Estar Morto

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Capítulo 2 — O Homem Que Devia Estar Morto

"Que foto, Tomás?"

Meu filho recuou ao ouvir minha voz. Ajoelhei-me para ficar à altura dele.

"Esta aqui." Mostrei a imagem que Vicente acabara de me entregar. "Onde você já viu o seu pai?"

Tomás encostou o dinossauro no peito.

"O homem me mostrou."

"Que homem?"

"O do bolo."

Meu aniversário não era importante. O de Tomás, sim. Eu conseguia lembrar de cada pessoa que estivera na festa de quatro anos dele, três meses antes: minha vizinha, duas crianças do prédio, a senhora Neide e seu filho adolescente. Nenhum homem desconhecido.

"Foi na escola?", perguntei.

Ele assentiu. "Tinha bolo na escola. Ele falou que conhecia meu pai."

Vicente se agachou ao nosso lado.

"O que ele parecia, Tomás?"

Tomás escondeu o rosto no meu ombro.

"Não vai precisar falar com ele", prometi. "Só me conte o que lembra."

"Boné azul. E ele deu suco."

Senti frio apesar da roupa úmida. Na comemoração da escola, os pais podiam enviar bolo, mas visitantes precisavam se identificar na portaria. Eu buscara Tomás mais cedo naquele dia. A professora não mencionara ninguém.

"Ele mostrou essa mesma foto?"

"Parecida. O papai estava sorrindo."

Guardei a imagem longe da vista dele.

Vicente levantou-se. "Precisamos sair desta casa."

"Antes, você vai me dizer como Rafael morreu. Ou como fingiu morrer."

"Não aqui."

"Não vou entrar num carro seu sem saber por que homens armados chamam meu filho pelo nome."

Ele olhou para a porta aberta e chamou um segurança. O homem apareceu com o rosto marcado por um corte, mas andava sem dificuldade. Vicente mandou que vigiasse o corredor e se voltou para mim.

"Há quase cinco anos, meu irmão trabalhava numa das empresas da família. Descobriu alterações em registros de carga. Na noite em que iria me mostrar o que tinha encontrado, houve um acidente na estrada de Santos."

"Um caminhão atingiu o carro dele", completei. "Eu fui ao enterro."

"Havia um corpo. A identificação foi feita antes que eu chegasse."

"Você está dizendo que enterramos outra pessoa?"

"Estou dizendo que encontrei motivos para duvidar disso depois."

"Quando?"

Vicente demorou a responder.

"Dois anos atrás."

Dei um passo para trás. "Você sabia que eu existia?"

"Rafael tinha uma fotografia sua."

"E sabia do meu filho?"

"Não. Só descobri há três semanas."

Três semanas. O tempo exato desde que eu começara a trabalhar naquela casa.

"Você me contratou."

"A administradora contratou você. Eu aprovei quando vi o nome."

Minha vontade foi pegar Tomás e sair, chuva ou não. Mas o homem que gritara do corredor sabia onde nos encontrar. E Vicente ainda tinha a única ligação concreta com Rafael.

"Você me vigiou por três semanas sem dizer nada."

"Eu precisava saber se alguém mais tinha chegado até vocês."

"Alguém chegou. Na escola."

Ele aceitou a acusação sem tentar se defender. Isso me deixou ainda mais irritada.

Na cama, Tomás começou a esfregar os olhos. Pedi água e uma toalha limpa. Vicente falou com o segurança à porta, que saiu para buscá-las.

正文1

Enquanto esperávamos, abri minha bolsa atrás do carregador portátil. Eu o usava no ônibus e tinha esquecido que estava ali. Liguei o celular. A tela mostrou uma sequência de mensagens da senhora Neide perguntando se havíamos chegado bem. Mandei uma resposta breve, sem informar onde estávamos.

Depois abri a conversa antiga com Rafael.

Nunca apagara as mensagens. Por muito tempo, relê-las fora a única forma de ouvir sua voz sem procurar vídeos que não existiam. Encontrei o áudio que ele havia enviado no dia do acidente.

"Vou chegar tarde. Tem uma coisa que preciso resolver primeiro. Amanhã conversamos, prometo."

A gravação terminava com uma buzina distante. Durante anos, aquela frase tinha sido meu motivo para sentir raiva dele, mesmo depois da morte.

Olhei o horário: 23h18.

"Disseram que a batida aconteceu às dez e quarenta da noite."

Vicente estendeu a mão, mas não entreguei o aparelho.

"A notícia saiu com esse horário", falei. "Tenho guardada a cópia do documento que me deram. Como ele enviou isso depois?"

"Talvez o horário tenha sido registrado errado."

"Talvez. E talvez alguém tenha querido que eu parasse de fazer perguntas."

Deixei o áudio tocar novamente. Vicente se aproximou para ouvir. Na segunda vez, notei algo sob a voz de Rafael: duas batidas metálicas seguidas de um aviso distante, abafado demais para entender as palavras.

Não parecia uma estrada.

"Seu irmão gravou isso em algum depósito?"

Vicente franziu a testa. "Parece o alarme de ré de um veículo de carga."

O segurança voltou com água, toalhas e um casaco seco de mulher. Antes que eu pudesse perguntar de quem era, um rádio chiou em seu ombro.

"Senhor, encontramos dois homens na área de serviço. Um deles estava procurando os quartos."

Vicente pegou o rádio. "A saída norte?"

"Livre por enquanto."

"Ponha o carro perto da porta lateral."

"Eu escolho para onde vamos", falei.

"Pode escolher. Primeiro precisamos atravessar o corredor vivos."

Essa resposta era difícil de contestar.

Enrolei Tomás no casaco, mas ele empurrou minha mão para procurar Sir Dente. O brinquedo tinha caído ao lado da cama. Ao me abaixar, vi uma marca clara no ventre de plástico. Não lembrava de tê-la visto antes.

"Eles falaram alguma coisa?", perguntei ao segurança.

O homem trocou um olhar com Vicente.

"Conte a ela", ordenou Vicente.

"Um deles disse que a criança tinha o que eles vieram buscar."

Segurei o dinossauro mais firme.

Tomás ganhara Sir Dente pelo correio em seu terceiro aniversário. A caixa não tinha remetente. Eu achara que vinha de uma antiga colega de trabalho, até descobrir que ela não sabia do presente.

Do corredor, veio um grito, seguido pelo barulho de passos correndo na direção oposta.

Vicente se posicionou diante da porta.

"Helena, entregue o brinquedo. Vamos deixá-lo aqui."

"Se é isso que querem, preciso saber o que há dentro."

"Depois que estivermos fora."

Olhei para o ventre do dinossauro. A pequena marca não era um arranhão. Era a borda de uma peça encaixada.

Passei Tomás para a cama, onde ele podia me ver, e enfiei a unha na abertura. O plástico cedeu uma fração.

Lá embaixo, uma porta bateu.

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