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"A Mulher Que Ele Chamava Pelo Nome de Outra" Capítulo 9 — O Preço de Falar

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Capítulo 9 — O Preço de Falar

Patrícia apareceu na casa de Clara na manhã seguinte.

Eu não a convidei para subir. Desci com Clara e encontrei minha irmã no salão de entrada, longe dos apartamentos. Ela usava roupa comum em vez do jaleco. Parecia menor sem o crachá preso ao peito.

“Mostre o que veio mostrar”, falei.

Patrícia segurava o telefone, mas não o entregou.

“Quatro anos atrás, quando você perdeu o bebê, André me mandou uma fotografia de uma receita. Disse que você tinha tomado um medicamento por conta própria e depois culpado a viagem dele pelo que aconteceu.”

“Eu nunca disse que a viagem causou a perda.”

“Disse que ele a abandonou no hospital.”

“Porque abandonou.”

Patrícia desviou os olhos. Minha mãe a convencera durante anos de que eu dramatizava tudo. André só precisara lhe oferecer uma fotografia sem contexto.

“Você ainda tem a imagem?”

Ela abriu uma conversa antiga e me deixou fotografar a tela com meu celular. A suposta receita tinha meu nome, mas a parte inferior estava cortada. Não mostrava a identificação de quem a emitira nem a data completa.

“Por que não me perguntou?”

“Ele disse que você não queria tocar no assunto.” Patrícia guardou o telefone. “Eu achei que estava protegendo você.”

“Na festa de Marília, você estava me protegendo de quê?”

Ela ficou em silêncio.

“E no vídeo da clínica?”

“Eu não publiquei aquilo.” Sua voz endureceu. “Consultei a gravação depois da confusão, para ver o que tinha acontecido. Alguém pediu o arquivo à administração dizendo que precisava avaliar uma reclamação.”

“Quem?”

“Não sei quem o recebeu depois.”

Clara fez algumas perguntas sobre horários e procedimentos. Patrícia respondeu às que sabia, recusou-se a especular sobre as demais e voltou a pedir que eu não a acusasse publicamente.

“Não publiquei seu nome”, falei. “Você apareceu porque estava lá.”

“Não entende. Minha carreira…”

“Eu entendo. Você me pediu silêncio pela sua carreira. Minha mãe, pelo dinheiro. André, pela Marília. Em algum momento, alguém pensou em perguntar o que eu precisava?”

Patrícia baixou o rosto. Não esperei sua resposta.

Depois que ela saiu, enviei a fotografia da receita ao serviço de saúde para conferir se aquele documento constava dos meus registros. Pedi também uma cópia do atendimento de quatro anos antes. A resposta não viria naquele dia.

Na consulta de acompanhamento, ouvi notícias que me obrigaram a deixar o telefone dentro da bolsa.

A equipe avaliara meus exames recentes e explicara as opções para a gestação com mais clareza. Ainda havia incertezas sobre o desenvolvimento do bebê. Também precisavam acompanhar de perto minha saúde. Perguntei o que sabiam, o que não sabiam e quando teríamos novas informações.

Saí com datas marcadas e nenhuma frase simples para contar a alguém.

No carro, Clara não tentou me animar.

“Quer que eu a leve para casa?”

“Daqui a pouco.”

Ficamos estacionadas diante de uma praça. Observei uma mulher ajudar uma criança a subir num brinquedo. Pensei no jantar que eu fizera no aniversário do casamento. Na casa cheia de luz que nunca existira para mim. No bebê que eu já amava sem saber se poderia levá-lo para casa.

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Meu telefone acendeu. Renata queria me encontrar.

Dessa vez, não foi para pedir que eu assinasse.

Eu sei quem mandou cortar o vídeo. Posso contar tudo, se você retirar meu nome do que Clara está preparando.

Mostrei a mensagem a Clara.

“Ela quer trocar uma informação pela sua proteção”, disse.

“E se for a única pessoa capaz de provar?”

“Podemos ouvi-la. Você não precisa prometer o que não pretende cumprir.”

Marquei a conversa para o dia seguinte num café movimentado. Pedi que ela levasse as mensagens originais, não capturas escolhidas. Renata respondeu com um sinal de positivo.

Naquela noite, a clínica enviou a confirmação de que a gravação completa permanecia preservada. Também informou que a apuração interna identificara o acesso de Patrícia e investigava uma segunda extração do arquivo. Não dizia quem a fizera.

No café, Renata chegou sem maquiagem e sem a confiança que exibira no carro. Sentou-se diante de mim e pousou o telefone sobre a mesa.

“Antes de mostrar qualquer coisa”, disse, “quero saber se você vai me expor.”

“Vou contar a verdade sobre o que você fez, se for necessário. Não vou inventar o que não puder provar.”

“Isso não me ajuda.”

“Você também não me ajudou quando me levou à clínica.”

Ela pegou o telefone, abriu uma conversa e o girou na minha direção.

Havia mensagens de André sobre a data do meu exame. Havia instruções para Renata me contar do caso no caminho, quando eu estivesse longe de casa e prestes a entrar na clínica. Depois, uma mensagem enviada a outra pessoa:

Ela vai chegar abalada. Grave quando eu negar que a conheço.

O número do destinatário estava salvo sob um nome que eu nunca vira.

Renata acompanhou meu olhar.

“Foi essa pessoa que recebeu o arquivo da clínica”, disse. “E foi ela quem escolheu os vinte segundos que todo mundo viu.”

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