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"A Mulher Que Ele Chamava Pelo Nome de Outra" Capítulo 6 — O Preço do Silêncio

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Capítulo 6 — O Preço do Silêncio

Enviei a conversa da imobiliária a Clara antes de sair do carro.

Ela leu no estacionamento do prédio, com o motor já desligado.

“A mensagem prova que André queria afastar você dessa negociação”, disse. “Ainda não prova quem é dono do imóvel nem de onde saiu todo o dinheiro.”

“Então vamos descobrir.”

Naquela tarde, Clara preparou os pedidos de documentos que considerava cabíveis. Eu organizei uma planilha simples: cada transferência feita a André, cada despesa da casa, cada período em que ele dissera viajar a trabalho.

Não preenchi lacunas com suposições. Onde eu não tinha comprovante, deixei a célula vazia.

Júlia encontrou meus contracheques antigos numa das caixas que trouxera. Clara os colocou ao lado dos recibos. A diferença entre a vida que André alegava poder pagar e a que mostrava nos vídeos de Marília ficou visível mesmo sem calcular o total.

Dois dias depois, um advogado de André entrou em contato com Clara propondo uma conversa sobre o divórcio. Sugeriu que eu não levasse o assunto “para a esfera pública”.

Mostrei a mensagem à minha amiga.

“Ele publicou um vídeo cortado de mim.”

“Talvez não consigamos provar ainda que foi ele quem publicou”, Clara respondeu. “Mas podemos exigir que parem de usar aquilo para pressionar você.”

Concordei em ouvir a proposta. A reunião seria no escritório do advogado, durante o dia. André estaria presente.

Na noite anterior, minha mãe apareceu na portaria de Clara. Não subi nem desci; falei com ela pelo interfone.

“Seu pai está sendo cobrado por uma dívida”, disse. “O André ia nos ajudar.”

“Ele prometeu dinheiro se eu assinasse?”

“Prometeu ajudar a família. Você é da família.”

“Quanto?”

Ela respirou fundo. Ouvi vozes na rua atrás dela.

“Não vou discutir valores pelo interfone. Você sabe o que seu pai passou.”

“Eu perguntei quanto.”

Minha mãe desligou.

Salvei o registro da chamada e anotei o horário. Depois fiquei muito tempo sentada diante da janela da sala. Não pensava em como convencê-la a escolher meu lado. Pensava em quantas vezes pagara uma conta de casa enquanto meus pais me diziam que André era um homem trabalhador.

No dia da reunião, vesti a única camisa social que Júlia tinha trazido do apartamento. Estava um pouco apertada na cintura. Olhei meu reflexo, tirei a aliança e a guardei num envelope dentro da bolsa.

André aguardava na sala com seu advogado. Levantou-se quando entrei. Parecia ter dormido mal, mas continuava com os óculos alinhados e a voz calma de professor diante de uma turma difícil.

“Marina.”

Sentei ao lado de Clara.

O advogado apresentou a proposta: André pagaria uma quantia única em troca de um acordo de divórcio, da solução das questões patrimoniais incluídas no documento e do compromisso de encerrar as manifestações públicas sobre ele e Marília.

“Quanto?”, perguntei.

Ele disse o valor.

Era alto o suficiente para parecer generoso a quem não conhecesse a herança de André. Era baixo demais para explicar o apartamento, as transferências que eu fizera e os cinco anos em que paguei quase sozinha pela vida que dividíamos.

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“Essa quantia também inclui o dinheiro que você prometeu à minha família?”, perguntei a André.

Seu advogado pousou a caneta.

“Não existe tal promessa”, disse.

André olhou para Clara.

“Foi a Renata quem colocou essas ideias na cabeça dela?”

“Renata me contou que receberia depois da minha assinatura”, respondi. “Minha mãe disse que você ia ajudá-los. Quero saber quantas pessoas esperam pagamento.”

Ele cruzou os braços.

“Eu disse que não deixaria seus pais sem amparo. Você sabe como eles estão.”

“E Patrícia?”

“Patrícia se envolveu porque você a arrastou para isso.”

Pensei na mensagem da clínica, no vídeo recortado, na minha irmã pedindo que eu escondesse a certidão. Não respondi de imediato.

Clara abriu uma pasta.

“Antes de falar em acordo, precisamos tratar do vídeo e dos valores oferecidos a terceiros para influenciar a decisão da Marina.”

O advogado de André recostou-se na cadeira.

“Se possuem prova de algum pagamento, apresentem.”

André soltou uma breve risada.

“Não existe pagamento.”

Eu lhe fiz a pergunta que preparara naquela manhã.

“Nem pela conta que você usava para me mandar a reserva da casa?”

Sua risada cessou.

A conta era antiga. André acreditava que eu só via nela as transferências mensais que eu mesma fazia. Mas uma notificação bancária enviada para o e-mail compartilhado de contas domésticas mostrara uma movimentação que eu não reconhecia. Clara verificara a origem do documento e pedira os registros pertinentes. Naquela manhã, recebera a confirmação de uma transferência feita por André.

“Você está confundindo despesas”, ele disse.

“Talvez. Foi por isso que trouxe a data, o valor e o comprovante.”

Clara colocou uma cópia sobre a mesa, voltada para o advogado. Primeiro apontou a identificação da conta de origem. Depois, a data: o dia anterior à conversa em que Renata me levara à clínica.

André tentou pegar o papel. O advogado o deteve com um gesto e leu até o fim.

“Isso não prova que o valor tenha relação com o divórcio”, afirmou.

“Então nos ajude a entender”, Clara respondeu. “Por que André transferiu dinheiro para essa pessoa justamente naquela semana?”

Vi o instante em que André reconheceu o nome no campo do destinatário. Seus olhos saíram do documento e buscaram meu rosto.

Até ali, ele achara que eu sabia apenas de Renata, de Patrícia e dos meus pais.

Eu sabia de mais uma pessoa.

Clara girou o comprovante na minha direção e colocou o dedo sobre o nome de quem recebera o dinheiro.

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