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"A Mulher Que Ele Chamava Pelo Nome de Outra" Capítulo 5 — A Porta Fechada

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Capítulo 5 — A Porta Fechada

No terceiro dia na casa de Clara, recebi uma mensagem do banco avisando que a conta usada para pagar o aluguel estava perto do limite.

André não depositara sua parte naquele mês.

Abri o histórico e percorri os pagamentos. Aluguel, mercado, internet, condomínio. Quase todos saíam do meu salário. Eu sabia disso em termos vagos; ver cinco anos reduzidos a datas e valores me deixou sem espaço para inventar desculpas por ele.

Havia uma transferência mensal da minha conta para a dele, identificada como

reserva da casa

. Eu mesma configurara o pagamento automático depois que André disse que estava juntando dinheiro para comprarmos um apartamento.

A transferência daquele mês estava marcada para a manhã seguinte.

Cancelei o agendamento e salvei os comprovantes anteriores.

“André vai perceber”, disse Clara, quando lhe contei.

“Pode perceber.”

Eu estava sentada à mesa da cozinha, com a perna estendida e o telefone diante de mim. Clara conferiu os arquivos sem tocá-los.

“Quero buscar meus documentos e minhas roupas”, falei. “O frasco veio comigo, mas há caixas antigas naquele apartamento. E os recibos do que paguei.”

Clara olhou para minha perna.

“Você recebeu orientação para evitar esforço. Vamos pedir ajuda, fazer uma visita curta e sair se ele aparecer.”

Chamei Júlia, uma colega de trabalho que morava a dez minutos de nós. Ela não perguntou sobre o vídeo. Respondeu apenas:

Posso dirigir e carregar as caixas.

O apartamento que eu dividia com André ficava no oitavo andar de um prédio antigo. Quando abri a porta, senti cheiro de café esquecido na garrafa térmica. Havia uma camisa dele no encosto da cadeira, exatamente onde eu a vira antes de sair para o exame.

Por um segundo, tudo pareceu no lugar.

Então encontrei minha fotografia de casamento virada para baixo sobre a estante.

Júlia entrou atrás de mim com duas sacolas. Clara ficou perto da porta, organizando o que precisávamos levar.

Peguei meus documentos, o computador do trabalho, algumas roupas e os cadernos em que anotava as despesas da casa. Júlia fotografou as condições dos cômodos a meu pedido. Eu não queria que André dissesse mais tarde que havíamos danificado alguma coisa.

Faltava o escritório.

Era o menor quarto do apartamento. Quando nos mudamos, eu quis colocar ali um armário para guardar nossas coisas. André disse que precisava de silêncio para preparar aulas e que havia trabalhos de alunos protegidos por confidencialidade. Aceitei. A porta passou a ficar trancada mesmo nos dias em que ele não estava.

Naquela manhã, estava apenas encostada.

Empurrei-a.

A primeira coisa que vi foi Marília, sorrindo numa fotografia grande presa à parede.

Havia outras ao redor: André e Marília diante de uma estação de trem, num restaurante à beira-mar, numa rua coberta de neve. Algumas pareciam antigas. Outras mostravam o mesmo relógio que ele usara na semana anterior.

Sobre a mesa, encontrei um convite impresso para a festa no apartamento das janelas enormes. A data era a do nosso aniversário de casamento.

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Júlia parou atrás de mim.

“Ele guardava isso aqui?”

“Eu nunca entrava.”

Clara veio até a porta. Olhou primeiro para mim, depois para a parede.

“Podemos fotografar o que está visível. Não mexa nos arquivos do computador dele.”

Assenti. Eu não queria dar a André uma discussão sobre senhas ou acesso indevido que desviasse a atenção do que ele fizera.

Tirei fotografias da parede, do convite e de uma pequena pilha de envelopes deixada à vista sobre a mesa. Num deles, reconheci o nome de uma imobiliária. Anotei a identificação sem abrir o envelope.

Havia bilhetes colados na moldura de um quadro. Num deles, André escrevera que conhecer uma mulher chamada Marina o assustara, porque os amigos também a chamavam de Mari. Em outro, dizia que Marília voltaria em breve.

Não precisei ler todos. Aquelas poucas linhas já explicavam por que ele insistira num apelido que eu nunca usava com mais ninguém.

Arranquei a mão antes de tocar no papel.

Clara se aproximou.

“Quer sair?”

“Quero terminar.”

Encontrei numa gaveta da sala os recibos das compras maiores que fizera para o apartamento alugado. Separei os que estavam em meu nome. Fotografei os demais e deixei-os onde estavam.

Quando abri o armário do corredor para pegar uma mala, havia uma sacola de uma joalheria na prateleira alta. Dentro, só um catálogo. O preço de um dos anéis estava circulado a caneta.

Lembrei-me do diamante no dedo de Marília.

Meu celular vibrou. André enviara uma mensagem.

O banco me avisou que você cancelou a transferência. Está no apartamento?

Não respondi. Escrevi para Júlia que precisávamos descer. Ela já estava guardando minhas roupas na última sacola.

Antes de sair, fiz uma fotografia ampla do escritório com a porta aberta. A luz da janela caía sobre os rostos de André e Marília. Eu vivera a poucos metros daquela parede durante anos.

No elevador, Clara me entregou uma garrafa de água.

“Você fez bem em sair”, disse.

“Preciso saber de onde veio o dinheiro do apartamento dela.”

“Vamos pedir os documentos pelos meios certos.”

No carro, consultei meus antigos e-mails. Procurei o nome da imobiliária impresso no envelope e encontrei uma mensagem de cinco anos antes, enviada após André e eu visitarmos um imóvel.

Foi um prazer recebê-los hoje

, escrevera a corretora.

Conforme solicitado, seguem as informações para uma futura proposta.

André me dissera naquela época que não tínhamos condições de comprá-lo. Eu respondera à corretora agradecendo a visita e arquivara a conversa.

A mensagem mais recente naquela mesma cadeia era de três meses antes. Não havia sido enviada para mim. Eu a recebera porque a corretora clicara em “responder a todos”.

Confirmo o recebimento dos documentos para a transferência solicitada pelo senhor André Vasconcelos. Antes de avançarmos, preciso esclarecer a situação da Sra. Marina Azevedo, mencionada na proposta inicial.

Abaixo, André respondera apenas a ela:

Minha esposa não precisa participar dessa conversa. Resolvo isso em breve.

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