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"A Mulher Que Ele Chamava Pelo Nome de Outra" Capítulo 4 — A Mulher do Vídeo

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Capítulo 4 — A Mulher do Vídeo

Na manhã seguinte, acordei com quarenta e três chamadas perdidas.

Nenhuma era de André.

Havia ligações de colegas de trabalho, dois números desconhecidos e sete da minha mãe. O restante vinha de pessoas que eu não falava havia anos.

Clara dormia no sofá da sala. Eu estava no quarto de hóspedes, com a perna apoiada sobre uma almofada e as orientações médicas na mesa de cabeceira. Antes de ligar para alguém, abri a mensagem da minha supervisora.

Marina, me avise quando puder. Estão compartilhando um vídeo seu nos grupos da empresa.

Sentei devagar e procurei meu nome.

O primeiro resultado tinha sido publicado por um perfil que eu não conhecia. O vídeo começava no momento em que eu mostrava a certidão de casamento a Marília. Terminava antes de André tentar segurar meu pulso.

A legenda dizia:

Mulher persegue professor casado e aborda esposa grávida dentro de clínica.

Assisti mais uma vez. Na gravação, minha voz parecia alta. A de André quase não aparecia. Quem visse apenas aqueles segundos acreditaria que eu tinha interrompido uma consulta para assustar uma desconhecida.

Alguém congelara meu rosto num quadro em que eu estava prestes a chorar. Nos comentários, me chamavam de amante rejeitada.

Levantei para buscar água. Minha perna reclamou do movimento. Fiquei parada junto à porta até a dor diminuir.

Clara apareceu no corredor.

“Você viu?”

Mostrei a tela. Ela se sentou ao meu lado e abriu o link no próprio celular.

“Não responda aos comentários ainda. Me mande o endereço da publicação e as capturas com data e nome do perfil.”

“Eu estava lá. Você viu a certidão.”

“Eu sei.”

“Eles não sabem.”

Minha mãe mandou uma mensagem naquele instante.

Apague o escândalo que fez. O André não vai continuar te ajudando se você insistir nisso.

Li em voz alta. Clara ergueu os olhos.

“Ele está ajudando você?”

“Não me acompanha nem ao médico.”

Abri nossa conversa mais recente. Antes das perguntas sobre o exame, havia semanas de recados meus: a conta de luz, a torneira vazando, o horário de uma consulta. André respondera a alguns com um sinal de positivo.

Clara pediu que eu guardasse também aquelas mensagens. Em seguida, ligou para a clínica e perguntou como solicitar a preservação das imagens da área comum no horário do confronto. Falou em meu nome depois que autorizei. A atendente informou que precisaria encaminhar o pedido à administração.

“Talvez não nos entreguem as imagens diretamente”, Clara disse ao desligar. “Mas precisamos impedir que sejam apagadas enquanto buscamos o caminho adequado.”

A palavra

apagadas

me fez abrir o vídeo outra vez.

Alguém tivera acesso a um ângulo alto, próximo ao teto. Parecia uma câmera de segurança.

“Patrícia trabalha lá”, falei.

“Também pode haver outras pessoas com acesso. Não vamos acusá-la por enquanto.”

Clara tinha razão. Mesmo assim, eu me lembrei de Patrícia aparecendo no corredor segundos depois que mostrei a certidão.

正文1

À tarde, minha supervisora ligou.

Ela me conhecia havia seis anos e costumava ser direta. Naquela ligação, escolheu cada palavra com cuidado.

“Você precisa de alguns dias afastada?”

“Já enviei o atestado.”

“Recebi. Sua saúde vem primeiro.” Ela fez uma pausa. “Um cliente mandou o vídeo para a direção perguntando se você trabalha conosco.”

“É uma gravação cortada.”

“Acredito em você. Só queria que soubesse o que está acontecendo.”

Quando desliguei, chorei pela primeira vez desde que saíra do carro de Renata. Não por causa do cliente. Chorei porque minha vida agora cabia num vídeo de vinte segundos escolhido por outra pessoa.

Clara esperou que eu lavasse o rosto. Depois colocou o notebook sobre a mesa.

“Quer decidir comigo o que podemos mostrar?”

Abri a certidão digitalizada. Havia informações pessoais que eu não queria publicar. Clara sugeriu uma versão que comprovava o casamento sem expor números de documentos nem endereços. Escrevemos uma declaração curta: André Vasconcelos e eu éramos casados; a gravação publicada omitia o que ele dissera e fizera antes e depois; eu solicitara a preservação das imagens completas.

Li o texto três vezes.

“Quero acrescentar que estou grávida.”

Clara me olhou.

“Você não deve isso a estranhos.”

“Se eu publicar, vão discutir meu bebê também.”

“Vão. Por isso quero que escolha sabendo.”

Retirei a frase. A gestação era minha, e eu ainda nem sabia o que aconteceria com ela.

Publiquei a declaração no meu perfil e enviei uma cópia à supervisora. Nas primeiras horas, recebi apoio e insultos na mesma proporção. Desativei as notificações.

Ao anoitecer, Renata apareceu na portaria do prédio de Clara.

“Ela diz que só precisa de cinco minutos”, avisou o porteiro pelo interfone.

“Diga que não vou descer.”

Menos de um minuto depois, chegou uma mensagem.

Você está piorando tudo. O André ofereceu uma saída limpa.

Respondi:

Para quem?

Renata enviou um áudio. Clara me perguntou se eu queria ouvi-lo sozinha. Apertei o botão com ela ao meu lado.

“Marina, você sempre achou que bastava ser boa com as pessoas. Seus pais precisam de dinheiro. Patrícia tem contas. Eu também tenho uma vida. Assina o divórcio, pega o que ele oferecer e deixa a Marília em paz.”

Ouvi outra vez para ter certeza de que não havia entendido errado.

A mulher a quem eu ajudara durante seu próprio divórcio falava da minha vida como se fosse uma despesa a dividir.

“Ela acabou de admitir que há uma oferta”, disse Clara.

“Sem dizer quanto recebeu.”

“Mas agora sabemos o que perguntar.”

Naquela noite, a clínica respondeu ao pedido de preservação. Confirmou que verificaria a gravação da área comum e registrou o número do protocolo. Clara arquivou a resposta.

Quando me preparava para dormir, apareceu uma nova publicação. O mesmo perfil mostrava uma fotografia antiga minha à porta da universidade onde André lecionava.

Ela o persegue há anos

, dizia a legenda.

Reconheci o dia. Eu levara a André os documentos que ele esquecera antes de uma aula. Fora ele quem me pedira para ir.

Ao fundo da fotografia, perto da entrada, Renata olhava para a câmera.

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