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"A Mulher Que Ele Chamava Pelo Nome de Outra" Capítulo 3 — A Esposa Desconhecida

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Capítulo 3 — A Esposa Desconhecida

Mantive a bolsa junto ao corpo.

“Quais comprimidos?”

André olhou para a porta da clínica antes de responder.

“As vitaminas. Você disse que ia levá-las ao exame.”

“Eu não disse.”

Ele ajeitou os óculos, um gesto que eu conhecia bem. Fazia isso quando queria alguns segundos para preparar uma explicação.

“Patrícia comentou que você estava preocupada com o que toma. Só quero saber se está tudo bem.”

O carro que pedi parou junto ao meio-fio. Conferi a placa no aplicativo.

“Vou investigar”, respondi.

Entrei antes que ele pudesse fazer outra pergunta. Pelo vidro traseiro, vi André pegar o celular e começar a digitar.

No pronto atendimento, expliquei os sintomas, apresentei os encaminhamentos e mostrei o frasco. Repeti a história a mais de um profissional. Fizeram exames para avaliar minha perna e me mantiveram em observação até definir os próximos passos. Disseram que o conteúdo do frasco também precisava ser identificado com cuidado; ninguém poderia concluir sua origem ou seus efeitos olhando apenas uma embalagem.

Clara chegou enquanto eu aguardava o resultado de um exame. Estava com uma camisa amarrotada e a mochila do trabalho ainda no ombro.

“Você está com uma cara péssima”, falou.

“Também senti sua falta.”

Ela puxou uma cadeira para perto da maca. Fiquei tão aliviada ao vê-la que precisei olhar para o teto antes de conseguir falar.

Mostrei o vídeo do apartamento, as mensagens de Patrícia e a fotografia da certidão. Clara assistiu sem me interromper.

“Renata contou tudo no carro?”, perguntou.

“Disse que André ofereceu dinheiro para nos separar. Não gravou a conversa, pelo menos que eu saiba.”

“Então vamos tratar isso como uma informação a verificar. O vídeo e as mensagens estão salvos?”

“Em dois lugares.”

Ela assentiu. Pediu que eu anotasse, enquanto ainda lembrava, a ordem exata do que Renata dissera e onde havíamos parado o carro. Também fotografou comigo os documentos do atendimento. Não prometeu que aquilo provaria tudo. Pela primeira vez naquele dia, achei reconfortante ouvir alguém admitir o que ainda não sabia.

“Você pode ir para casa comigo quando receber alta”, disse.

“Preciso pegar minhas coisas.”

“Não hoje, se o médico pedir repouso.”

“Não vou atrás do André.” Apertei o papel do exame entre os dedos. “Só não quero que ele seja o único com acesso às nossas contas.”

Clara ponderou por um momento.

“Então vamos planejar antes de você entrar naquele apartamento.”

Meu telefone começou a tocar. Era Renata. Recusei a chamada. Ela enviou uma mensagem logo depois.

Eu te contei para você pedir o divórcio, não para ir atrás deles.

Mostrei a Clara.

“Responda?”, perguntei.

“Se quiser, mas escolha uma pergunta cuja resposta importe.”

Digitei:

Você recebeu dinheiro do André?

Renata visualizou. Não respondeu.

Guardei o telefone. A ausência de resposta não era prova, mas eu conhecia Renata o bastante para saber que, se a acusação fosse absurda, já teria mandado cinco mensagens indignadas.

正文1

Uma profissional voltou para falar dos meus exames. Explicou o que havia sido encontrado na perna e o tratamento que a equipe indicava, levando em conta a gestação. A avaliação do bebê continuaria com especialistas. Fiz perguntas até compreender o que aconteceria naquela noite e marquei no celular as orientações que não queria esquecer.

Quando Clara foi buscar água, André apareceu na entrada da sala.

Sua camisa estava aberta no colarinho. Ele olhou primeiro para a maca, depois para a sacola transparente onde eu guardara o frasco.

“Patrícia me disse que você veio para cá.”

“Ela está acompanhando meus atendimentos?”, perguntei.

“Está tentando ajudar.”

“Foi você quem pediu que ela descobrisse o que eu falei aos médicos?”

André fechou a cortina atrás de si, deixando-a entreaberta.

“Precisamos resolver isso antes que você faça alguma coisa da qual se arrependa.”

“Você pode começar dizendo o que colocou naquele frasco.”

Ele pareceu mais irritado do que surpreso.

“Comprei um suplemento. Guardei as informações em casa.”

“Ótimo. Me mande uma fotografia da compra e da composição.”

“Você sabe que não tenho isso aqui.”

“Então mande quando chegar.”

André se aproximou da maca.

“Marina, Marília está passando mal desde que você falou com ela.”

“Eu também estou num hospital.”

Ele olhou para minha perna, coberta pelo lençol, sem perguntar como eu me sentia.

“Não precisava mostrar a certidão na frente de todo mundo.”

“Ela perguntou quem eu era.”

“E você aproveitou para machucá-la.”

Antes que eu respondesse, Clara abriu a cortina com duas garrafas de água na mão.

“André Vasconcelos?”, perguntou.

Ele se endireitou.

“Quem é você?”

“Clara Nogueira. Amiga da Marina.”

Ela me entregou uma garrafa e permaneceu ao lado da maca. André reconheceu que não conseguiria falar comigo a sós.

“Depois conversamos”, disse.

“Pode mandar os documentos do frasco antes”, respondi.

Ele foi embora sem concordar.

Recebi alta mais tarde, com orientações de acompanhamento e uma consulta já encaminhada. Clara levou minha bolsa. Eu caminhei devagar ao lado dela até a saída, concentrada em cada passo.

Na área de espera, Patrícia conversava com nossa mãe.

As duas se levantaram ao me ver.

“Marina, por que não atendeu?”, minha mãe perguntou. “O André ficou preocupado.”

Clara parou comigo a alguns metros delas.

“Estou recebendo atendimento”, respondi. “Vou descansar na casa da Clara.”

Patrícia olhou para a bolsa na mão dela.

“Você não precisa envolver uma advogada num problema de família.”

“Quem disse que ela está aqui como advogada?”

“Renata falou que você anda salvando vídeo, fazendo perguntas.”

Minha mãe suspirou, impaciente.

“Você viu seu marido com uma antiga namorada e perdeu a cabeça. Volte para casa. Amanhã todos conversamos.”

“Ela está grávida dele”, falei.

Minha mãe desviou os olhos.

Eu tinha procurado alguma frase que pudesse me convencer de que Renata mentira sobre minha família. Aquele silêncio acabou com a procura.

Patrícia deu um passo na minha direção.

“Não faça isso aqui.”

“Você sabia?”

“Marina…”

“Quando eu preparei aquele jantar no nosso aniversário, você estava no apartamento deles?”

Minha mãe segurou o braço de Patrícia. Nenhuma das duas respondeu.

Clara tocou de leve meu ombro.

“Vamos.”

Eu já estava virando quando ouvi minha mãe dizer:

“Pelo menos pense no dinheiro que vai perder se continuar teimando.”

Parei.

Patrícia fechou os olhos, como se a frase tivesse escapado cedo demais.

“Que dinheiro?”, perguntei.

Minha mãe abriu a boca, mas foi Patrícia quem falou.

“Ela está cansada. Amanhã conversamos.”

Saí com Clara antes que inventassem uma resposta em que eu quisesse acreditar.

No carro, meu celular vibrou. Renata enfim respondera à pergunta que eu lhe fizera horas antes.

Ainda não recebi nada. O André só paga depois que você assinar.

Encaminhei a mensagem para Clara. Então abri uma nota no telefone e escrevi os nomes dos quatro: André, Renata, Patrícia, minha mãe.

Pela primeira vez, eu sabia exatamente de quem precisava me proteger.

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