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"A Mulher Que Ele Chamava Pelo Nome de Outra" Capítulo 2 — O Frasco

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Capítulo 2 — O Frasco

Voltei ao balcão antes de entrar na sala de ultrassom.

“Minha irmã trabalha aqui”, falei à recepcionista. “Patrícia Azevedo. Ela consegue ver meus exames?”

A mulher hesitou.

“Não posso falar sobre o acesso de outros profissionais ao seu prontuário. Se a senhora tiver alguma preocupação, pode conversar com a responsável pela clínica.”

Anotei o nome da responsável. Até aquela manhã, eu teria ligado para Patrícia e perguntado diretamente. Agora precisava descobrir o que ela sabia sem avisá-la do que eu sabia.

Na sala, a médica me pediu que me deitasse. O papel sobre a maca estalou sob minhas costas.

“Está com alguma dor?”, perguntou.

“Minha panturrilha esquerda dói há alguns dias. Também sinto falta de ar às vezes.”

Ela interrompeu o preparo do aparelho.

“Falta de ar agora?”

“Agora não.”

Fez mais perguntas, examinou minha perna e chamou uma colega para avaliar os sintomas. O ultrassom mostrou uma gestação de treze semanas, mas a médica permaneceu muito tempo diante da tela. Explicou que havia uma alteração a investigar e que eu precisaria de uma avaliação especializada. Não tentou transformar aquela imagem numa resposta definitiva.

Saí da sala com encaminhamentos, instruções para procurar atendimento ainda naquele dia por causa da perna e uma impressão do exame que não consegui olhar.

Na bolsa, meus dedos tocaram um frasco pequeno.

Uma cápsula por mês. André dizia que o havia comprado no exterior depois da minha primeira perda. Nas poucas vezes em que perguntei o nome do produto, respondeu que eu me preocupava demais.

Mostrei o frasco à médica antes de ir embora.

Ela leu o rótulo duas vezes.

“Não tome outra cápsula até identificarmos exatamente o que há aqui”, disse. “E leve a embalagem ao atendimento. Não descarte nada.”

“A senhora sabe o que é?”

“Não vou afirmar isso sem verificar. Mas não parece o suplemento que você descreveu.”

Guardei o frasco com cuidado. Na saída, fotografei todos os lados da embalagem e mandei as imagens para meu e-mail. Depois escrevi para Clara Nogueira, uma amiga da época da escola que agora trabalhava como advogada.

Preciso de ajuda. Não conte à minha família que falei com você.

Clara ligou em menos de um minuto.

“Marina? Onde você está?”

“Numa clínica. Vou para o pronto atendimento.”

“Está sozinha?”

Olhei pela porta de vidro. Um carro escuro parou na área de embarque. André saiu primeiro e correu para abrir a porta do passageiro. Marília desceu devagar, segurando a barriga. Quando ele lhe ofereceu o braço, ela sorriu.

“Não por muito tempo”, respondi.

Contei a Clara o suficiente para que entendesse por que eu estava com medo. Ela me pediu que procurasse atendimento antes de qualquer confronto e que mantivesse comigo os documentos e o frasco.

“André não sabe que descobri?”, perguntou.

“Mandou mensagem perguntando do exame. Não respondi.”

“Continue assim até você estar em segurança. Estou indo encontrar você.”

Desliguei quando André e Marília entraram na clínica. Eu poderia ter esperado no elevador e evitado os dois. Em vez disso, fiquei perto da recepção, onde havia funcionários e pacientes.

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André passou a poucos passos de mim sem me ver.

“Patrícia disse que estava tudo bem com o bebê”, falou a Marília. “Vamos ouvir o médico e depois almoçar.”

“Você prometeu que hoje ficaria comigo.”

“E vou ficar.”

A ternura na voz dele me feriu mais do que o vídeo. André tinha cancelado a última consulta comigo porque precisava corrigir provas.

Marília tocou o anel de diamante em seu dedo. Eu baixei os olhos para a minha aliança fina, comprada num quiosque no dia em que nos casamos.

André me viu.

Seu sorriso desapareceu. Por um instante, achei que ele viria até mim. Em vez disso, inclinou o corpo para proteger Marília da minha vista e a conduziu ao corredor.

Eu o segui.

“André.”

Ele parou, mas não se virou de imediato. Marília olhou de um rosto para o outro.

“Vocês se conhecem?”

André respondeu antes de mim.

“É uma pessoa que aparece às vezes na faculdade. Vamos entrar.”

Foi preciso me apoiar na parede para não perder o equilíbrio.

“Cinco anos de casamento”, falei. “É isso que sou agora? Uma pessoa que aparece às vezes?”

Marília franziu a testa.

“O que ela está dizendo?”

“Marina, não faça uma cena.”

Eu tinha uma fotografia da certidão de casamento no celular. Abri a imagem e a mostrei a Marília. André tentou abaixar minha mão; recuei antes que me tocasse.

Marília leu nossos nomes. Seu rosto mudou.

“Você me disse que já tinha resolvido isso.”

“E vou resolver”, ele respondeu.

Aquela frase me deu uma informação que eu não tinha antes: ela sabia da minha existência, embora talvez não soubesse que ainda éramos casados.

“Não preciso discutir com vocês aqui”, eu disse. “Tenho um atendimento para fazer.”

Quando me virei, André segurou meu pulso.

“Que atendimento?”

Olhei para a mão dele até que me soltasse.

“Você perguntou como foi meu exame. Agora decidiu se interessar?”

Patrícia surgiu no corredor com um crachá preso ao jaleco. Ao me ver, diminuiu o passo. Depois reparou na certidão aberta no meu telefone.

“Marina”, disse, num tom que usava quando queria mandar em mim sem levantar a voz, “vamos conversar em particular.”

“Hoje não.”

Atravessei a recepção. Atrás de mim, ouvi André perguntar a ela se eu já recebera os resultados. Não esperei a resposta.

Do lado de fora, sentei num banco e abri o aplicativo do plano de saúde para localizar o pronto atendimento indicado. Minhas mãos tremiam tanto que errei a senha duas vezes.

Uma nova mensagem chegou de Patrícia.

Se você mostrar aquela certidão de novo, vai prejudicar a Marília. Não seja egoísta.

Li devagar. Minha irmã me acompanhara ao hospital quando perdi a primeira gravidez. Naquele dia, segurara minha mão até eu dormir.

Agora me pedia que escondesse meu casamento para proteger a gravidez de outra mulher.

Encaminhei a mensagem para Clara. Em seguida, fotografei o encaminhamento médico e pedi um carro.

Antes que ele chegasse, André saiu sozinho da clínica.

“Marina, precisamos conversar.”

“Pode escrever o que tem a dizer.”

Ele olhou para minha bolsa, onde eu guardara o frasco.

“Sobre o exame”, perguntou, “o médico comentou alguma coisa sobre os comprimidos que você toma?”

Eu nunca tinha dito a ele que levara o frasco à consulta.

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