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"A Mulher Que Ele Chamava Pelo Nome de Outra" Capítulo 1 — O Nome

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Capítulo 1 — O Nome

“Quatro anos atrás, eu tentei seduzir o seu marido.”

Renata disse isso enquanto esperávamos o semáforo abrir. Eu estava no banco do passageiro, com a mão apoiada na barriga e o pedido do ultrassom dobrado dentro da bolsa.

Virei o rosto para ela.

“Você escolheu um péssimo dia para fazer uma brincadeira.”

“Não é brincadeira.”

A buzina de um carro soou atrás de nós. Renata arrancou, mas manteve os olhos na avenida.

“Foi numa confraternização da faculdade. O André tinha bebido. Fiquei sozinha com ele, cheguei perto, deixei bem claro o que queria.”

Senti o rosto esquentar. Renata era minha amiga havia nove anos. Tinha passado a noite comigo quando perdi minha primeira gravidez. Sabia que André e eu estávamos tentando de novo.

“E por que está me contando isso agora?”

“Porque ele me afastou.” Ela apertou o volante. “Nem levantou os olhos. Ficou repetindo que não podia trair a Mari.”

O ar voltou aos meus pulmões.

André às vezes me chamava de Mari, sobretudo quando queria que eu parasse de fazer perguntas. Eu detestava admitir, mas aquelas duas sílabas tinham acabado de me trazer alívio.

“Então ele fez a coisa certa”, respondi. “Você é que devia ter me contado antes.”

Renata soltou uma risada curta.

“Marina, você achou que ele estava falando de você?”

A paisagem do lado de fora pareceu parar.

“Ele estava falando de Marília Lins”, ela disse. “A mulher com quem namorou antes de conhecer você.”

“Marília foi embora do país.”

“E voltou. Está grávida do André.”

Eu olhei para Renata, esperando que ela recuasse. Que dissesse que tinha inventado aquilo por crueldade, raiva, qualquer motivo que ainda coubesse no mundo em que eu vivera até aquela manhã.

Ela encostou o carro diante de uma farmácia. Desligou o motor e pegou o celular.

“Não quero ver.”

“Você vai querer saber quem estava lá.”

Na tela, um vídeo mostrava uma sala enorme, clara, com janelas do chão ao teto. André entrava carregando flores. Uma mulher de vestido azul corria até ele. Quando ela virou o rosto, vi que tinha cabelos escuros como os meus. André a beijou diante de um grupo que aplaudia.

Reconheci minha mãe primeiro. Depois Patrícia, minha irmã, segurando o celular para filmar. Meu pai estava perto da janela.

O vídeo fora publicado três meses antes, no aniversário do nosso casamento.

“Eu fiz um jantar naquele dia”, falei.

Renata não respondeu.

Eu tinha saído mais cedo do trabalho e comprado os ingredientes do prato preferido de André. Ele não apareceu. Minha família também não. Às dez da noite, apaguei as velas do bolo que havia comprado para nós dois.

André voltou seis dias depois. Disse que um aluno tinha sido internado e que precisara acompanhá-lo.

Assisti ao vídeo outra vez. A mulher de azul ergueu uma taça. Atrás dela, minha mãe sorria.

“O apartamento é dele?”, perguntei.

“Foi presente para ela.”

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A sala tinha as janelas que André me fizera admirar cinco anos antes, quando saímos do cartório. Ele me levara para conhecer um apartamento parecido e prometera que um dia moraríamos num lugar cheio de luz.

Desde pequena eu dormira num quarto improvisado ao lado da área de serviço. André sabia por que aquela promessa importava.

“Quanto custou?”

“Mais do que ele ganharia dando aulas em vinte anos.” Renata guardou o celular. “Ele recebeu uma herança dos pais. Nunca precisou do seu salário.”

Pensei nas contas que pagava sozinha para que ele pudesse “guardar dinheiro para o nosso futuro”. Nas camisas que passava antes de sair para o trabalho. No notebook novo que comprara para suas aulas enquanto adiava a troca dos meus óculos.

Abri nosso grupo da família. A última mensagem era minha, enviada naquela manhã:

Alguém pode me acompanhar ao exame?

Minha mãe visualizara. Patrícia também. Ninguém respondera.

“Por que me trouxe até aqui, então?”

Renata baixou o olhar para as próprias mãos.

“André ofereceu dinheiro para quem convencesse você a pedir o divórcio. Seus pais sabem. Patrícia sabe.”

“E você?”

Ela demorou demais a responder.

“Eu disse a ele que conseguiria falar com você.”

Uma moto passou entre os carros. Seu escapamento fez Renata estremecer, mas ela continuou olhando para a frente.

“Eu devia te agradecer por ter decidido contar a verdade?”

“Faça o que quiser. Só não diga que eu não avisei.”

A clínica ficava a duas quadras dali. Pedi que ela me deixasse na porta. Renata tentou dizer mais alguma coisa; eu já tinha aberto o carro.

Na calçada, antes de entrar, encontrei o perfil público de Marília. Salvei o vídeo, a data da publicação e os comentários. Em uma das fotos, Patrícia escrevera:

Vocês merecem toda a felicidade do mundo.

Meu telefone vibrou.

Era uma mensagem de André.

Como foi o exame?

Olhei para a pergunta. Ele nunca se lembrava das consultas. Na semana anterior, eu mesma lhe enviara o endereço da clínica, e ele respondera que tinha aula.

Não escrevi de volta.

Entrei, confirmei meu nome na recepção e sentei com o celular na mão. Na tela apagada, vi meu reflexo: olheiras fundas, cabelos presos às pressas e uma mulher que ainda usava aliança.

Quando chamaram “Marina Azevedo”, levantei.

Meu telefone vibrou outra vez. Desta vez, a mensagem era de Patrícia.

Não faça nenhuma besteira na consulta. Pense no bebê.

Eu não havia contado à minha irmã que Renata me revelara a verdade.

Mesmo assim, Patrícia já sabia que eu precisava ser contida.

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