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"O Homem Que Entrou Pela Porta dos Mortos" Capítulo 5 — A Caixa Sem Lacre

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Capítulo 5 — A Caixa Sem Lacre

Na manhã seguinte, Augusto pediu para me ver.

Aceitei encontrá-lo na sala de reuniões da empresa, com Beatriz presente. Não queria voltar à biblioteca de casa, onde todos pareciam achar que podiam falar por mim.

Coloquei sobre a mesa as fotografias do box vazio.

"Você escreveu meu nome no envelope. O que havia ali?"

Augusto passou a mão pela testa.

"Dois conjuntos de registros. Um era da Azevedo Atlântico. O outro não devia estar entre as nossas cargas."

"Mais específico."

"Comprovantes de entrada de contêineres, pagamentos a empresas intermediárias e cópias de autorizações."

"Por que os escondeu num armário que Caio podia localizar?"

"Quando deixei a chave, ele não tinha acesso àquela ala."

"Depois do funeral, conseguiu uma cópia da chave principal."

Augusto olhou para Beatriz, como se esperasse que ela explicasse o tamanho do erro por ele.

"Se eu pudesse voltar atrás..."

"Você não pode. Quem sabia do box 304?"

"Eu. Mauro sabia que a sala existia, mas não o número. E Renato Vidal."

Renato, o conferente que morrera depois de tentar falar com Dante.

"Mais alguém?"

Augusto demorou a responder.

"Otávio conhecia o Armazém 17. Não o box."

Beatriz anotou os nomes.

Perguntei sobre as iniciais no livro de entradas. Augusto admitiu que vira Caio no armazém antes de desaparecer. Disse que o filho procurava contratos de transporte e que não tinha motivo, naquela época, para afastá-lo.

"Tudo o que você diz sobre ele termina em 'naquela época'", falei. "O que pensa agora?"

"Não sei até onde Caio foi para manter a empresa aberta."

Foi a primeira resposta sincera que recebi dele desde sua volta. Não me deixou menos furiosa.

Beatriz conseguiu a ordem de manutenção das câmeras. Tinha sido registrada às duas e dezenove da madrugada, quatro minutos depois de a imagem cair. O funcionário indicado como responsável jurou que estava de folga e não usara o sistema.

Alguém havia empregado suas credenciais.

O lacre azul trouxe uma pista melhor. Mauro reconheceu a cor: no ano anterior, um lote de envelopes de segurança fora comprado para guardar documentos retirados das cargas sob investigação. Cada lacre tinha uma sequência impressa, mas o pedaço que recolhemos continha só dois algarismos.

"Há controle de distribuição?", perguntei.

"Havia uma planilha", Mauro disse. "A equipe fazia cópias semanais porque o sistema caía muito."

"Quem tem a cópia?"

"Uma funcionária do faturamento. Júlia."

Júlia Almeida não parecia feliz em nos ver. Trabalhava numa sala pequena, onde duas impressoras funcionavam ao mesmo tempo. Quando Beatriz explicou o que procurávamos, ela olhou para a porta.

"Não quero ser arrastada para uma briga da família."

"Entendo", falei. "Também não quero que você entregue nada sem registro. Podemos pedir formalmente ao setor."

Júlia hesitou.

"Se fizerem isso, Caio fica sabendo."

"Ele já sabe que estamos investigando."

"Não é só isso." Ela abaixou a voz. "Quando o senhor Augusto morreu, me mandaram apagar uma pasta compartilhada. Fiz uma cópia antes."

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"Quem mandou?"

"Uma ordem da diretoria. Tinha o nome de Caio, mas nunca falei com ele pessoalmente."

Beatriz não pediu o arquivo ali, diante das outras mesas. Combinamos que Júlia entregaria uma cópia a ela, com registro de onde a guardara e quando a fizera. A original permaneceria intacta.

Antes de sairmos, Júlia apontou para a fotografia do lacre.

"Se esses números forem trinta e oito, o envelope veio de uma caixa que não passou pelo protocolo normal."

"Por quê?"

"Foi separada para retirada manual. Eu lembro porque discutiram sobre a assinatura."

"O nome de quem?"

Júlia olhou outra vez para a porta.

"Preciso conferir a planilha antes de dizer."

À noite, levei a Beatriz as cópias dos documentos que encontráramos. Ela examinou datas e assinaturas enquanto eu comparava números de contêiner.

Uma das cargas tinha entrado no Armazém 17 e desaparecido das contas três dias depois. O registro digital dizia que fora devolvida ao remetente. A planilha de Júlia indicava que continuara ocupando espaço por mais nove dias.

A mesma divergência se repetia com outras duas cargas.

"Isso explica parte do buraco nas contas", falei.

"Pode explicar movimentações escondidas. Ainda não sabemos quem recebeu o dinheiro", Beatriz respondeu.

Ela imprimiu duas versões da planilha para trabalhar. Na primeira, marcamos somente as diferenças entre entrada e saída. Na segunda, incluímos também a referência ao lacre azul.

Decidi usar a primeira numa reunião com Otávio. Ela bastava para mostrar que eu tinha algo que ele desejava, sem entregar a pista de Júlia.

Dante chegou quando estávamos terminando. Eu o havia chamado porque seu nome aparecia numa autorização de acesso ao terminal.

Ele leu a linha.

"Minha equipe retirou Renato Vidal dali naquela noite."

"Por que?"

"Renato disse que seria morto se entregasse os papéis diretamente a Augusto."

"Ele morreu mesmo depois de procurar você."

Dante levantou os olhos.

"Sim."

Eu esperara uma justificativa. A resposta simples foi pior.

"Você encontrou quem vazou o encontro?"

"Não."

"Então alguém próximo de você também pode estar envolvido."

"Pode."

Beatriz observava os dois.

Dante se aproximou da janela, deixando a planilha sobre a mesa.

"Ferraz vai perguntar o que você achou no box. Se souber que há cópias, tentará recolhê-las antes que comparem as cargas."

"É por isso que vou pedir uma reunião", falei.

"Ele não irá se achar que você tem apenas números."

"Vou dizer que encontrei um documento assinado por quem autorizou as retiradas."

Dante olhou para as duas versões da planilha.

"Você encontrou?"

"Ainda não. Quero ver o que ele fará quando pensar que encontrei."

"É arriscado."

"Mais arriscado é esperar que ele escolha a hora."

Beatriz explicou as condições: a reunião seria registrada, em local com outras pessoas por perto, e não entregaríamos nenhum original. Eu falaria apenas de documentos cuja existência pudesse demonstrar. Se Otávio fizesse uma exigência, teríamos testemunhas.

Dante ofereceu seus homens para a segurança. Aceitei dois do lado de fora, com a condição de que ele não entrasse na sala antes de eu chamá-lo.

"Você gosta de me deixar esperando", disse.

"Estou começando a descobrir que você consegue."

Pela primeira vez desde o banheiro da casa, ele riu de verdade. Foi breve. Depois viu que eu ainda estava séria e voltou à planilha.

Na manhã da reunião, Júlia entregou a Beatriz a cópia que guardara, acompanhada de uma explicação escrita sobre sua origem. A sequência completa do lacre azul estava lá.

O envelope de número trinta e oito saíra da guarda da empresa na mesma semana em que Augusto desaparecera. Alguém anotara que o recebera para "conferência de assinatura".

O campo do recebedor estava coberto por uma correção digital.

Abaixo, porém, aparecia o nome da mulher que lançara a entrega:

Rosa Mendes

.

"Ela ainda trabalha aqui?", perguntei.

Júlia balançou a cabeça.

"Foi dispensada depois do funeral."

"Consegue encontrá-la?"

"Tenho o número antigo."

Rosa atendeu Beatriz naquela tarde. Lembrava-se da caixa. Lembrava-se também de quem pedira que ela não registrasse o nome no livro físico.

Depois de ouvir sua versão, desligamos sem insistir para que viesse imediatamente. Beatriz precisaria verificar as datas e preservar o relato dela antes de qualquer confronto.

Otávio aceitou a reunião para o dia seguinte.

"Diga a Ferraz que levarei o que encontrei", falei a Beatriz. "Sem mencionar Rosa."

Quando saí da empresa, Caio estava perto do meu carro. Ele viu o envelope vazio na minha mão e empalideceu.

"Você falou com alguém do faturamento?"

"Falei."

"Helena, há coisas que você não entende."

"Então amanhã será uma boa oportunidade para explicá-las."

Caio segurou a porta do carro antes que eu entrasse.

"Ferraz não vai à reunião para conversar."

"Nem eu."

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