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"O Homem Que Entrou Pela Porta dos Mortos" Capítulo 4 — O Preço de um Sobrenome

正文开头

Capítulo 4 — O Preço de um Sobrenome

"Caio levou a planta ontem à noite?"

Mauro assentiu e fechou a caixa de documentos.

"Ele perguntou pelos armários antigos. Entreguei a cópia que não mostra os números."

"Por que guardou esta?"

"Seu pai me pediu para não descartar as plantas originais."

Olhei de novo para o pequeno quadrado marcado

304

. Augusto escondera uma chave para mim, mas dera a Caio acesso à sala onde ela poderia ser usada. Eu ainda não sabia se confiara nos dois ou se, seis meses antes, confiara no filho errado.

Beatriz fotografou a planta. Depois pediu a Mauro os registros de entrada do Armazém 17.

"Os registros digitais ficam com a segurança", ele respondeu. "Os livros antigos, comigo."

"Quero os dois."

Mauro foi buscar o livro. Nesse intervalo, meu telefone vibrou pela sexta vez.

A primeira mensagem vinha de uma amiga que eu não via desde o funeral.

Helena, isso é verdade?

Ela havia enviado uma captura de tela. Minha fotografia aparecia ao lado da de Dante Valença, sob uma manchete que dizia que eu deixara um noivo rico para me casar com um homem ainda mais perigoso. O texto atribuía a "pessoas próximas da família" a informação de que eu negociara a dívida da empresa em troca de proteção e patrimônio.

Havia outra frase, mais calculada:

A própria herdeira teria assinado garantias antes de mudar de lado.

Mostrei a tela a Beatriz.

"A contestação da assinatura foi protocolada ontem", ela disse. "Quem publicou isso quer se antecipar."

Mauro voltou com o livro e parou ao ver meu rosto.

"Está tudo bem?"

"Não. Mas preciso das páginas."

Na noite em que Augusto supostamente morrera, três pessoas haviam entrado na área antiga do armazém. Meu pai era uma delas. As outras duas assinaturas estavam borradas por água. Na semana seguinte, alguém registrara uma visita usando apenas as iniciais

C.A.

Caio Azevedo.

Fotografei as páginas.

Quando saímos do arquivo, recebi uma ligação da diretora comercial. Dois clientes tinham pedido esclarecimentos; um deles suspendia temporariamente os embarques. Em menos de uma hora, a fofoca começara a custar trabalho a pessoas que não tinham participado de nenhuma decisão da minha família.

"Precisamos responder", falei.

"Podemos negar o que é falso", disse Beatriz. "Sem publicar documentos que ainda estamos examinando."

Caio me encontrou na sala de reuniões com três diretores. Um deles mantinha o telefone virado para baixo, mas a manchete estava aberta na tela.

"Você devia ter falado comigo antes de vir aos arquivos", Caio disse.

"Eu falei. Pedi os registros ontem."

"Não para envolver funcionário nessa confusão."

Mauro ficou imóvel perto da porta.

"Ele me mostrou documentos da empresa", respondi. "Não o use para discutir comigo."

A diretora comercial, Patrícia, interrompeu antes que Caio replicasse.

"Tenho quarenta minutos para responder a um cliente que representa vinte por cento da nossa operação. Preciso saber se os contratos serão cumpridos."

正文1

Olhei para Caio. Ele não tinha resposta.

"Serão", falei. "A cobrança da dívida está suspensa enquanto as garantias são verificadas. Peça aos setores uma lista dos embarques e pagamentos desta semana. Vamos enviar ao cliente o que podemos comprovar."

"Você não pode prometer isso sem falar com Valença", Caio disse.

"Então vamos falar com ele na frente de Patrícia."

Liguei para Dante no viva-voz. Ele atendeu no terceiro toque.

"Preciso que confirme aos diretores o alcance da suspensão da cobrança", falei. "Sem mencionar nosso acordo pessoal."

Dante confirmou os termos do documento assinado pela empresa credora. Patrícia fez duas perguntas sobre os próximos pagamentos. Ele respondeu às duas e desligou quando ela disse que tinha o suficiente.

Caio me observava como se aquela fosse a primeira vez que eu fazia uma pergunta útil numa reunião.

Talvez fosse. Eu passei anos aceitando que meu lugar estava fora dali.

Com Beatriz, preparei uma declaração curta: eu contestava a assinatura da garantia pessoal; a empresa seguia operando; nenhuma decisão sobre meu casamento havia sido tomada em nome da família. Não mencionei o Armazém 17 nem a falsa morte de Augusto.

Antes de divulgar o texto, pedi a Patrícia que ligasse pessoalmente aos dois clientes. Ela conhecia o que precisava ser entregue e podia responder melhor do que uma manchete.

Ao fim da tarde, um dos clientes manteve os embarques. O outro pediu mais vinte e quatro horas. Não era uma vitória completa, mas Mauro e sua equipe ainda teriam trabalho no dia seguinte.

Caio apareceu à porta quando Patrícia saiu.

"Gostou de me desautorizar?"

"Não. Gostaria que você tivesse mostrado o empréstimo antes de usar meu nome."

Ele fechou a porta.

"Vi você com a planta antiga. Está procurando o quê no armazém?"

"Você foi lá ontem?"

"Fui procurar documentos do papai."

"Quais?"

"Se eu soubesse, não teria pedido a planta."

Era possível que dissesse a verdade. Também era possível que tivesse visto o número 304 antes de Mauro lhe entregar a cópia incompleta.

"Não vou discutir isso sem Beatriz", falei.

Caio soltou uma risada amarga.

"Agora preciso de uma advogada para falar com minha irmã?"

"Depois da garantia, sim."

Dante me encontrou do lado de fora da empresa. Não havia homens em volta dele, apenas um carro parado junto à calçada.

"Li a declaração", disse.

"Era para os clientes e os funcionários."

"Funcionou?"

"Em parte."

Ele percebeu o livro de registros sob meu braço. Eu o havia recebido apenas para fazer cópias e precisava devolvê-lo a Mauro antes de sair.

"Vai ao Armazém 17?"

"Vou quando souber quem mais tem acesso."

"Ferraz sabe que você procurou a planta."

Parei.

"Como?"

"Um homem ligado a ele perguntou pelo prédio hoje cedo."

"Você poderia ter me avisado."

"Soube há dez minutos."

Dante mostrou a hora da mensagem, sem me entregar o telefone. Era recente.

"Quero ver a sala antes que a esvaziem", falei.

"Então vamos agora."

正文2

"Beatriz vem conosco."

"Já imaginei."

No caminho, liguei para Mauro e pedi que aguardasse com o responsável pela segurança. Dante não reclamou de haver testemunhas.

O Armazém 17 tinha paredes claras manchadas de sal. Caminhões entravam por um portão lateral; a antiga sala de armários ficava atrás de uma área usada para caixas vazias.

O chefe da segurança abriu a porta diante de nós.

Lá dentro, os boxes se alinhavam numa parede de metal. O 304 estava fechado. Tirei a chave do bolso, mas Beatriz tocou meu pulso.

"Fotografias primeiro."

Registrei o número, a fechadura e o chão. Então introduzi a chave.

Ela girou.

Dentro havia apenas marcas retangulares na poeira, como se duas caixas tivessem sido retiradas havia pouco tempo. No fundo, um pedaço de lacre azul estava preso à prateleira.

"Alguém chegou antes", murmurei.

Dante examinou a fechadura sem tocar nela. Não havia sinal evidente de arrombamento.

Pedi ao chefe da segurança as imagens do corredor e os registros de acesso. Ele fez uma ligação, esperou e voltou com o telefone junto ao peito.

"As câmeras dessa ala ficaram fora do ar durante a madrugada."

"Por quanto tempo?"

"Das duas e quinze às quatro e quarenta."

"Quero o relatório da falha e a ordem de manutenção", falei.

Ele não respondeu.

Beatriz aproximou-se. "É um pedido formal da família controladora. Registre quem recebeu a solicitação e a hora."

Ao sairmos, recolhi o lacre com um lenço e o entreguei a Beatriz. Eu não sabia o que estivera nas caixas. Sabia apenas que alguém aprendera sobre o box antes de mim e fizera as câmeras pararem pelo tempo necessário.

Meu telefone recebeu uma mensagem de um número desconhecido.

Da próxima vez, abra o armário antes de falar com a imprensa.

Mostrei a tela a Beatriz e a Dante.

Caio soubera da planta. Otávio soubera da nossa visita. E meu pai havia deixado a chave durante os seis meses em que fingira estar morto.

Pela primeira vez desde que abrira o envelope, tive de admitir que a pergunta não era apenas quem esvaziara o box.

Era quem me entregara a chave tarde demais.

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