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"O Homem Que Entrou Pela Porta dos Mortos" Capítulo 3 — Seis Meses, Por Escrito

正文开头

Capítulo 3 — Seis Meses, Por Escrito

Beatriz girou a pequena chave entre os dedos.

"Você encontrou isso nas coisas do seu pai?"

"Estava comigo desde o funeral. Eu nem sabia."

O número no cartão não indicava endereço. Armazém 17 podia ser uma instalação da empresa, uma área arrendada ou apenas um nome usado por Augusto. Beatriz fotografou o cartão e me devolveu a chave.

"Não vá lá sozinha."

"Vou descobrir onde fica primeiro."

Da janela do quarto, vi um carro deixar a propriedade. Otávio estava no banco de trás. Não olhou para a casa ao passar pelo portão.

Eu duvidava que fosse a última vez que o veria.

Na manhã seguinte, Caio me esperava à porta da sala de reuniões com os olhos vermelhos. Talvez não tivesse dormido. Eu também não.

"Quero falar com você sem Valença", disse.

"Então fale."

Ele olhou para Beatriz, ao meu lado.

"Sem advogada."

"Ela fica."

Caio passou a mão pelo rosto.

"Assinei o empréstimo porque duas cargas foram retidas e perdemos contratos. Ferraz ofereceu dinheiro rápido. Eu achei que conseguiria pagar antes de papai... antes da data em que pensei que ele tinha morrido."

"Você viu a garantia com o meu nome?"

"Vi depois."

"Quando?"

"Quando Ferraz disse que queria se casar com você."

A resposta me fez apertar a chave dentro do bolso.

"Se percebeu que eu não tinha assinado, por que não me contou?"

"Eu estava tentando tirar seu nome do documento."

"Marcando a cerimônia?"

Ele não respondeu.

"Você não precisa me convencer hoje", falei. "Preciso dos livros da empresa, dos contratos das cargas e dos acessos de quem preparou a garantia."

"Os diretores vão achar que estou perdendo o controle."

"Está."

Deixei Caio no corredor. Dizer aquilo não me trouxe prazer. Eu queria que meu irmão tivesse encontrado coragem para me defender antes que eu precisasse enfrentá-lo.

Dante aguardava na sala, com duas pastas e um advogado. Levantei a mão antes que ele começasse.

"Beatriz vai ler tudo."

"Foi para isso que trouxe cópias", disse ele.

O primeiro documento suspendia a cobrança da dívida enquanto fossem verificadas as contas e as garantias. O segundo descrevia a proposta pessoal de Dante.

Beatriz levou quase uma hora para marcar as páginas. Eu fiz perguntas sobre cada trecho que não compreendia. Dante respondeu algumas; seu advogado respondeu as demais. Quando nenhum dos dois sabia explicar uma expressão de modo simples, eu riscava a expressão.

"Sua versão diz que vou morar na sua casa", falei por fim.

"É mais fácil protegê-la lá."

"Eu fico em um apartamento escolhido por mim. Você pode sugerir medidas de segurança."

Dante pareceu prestes a discutir. Beatriz esperou com a caneta suspensa sobre o papel.

"Está bem", ele disse.

"Quero acesso aos registros da empresa sem pedir autorização a Caio. Os que dizem respeito ao arquivo do meu pai serão copiados para Beatriz também."

"Sim."

"Você falou em seis meses. Ao final, nenhum de nós poderá usar a dívida para obrigar o outro a continuar casado."

正文1

"Isso nunca esteve nos meus planos."

"Ótimo. Então não vai se importar de escrever."

Dante apoiou os antebraços na mesa e me estudou.

"Não vou."

A última condição me custou mais do que as outras.

"Se descobrir algo sobre meu pai, meu irmão ou o ataque no terminal, vai me contar antes de agir em meu nome."

Seu advogado ergueu os olhos.

Dante percebeu que eu tinha notado.

"Há informações que podem colocar pessoas em risco."

"Então me diga que existe um risco. Não decida que sou incapaz de ouvi-lo."

Durante alguns segundos, só escutamos os carros na rua.

"Posso aceitar isso", disse Dante. "E vou exigir o mesmo de você."

"Pode escrever também."

Beatriz recolheu as páginas. Não assinaríamos nada naquele dia; ela redigiria uma nova versão, e eu a leria novamente. Dante não protestou.

Quando o advogado saiu para fazer cópias, ficamos os três diante da mesa vazia.

"Por que um casamento?", perguntei. "Você poderia manter a cobrança suspensa sem se casar comigo."

Dante não fingiu que a pergunta era inconveniente.

"Seu pai registrou o arquivo para ser entregue à filha quando ela assumisse uma posição formal nos negócios da família. Augusto está vivo, mas aparecer agora vai provocar uma disputa sobre todos os documentos emitidos desde a falsa morte. Caio controla o acesso da empresa. Eu posso exigir muita coisa como credor, mas Ferraz saberia exatamente o que estou procurando."

"Casar comigo faria parecer que está apenas tentando controlar a Azevedo Atlântico."

"É o que ele já acredita."

"Você está me pedindo para sustentar uma mentira."

"Estou lhe dizendo por que fiz a proposta. Pode recusá-la."

Olhei para Beatriz. Ela tinha ouvido tudo sem interromper.

"Antes de responder, quero saber o que há nesse arquivo."

"Não sei tudo", Dante disse. "Há registros de cargas que nunca apareceram nas contas da empresa. Uma delas passou pelo Armazém 17."

Minha mão foi ao bolso.

Dante acompanhou o movimento.

"Você conhece esse lugar?"

"Você primeiro. O que aconteceu com a carga?"

"Um homem morreu depois de tentar me entregar os registros. Augusto me tirou do terminal na mesma noite. Duas semanas depois, anunciaram a morte dele."

A lembrança do funeral voltou com uma força tão grande que precisei me sentar.

"Quem era o homem?"

"Um conferente chamado Renato Vidal. A família dele recebeu uma versão diferente do que aconteceu."

Dante me deu o nome, mas não tentou me apressar a revelar o que eu havia encontrado.

Talvez tivesse aprendido algo na véspera. Talvez apenas soubesse esperar. Eu ainda não o conhecia bem o suficiente para distinguir as duas coisas.

À tarde, fui à sede da Azevedo Atlântico com Beatriz. Não entrava ali havia meses.

A recepcionista, Lúcia, veio de trás do balcão e me abraçou. Seu filho trabalhava no setor de manutenção; papai costumava perguntar pelos dois. Fiquei constrangida por ter passado tanto tempo longe.

"Soube que seu pai apareceu", ela disse em voz baixa.

"Eu também ainda estou tentando entender."

Lúcia soltou uma risada breve, sem alegria.

Pedi a lista de instalações usadas pela empresa. Ela chamou Mauro, responsável pelos arquivos físicos, um homem que conhecia desde criança. Caio havia telefonado para avisar que eu teria acesso aos registros, embora Mauro parecesse surpreso ao me ver acompanhada de uma advogada.

O Armazém 17 ficava numa área arrendada perto do porto. O número 304 não constava na planta atual.

"Pode ser um armário antigo", Mauro disse. "Reformaram aquela parte no ano passado."

"Os mapas anteriores ainda existem?"

"Devem estar no arquivo morto."

Ele foi buscá-los. Enquanto esperávamos, examinei uma fotografia da instalação presa à parede. Na lateral do prédio havia uma porta estreita que não aparecia no desenho novo.

Quando Mauro voltou com uma caixa de plantas, Beatriz encontrou a porta na versão antiga. Levava a uma pequena sala dividida em boxes numerados.

O 304 ficava ali.

"Quem tem acesso?", perguntei.

"Agora? Quase ninguém usa aquela sala."

"Quase?"

Mauro verificou uma folha anexada à planta.

"O senhor Augusto manteve a chave principal. Caio pediu uma cópia depois do funeral."

Eu tinha uma chave pequena, de armário. Alguém ainda podia abrir a porta da sala antes de mim.

"Preciso dos registros de entrada desde a semana em que meu pai desapareceu", falei.

Mauro concordou, mas sua expressão tinha mudado. Ele me acompanhou até a saída do setor e esperou Beatriz se afastar alguns passos.

"Dona Helena, achei que seu irmão já soubesse."

"Soubesse o quê?"

"Ele veio aqui ontem à noite. Levou a planta antiga do Armazém 17."

Olhei para a caixa aberta nas mãos dele.

"Então esta é outra cópia?"

Mauro balançou a cabeça.

"Eu guardei antes que ele chegasse. A que entreguei a Caio mostra o corredor, mas não mostra o box 304."

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