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"O Homem Que Entrou Pela Porta dos Mortos" Capítulo 2 — O Pai Que Voltou

正文开头

Capítulo 2 — O Pai Que Voltou

Dei um passo na direção dele.

Dante segurou meu braço.

"Espere."

Eu me soltei. Havia uma pequena cicatriz sobre a sobrancelha direita do homem no corredor. Augusto a ganhara quando eu tinha oito anos, ao se abaixar depressa demais para me tirar de uma piscina. Conhecia aquela cicatriz melhor que o próprio rosto.

"Papai?"

Ele abriu a mão, como se quisesse que eu fosse até ele.

Não fui.

No térreo, homens gritavam perto da entrada. Dante falou com alguém pelo telefone, pedindo que verificassem quem tinha atirado. Augusto fechou a porta da biblioteca atrás de si.

Caio recuou até a estante.

"Você disse que só apareceria depois", murmurou.

A frase me atingiu antes que eu entendesse todo o resto.

"Você sabia?"

Caio apertou os lábios.

"Havia um plano."

"Eu fui ao seu funeral."

Augusto avançou um passo. "Eu sei."

"Você deixou que eu enterrasse você."

"Precisava parecer verdade."

"Para quem?"

Ele olhou para Otávio.

Ferraz tinha perdido o sorriso. Foi a primeira vez que o vi sem uma resposta pronta.

"Isso não faz sentido", ele disse. "Há um atestado. Uma certidão."

"Existem documentos que precisam ser examinados", respondeu Augusto. "E pessoas que vão responder por eles."

"Você também", retruquei.

Meu pai se voltou para mim. Pareceu surpreso.

No dia do suposto infarto, eu estava em São Paulo. Caio tinha ligado dizendo que Augusto passara mal e que eu deveria ir diretamente ao hospital. Quando cheguei, me disseram que o corpo já fora transferido. No velório, o caixão permaneceu fechado por orientação da família.

Eu aceitara cada explicação porque jamais imaginei que precisasse desconfiar do meu pai.

"Quem estava no caixão?", perguntei.

Augusto baixou os olhos.

"Só me diga se havia alguém."

"Não havia."

O ar me faltou. Encostei a mão na mesa para me firmar.

Caio tentou se aproximar.

"Helena, ele corria perigo."

"E eu? Você me ouviu chorar durante seis meses."

"Se Ferraz percebesse que você sabia..."

"Eu não sabia de nada. Mesmo assim, você me prometeu a ele."

Caio parou.

Augusto encarou meu irmão.

"Você fez o quê?"

Antes que Caio respondesse, Dante recebeu uma mensagem e guardou o telefone.

"Os tiros vieram da porta de serviço. Um homem tentou entrar pela garagem. Ninguém foi ferido. Minha equipe o conteve até a polícia chegar."

Otávio ajustou o punho da camisa.

"Não tem relação comigo."

"Eu não disse que tinha", respondeu Dante.

A troca de olhares entre os dois bastou para me convencer de que ficar naquela sala só me deixaria dependente da versão de cada um.

Peguei a pasta da dívida.

"Vou levar isto."

Caio estendeu a mão. "São documentos da empresa."

"Com meu nome."

"Helena..."

"Você pode pedir uma cópia depois de me mostrar todos os contratos que escondeu."

Saí levando a pasta. Dessa vez, ninguém tentou me impedir.

No antigo escritório de mamãe, fotografei cada página. Havia um contrato de empréstimo, dois aditivos e uma garantia assinada supostamente por mim quatro meses antes.

正文1

Eu conhecia minha assinatura. A primeira letra era parecida, mas o traço final terminava numa curva que eu nunca fazia.

A data era pior: naquele dia, eu estava em Belo Horizonte, no casamento de uma amiga. Tinha fotos, bilhetes de viagem e o registro da hospedagem.

Liguei para Beatriz Nogueira, uma advogada com quem eu havia estudado.

"Preciso que você venha a Santos", falei.

"O que aconteceu?"

"Meu pai está vivo. Meu irmão deu meu nome como garantia de uma dívida. Quero descobrir qual das duas coisas vai me causar mais problemas."

Beatriz ficou em silêncio por um segundo.

"Não entregue o original a ninguém. Estou saindo de São Paulo."

Quando desliguei, Augusto estava à porta. Ele bateu na madeira, embora a porta estivesse aberta.

"Posso entrar?"

"Você podia ter me feito essa pergunta há seis meses."

Ele aceitou a resposta e permaneceu no corredor.

"Fui atacado numa estrada perto do terminal. Quem organizou aquilo tinha acesso aos meus horários, aos meus motoristas e às cargas. Se eu aparecesse, a pessoa se esconderia."

"Então você fingiu morrer para descobrir quem era."

"Foi a única maneira que encontrei."

"Encontrou essa pessoa?"

"Não."

Olhei para a garantia sobre a mesa.

"Enquanto investigava, Caio entregou meu nome a Ferraz. Seu plano protegeu muita gente, menos a mim."

Augusto apoiou a mão no batente. Parecia mais magro do que no dia em que eu o vira pela última vez.

"Não sabia da proposta de casamento."

"Acredito que não soubesse." Mantive os olhos nele. "Isso não desfaz o que você fez."

Dante apareceu alguns passos atrás de Augusto. Não se aproximou.

"A polícia quer ouvir os presentes na biblioteca", disse. "Ferraz está saindo com o advogado dele."

"Ele pode sair?", perguntei.

"Os tiros não provam que tenha dado alguma ordem."

Era uma resposta menos satisfatória do que eu queria, mas pelo menos não prometia uma solução inventada.

Mostrei a Dante uma fotografia da assinatura.

"Você comprou o crédito. Esta garantia veio junto?"

"Veio."

"Ela pode ser falsa. Não vou entregar o original para você verificar."

"Não pedi."

Augusto olhou da fotografia para mim.

"Helena, deixe que eu resolva a empresa."

Fechei a pasta.

"Não. Você já teve seis meses."

Beatriz chegou no início da tarde. Leu os documentos na minha frente e separou as páginas que precisariam de exame técnico. Não me prometeu que a assinatura falsa resolveria toda a dívida: o empréstimo da empresa continuava existindo, mesmo que a garantia pessoal caísse.

"Vamos precisar dos originais, do registro de assinatura e de quem entregou isto a Ferraz", explicou.

"Caio?"

"Talvez. Primeiro, fatos."

Ela também me orientou a registrar formalmente que eu contestava a garantia. Fizemos isso antes de voltar à biblioteca.

Dante estava sozinho. Havia tirado o paletó, e uma manga da camisa tinha uma mancha escura perto do punho.

"Você se machucou?", perguntei.

"Um corte na garagem. Já cuidaram."

Beatriz se apresentou e pediu a cópia integral da cessão do crédito. Dante a entregou sem discutir.

"Quanto ao casamento", eu disse, "não haverá conversa enquanto meu irmão estiver na sala decidindo por mim."

"Concordo."

"Também não haverá casamento em troca de uma promessa vaga sobre a dívida."

Dante puxou uma cadeira para Beatriz, mas continuou em pé.

"Então não aceite uma promessa vaga."

Eu esperava pressão. Aquela resposta me deixou ainda mais desconfiada.

"Por que precisa de mim para encontrar o que papai escondeu?"

Dante olhou para Augusto, que aparecera do lado de fora da porta. Meu pai ouviu a pergunta e não entrou.

"Há um arquivo antigo", disse Dante. "Ele foi separado dos registros comuns da empresa. Augusto me prometeu acesso antes de desaparecer, mas não chegou a cumprir. Depois da morte dele, só um membro da família poderia solicitar a abertura sem chamar atenção de Ferraz."

"Caio é da família."

"Eu não confio em Caio."

"Por que eu deveria confiar em você?"

Dante não tentou responder.

Coloquei a pasta sobre a mesa do meu pai.

"Esta noite vou conversar com Beatriz. Amanhã, se ainda quiser propor alguma coisa, traga todos os termos por escrito."

Na porta, Augusto me chamou.

"Helena."

Parei, mas não me virei.

"Eu devia ter voltado antes."

"Devia."

Subi as escadas com Beatriz. Ela ficou para trás quando percebeu que eu queria entrar sozinha no meu quarto.

Dentro do armário, encontrei uma caixa com algumas coisas que retirara do escritório de papai após o funeral. Havia fotografias, uma agenda antiga e um envelope pardo que eu nunca tinha aberto. Reconheci a letra dele na frente:

Para Helena, se eu não puder explicar.

Rasguei a borda.

Dentro havia uma única chave de armário e um cartão com um número escrito à mão.

Armazém 17. Box 304.

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