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"O Homem Que Entrou Pela Porta dos Mortos" Capítulo 1 — A Noiva da Dívida

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Capítulo 1 — A Noiva da Dívida

"Quanto ele pagou por mim?"

Meu irmão pousou o copo de uísque na mesa do nosso pai.

Caio nunca bebia antes do almoço. Naquela manhã, ainda não eram onze horas.

"Helena, não começa."

"Você disse que Otávio Ferraz vai perdoar a dívida se eu me casar com ele. Estou perguntando quanto vale a minha assinatura."

Ele desviou os olhos para a janela. Além do jardim, a chuva escondia a estrada que descia até o porto de Santos.

"Cinquenta e seis milhões de reais."

Por um instante, achei que tinha ouvido errado.

Seis meses antes, quando enterramos nosso pai, Caio me garantiu que a Azevedo Atlântico Logística estava segura. Eu tinha acreditado. Conhecia o nome dos funcionários que trabalhavam conosco havia décadas, mas nunca vira um balanço completo. Papai dizia que, enquanto terminasse minha formação, não precisava carregar os problemas da empresa.

Agora a empresa devia cinquenta e seis milhões a um homem de cinquenta e oito anos que já tinha passado por três casamentos.

"E você aceitou?"

"Estou tentando salvar quatrocentos empregos."

"Usando o meu casamento."

"Usando a única proposta que Ferraz deixou na mesa."

Caio abriu uma pasta e empurrou um documento na minha direção. Meu nome estava impresso na primeira página, ao lado do de Otávio.

A cerimônia seria dali a três semanas.

Ele não tinha sequer me contado antes de escolher a data.

Fechei a pasta.

"Não vou assinar."

"Se Ferraz cobrar a dívida, a empresa acaba."

"Então me mostre os contratos. Talvez haja outra saída."

"Você nunca administrou nada."

"E você administrou até dever cinquenta e seis milhões."

Caio se levantou tão depressa que a cadeira bateu no chão. Por um segundo, vi nele o menino que me defendia dos colegas na escola. A lembrança desapareceu quando ele apontou para a pasta.

"Cresce, Helena. O mundo não vai mudar porque você se recusa a fazer um sacrifício."

Peguei o documento e o rasguei ao meio.

Não foi um gesto inteligente. Ferraz poderia imprimir outro em minutos. Mas Caio precisava ver que eu tinha entendido o que ele estava pedindo.

Saí da biblioteca antes que ele pudesse responder.

Naquela noite, a casa parecia cheia de desconhecidos. Havia dois carros escuros na entrada e homens falando baixo perto da escada. Caio receberia hóspedes ligados aos negócios, segundo uma das funcionárias.

Eu não queria passar pela biblioteca outra vez. Atravessei o corredor da ala oeste procurando uma janela que desse para o jardim. Precisava de ar, embora a chuva ainda caísse.

Ouvi água correndo atrás de uma porta entreaberta.

"Tem alguém aí?", perguntei.

Ninguém respondeu. Empurrei a porta, pensando que algum funcionário tivesse deixado uma torneira aberta.

Era um banheiro enorme. O vapor cobria os espelhos, e um homem estava no box de vidro, de costas para mim. Alto, ombros largos, cabelo escuro molhado.

Parei no mesmo instante.

"Desculpa. Eu achei que..."

正文1

A água foi desligada.

"Já que entrou no meu banheiro", ele disse, sem se virar, "pode me fazer um favor."

Eu deveria ter saído. Em vez disso, fiquei imóvel junto à porta.

"Qual?"

"Tem sabonete aí? Não estou vendo nenhum deste lado."

Ele olhou por cima do ombro e viu minha expressão.

Pegou uma toalha pendurada ao alcance da mão e a enrolou na cintura antes de abrir a porta do box.

"Foi uma brincadeira ruim", disse.

"Foi."

"Você entrou enquanto eu tomava banho."

"Eu avisei que estava entrando."

"Com a água ligada, não ouvi."

Ele não levantou a voz. Ainda assim, tive a impressão de que esperava uma resposta e estava acostumado a recebê-la.

"Vou embora", falei.

Passos soaram no corredor. Três homens pararam do lado de fora.

"Chefe", chamou um deles. "O pessoal de Ferraz chegou."

Olhei outra vez para o desconhecido.

Ele percebeu.

"Dê cinco minutos a eles", respondeu.

O homem do corredor hesitou. "Disseram que o acordo do casamento está fechado."

A expressão do desconhecido mudou.

"Qual casamento?"

Houve um breve silêncio.

"O da filha de Augusto Azevedo."

Seus olhos voltaram para mim.

Eu conhecia os rumores sobre Dante Valença. Controlava contratos no porto que ninguém admitia discutir em público. Até Ferraz pronunciava seu nome com cuidado. E, pelo modo como os homens esperavam uma ordem à porta, soube que era ele antes que se apresentasse.

"Você é Helena", disse Dante.

"Como conhece meu pai?"

Ele não respondeu imediatamente.

"Vá para o seu quarto. Não assine nada esta noite."

"Meu irmão convidou você. Não pode entrar na minha casa e me dar ordens."

Pela primeira vez, ele pareceu quase sorrir.

"Tem razão."

Afastei-me para deixá-lo passar. Dante permaneceu onde estava.

"Então aceite um aviso", disse. "Leia a página de garantias do empréstimo antes de falar outra vez com Ferraz."

Às oito da manhã, encontrei Dante sentado na cadeira de papai.

Caio estava diante da mesa. Otávio Ferraz ocupava a poltrona ao lado da lareira, impecável num terno cinza. Os dois se calaram quando entrei.

"Helena, vá tomar café", disse Caio.

"Quero ver o contrato."

Otávio abriu um sorriso.

"Sua família atravessa um momento difícil. Não precisa se preocupar com números."

"É meu nome que vocês colocaram na proposta. Eu me preocupo."

Dante colocou uma pasta sobre a mesa. Não olhou para Otávio ao falar.

"Comprei o crédito da Azevedo Atlântico esta madrugada. Ferraz não é mais o credor."

Caio pegou a pasta. Passou os olhos pela primeira página e perdeu a cor.

"Por quê?"

"Augusto salvou minha vida."

Meu pai nunca tinha mencionado Dante Valença. Eu tinha dificuldade até de imaginar os dois na mesma sala.

Otávio se levantou.

"Pode comprar uma dívida, Valença. O acordo com a família é outra coisa."

"Não há casamento sem a vontade dela", respondeu Dante.

Virei-me para ele.

"Então por que está aqui?"

Dante sustentou meu olhar.

"Porque também quero lhe fazer uma proposta. Seis meses de casamento. Durante esse tempo, você terá acesso aos registros que seu pai deixou. Eu mantenho a cobrança suspensa enquanto descobrimos quem comprometeu a empresa."

"Está tentando substituir Ferraz?"

"Estou pedindo que ouça os termos."

"Já ouvi um homem dizer que precisava se casar comigo para salvar a empresa. Não gostei da primeira vez."

Caio abriu a boca, mas Otávio falou antes.

"Augusto jamais permitiria que a filha se aproximasse de você."

Dante ficou imóvel.

Otávio olhou para mim.

"Seu pai também não permitiria que vocês soubessem como ele morreu."

Um copo escorregou da mão de Caio e se partiu no piso.

"O atestado dizia infarto", falei.

"Pergunte ao seu irmão onde ele estava naquela noite."

Caio não me encarou.

Antes que eu pudesse insistir, um estampido veio do andar de baixo. Depois, outro.

Dante se levantou e me puxou para trás da mesa.

A porta da biblioteca se abriu.

No corredor estava Augusto Azevedo, o homem que eu havia enterrado seis meses antes.

Ele olhou primeiro para mim.

"Helena", disse meu pai. "Não chegue perto de Ferraz."

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