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"A Filha da Empregada Abriu a Caixa Proibida do Chefe da Máfia" Capítulo 3 — O Nome de Ana Nascimento

正文开头

Clara olhou para o cartão de memória como se ele pudesse acusar sua mãe em voz alta.

“Ana estava internada naquela noite.”

Ícaro não recuou.

“As imagens mostram sua mãe entrando na garagem às vinte e duas horas e dezessete. Beatriz saiu de carro vinte e seis minutos depois.”

“Isso é impossível.”

Clara se lembrava do quarto abafado do Hospital Santa Cecília, do cheiro de desinfetante e da chuva batendo contra a janela. Ana aguardava um procedimento no coração. Clara passara a noite em uma cadeira de plástico ao lado dela.

Ou acreditara ter passado.

Por volta das nove, a mãe pedira que fosse até o apartamento buscar uma bolsa com documentos. Quando Clara retornou, pouco antes da meia-noite, Ana dormia. Uma enfermeira dissera que o sedativo fizera efeito.

Havia uma ausência de quase três horas que ela nunca questionara.

“Quero ver”, disse.

Dante soltou a lapela de Ícaro.

“Mostre.”

O chefe da segurança inseriu o cartão em um notebook da biblioteca. A imagem granulada revelou a garagem da mansão sob a chuva. Às 22h17, uma mulher magra, coberta por um casaco bege, surgiu entre duas colunas.

Mesmo com a cabeça baixa, Clara reconheceu a forma de caminhar. Ana arrastava levemente o pé esquerdo desde uma queda na lavanderia.

A mulher ergueu o rosto para a câmera.

Era ela.

Clara se apoiou na mesa.

Luna abraçou sua cintura.

“A vovó fez coisa ruim?”

“Não”, respondeu Clara depressa. “Sua avó nunca machucaria ninguém.”

Dante pausou o vídeo quando Ana chegou à porta interna.

“Quem a deixou entrar?”

Ícaro ampliou o canto da imagem. Um braço masculino apareceu por menos de um segundo. A mão usava uma aliança grossa, mas o rosto permanecia fora do enquadramento.

“O registro do portão foi apagado”, explicou. “Beatriz me procurou naquela mesma semana. Disse que havia encontrado pagamentos feitos em nome de funcionários que nunca receberam o dinheiro. Pediu que eu investigasse sem alertar o conselho.”

“Por que guardou essa imagem por três anos?”

“Porque, depois do acidente, meu apartamento foi invadido. Não levaram dinheiro nem armas. Procuraram apenas os arquivos que Beatriz havia me entregado.”

“E você decidiu esconder tudo de mim.”

“Decidi sobreviver até descobrir em quem podia confiar.”

Dante fechou o notebook com força.

“Você trabalhava para mim.”

“Eu tentava descobrir se o homem que pagava meu salário estava cercado por assassinos.”

A resposta fez Dona Celina prender a respiração. Clara esperou uma explosão, mas Dante apenas afastou a cadeira.

“Ícaro fica sob vigilância. Sem acesso ao sistema e sem contato externo.”

“Se me prender agora, perderá a única pessoa que conhece o começo da investigação.”

“Você teve três anos para me contar.”

Dante chamou dois seguranças e ordenou que levassem Ícaro a um quarto de hóspedes. O homem não resistiu. Antes de sair, olhou para Clara.

“Procure na bolsa que sua mãe pediu naquela noite.”

Clara sentiu um arrepio.

“Ela foi doada depois da morte.”

正文1

“Ana voltou à garagem carregando uma bolsa vermelha. Quando saiu, estava sem ela.”

A porta se fechou.

Dante permaneceu de costas para os outros. Sobre a mesa, o gravador de Beatriz parecia pequeno demais para ter destruído três anos de certezas.

“Minha mãe não matou sua esposa”, disse Clara.

“Ainda não fiz essa acusação.”

“Mas pensou.”

Ele se virou.

“Pensei em todas as possibilidades. É assim que continuo vivo.”

“Minha mãe estava doente. Mal conseguia pagar os remédios e nunca teve carro. Se veio até aqui durante uma tempestade, alguém a chamou.”

“Beatriz.”

“Provavelmente.”

“E o que sua mãe poderia oferecer à minha esposa?”

Clara recordou caixas de linhas, retalhos e uniformes consertados sobre a mesa da cozinha. Ana jamais falara sobre contas secretas. Falava de bainhas, tecidos e clientes que não sabiam seu nome.

Então Clara se lembrou de algo.

“Ela costurava bolsos por dentro das roupas.”

Dante franziu a testa.

“Isso significa o quê?”

“Quando eu era criança, ela dizia que mulheres sem cofres precisavam aprender a esconder coisas onde ninguém procurava. Documentos, dinheiro, chaves.”

Luna puxou a manga da mãe.

“Como o bolso da minha jardineira.”

Clara olhou para a mancha azul. O bolso fora feito com tecido duplo por Ana, pouco antes de morrer. Clara acreditava que servia apenas para reforçar a roupa.

Ela passou os dedos pela costura interna e encontrou uma área mais rígida.

“Uma tesoura”, pediu.

Dona Celina abriu uma gaveta da escrivaninha. Clara cortou dois pontos cuidadosamente. Uma pequena chave de metal escorregou sobre a mesa.

Na cabeça oval estava gravado o número 214.

Luna arregalou os olhos.

“Era da vovó?”

Clara assentiu, incapaz de responder.

Dante pegou a chave.

“Hotel Imperial.”

“Como sabe?”

“Os armários do subsolo eram numerados assim. Meu pai guardava contratos antigos lá.”

Dona Celina observou a peça.

“Beatriz pediu os registros dos armários antes de morrer. O administrador disse que haviam sido destruídos numa infiltração.”

“Mentiu”, concluiu Dante.

Ele tocou o ponto eletrônico, lembrou-se de que Ícaro já não estava no comando e chamou Bruno Salles, o segundo responsável pela segurança.

“Prepare dois carros. Vamos a Santos.”

“Agora?”, perguntou Clara.

“Antes que quem abriu a passagem descubra que encontramos a chave.”

“Luna não vai.”

“Ela ficará com Dona Celina.”

Clara cruzou os braços.

“E eu deveria confiar minha filha a uma casa cheia de pessoas que talvez tenham matado sua esposa?”

Dante recebeu a frase sem piscar.

“Então as duas irão para um apartamento seguro.”

“Não trabalho para você fora do meu turno.”

“Isto deixou de ser um problema trabalhista quando sua mãe apareceu na última noite de Beatriz.”

“Isso não lhe dá controle sobre minha filha.”

“Não. Dá a alguém um motivo para procurá-la.”

Clara queria negar, mas o bolso costurado por Ana provava que Luna carregara uma chave sem saber durante meses. Se alguém descobrisse, uma fechadura e uma equipe de segurança talvez não fossem suficientes.

Dante se ajoelhou diante da menina.

“Luna, preciso pegar esta chave emprestada. Vou descobrir por que sua avó a escondeu.”

“Você vai devolver?”

“Vou.”

“Promete de verdade ou igual ao homem da porta?”

Dante lançou um olhar breve para Clara, sem entender.

“Prometo de verdade.”

Luna pensou e estendeu a mão.

“Então tem que fazer assim.”

Ele tocou o dedo mínimo no dela. O gesto infantil pareceu deslocado nas mãos de um homem temido por metade de São Paulo.

Clara viu a dureza de Dante falhar por um instante.

Pouco depois, Luna foi conduzida com Dona Celina a uma suíte interna protegida. Clara acompanhou Dante até o corredor da ala leste. Ele queria ver a passagem antes de partir.

Atrás de um painel coberto por seda, encontraram uma porta estreita que ligava o corredor de serviço ao antigo quarto de Beatriz. Havia marcas recentes no chão e poeira removida junto à fechadura.

No quarto, tudo permanecia como nas fotografias: vestidos no armário, livros sobre a mesa e um perfume vazio diante do espelho.

A única ausência era a caixa.

Clara aproximou-se da cômoda. Sobre a madeira havia uma marca circular limpa, como se um objeto tivesse sido removido poucas horas antes.

“Alguém veio buscar a caixa”, disse.

Dante abriu a gaveta inferior. Estava vazia, exceto por um envelope amarelado preso ao fundo com fita.

Dentro havia uma fotografia de Beatriz ao lado de Ana. As duas estavam diante do Hotel Imperial, sorrindo para a câmera. Beatriz segurava a mesma caixa de música. Ana carregava a bolsa vermelha.

No verso, uma frase fora escrita à mão:

“Se eu não conseguir entregar a chave, Clara saberá ouvir o que os outros ignoram.”

Abaixo da frase havia uma data.

Era o dia anterior à morte de Beatriz.

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