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"Ela Mandou a Dona Sair de Perto da Moto" Capítulo 4 — O Preço de Dizer a Verdade

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Capítulo 4 — O Preço de Dizer a Verdade

"Não deixa ninguém pilotar essas motos hoje", disse Lívia ao telefone.

Do outro lado da linha, a mulher demorou a responder.

"Eu nem sei quem você é."

"Meu nome é Lívia Duarte. Tenho uma oficina na Vila Mariana. Uma peça foi instalada na minha moto durante um evento do clube. Encontrei outra igual na moto da Patrícia, e ela me passou seu contato."

Patrícia, sentada a dois passos dela, assentiu para que continuasse.

"Meu mecânico encontrou um adaptador", disse a mulher. "Falou que talvez fosse só para deixar o retrovisor mais bonito nas fotos."

"Pode ser que alguém tenha instalado com essa intenção. O problema é que ele muda a posição do suporte original. Antes de usar a moto, peça ao seu mecânico para verificar se a montagem está segura."

"Você está dizendo que o clube estragou minha moto?"

"Estou dizendo o que encontramos. Tenho fotos e posso mandar."

A mulher se apresentou como Elisa. Aceitou receber as imagens, mas não prometeu cancelar a participação na apresentação daquela noite. O clube havia pago pelo uso de sua moto. Ela precisava do dinheiro para cobrir o conserto de uma queda recente.

Depois da ligação, Lívia ficou alguns segundos olhando para o celular.

"Ela não é obrigada a acreditar em uma desconhecida", disse Patrícia.

"Nem a perder dinheiro porque eu pedi."

Lívia enviou a Elisa as fotos do adaptador, a comparação com a imagem anterior da moto de Patrícia e uma explicação curta, sem acusar ninguém de sabotagem. Pediu apenas que o mecânico verificasse o suporte antes de qualquer deslocamento.

Ligaram para outra proprietária. A terceira chamada caiu na caixa postal. A quarta pessoa atendeu irritada: Renata já havia informado aos participantes que uma oficina estava espalhando boatos sobre o evento.

"Ela foi rápida", comentou Bia.

"Então precisamos ser mais claros."

Lívia redigiu uma mensagem para cada proprietário que Patrícia conseguiu localizar. Identificou-se, explicou o que sabia e o que ainda não sabia. Ofereceu inspeção sem cobrar pelo diagnóstico do suporte. Bia revisou a mensagem antes do envio.

Às três da tarde, o primeiro cliente cancelou uma revisão agendada na oficina Duarte.

"Disse que prefere esperar a confusão passar", contou Bia.

Logo depois, chegou um e-mail de uma loja de equipamentos que lhes enviava trabalho havia dois anos. Os serviços previstos para o mês ficariam suspensos até segunda ordem. O texto era cordial, mas não dizia por quê.

Lívia telefonou para o gerente.

"Vocês receberam alguma reclamação sobre nossos serviços?"

Houve uma pausa.

"Recebemos um aviso de que a oficina está em disputa com um dos nossos parceiros de eventos."

"Existe alguma reclamação técnica?"

"Não é isso, Lívia. A direção quer evitar exposição."

Ela agradeceu pela resposta e encerrou a ligação antes de dizer algo que prejudicasse ainda mais a oficina. Bia conhecia aquele tom de voz.

"Quanto isso representa?", perguntou.

"Quase um terço do faturamento deste mês."

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Bia puxou uma cadeira.

"Podemos passar pelas próximas semanas, mas você precisa me dizer se devo cancelar a encomenda de peças de amanhã."

Lívia odiava ter de fazer aquela conta na frente dela. O pai abrira a oficina com um empréstimo pequeno e horas demais de trabalho. Depois que ele morreu, Lívia passou dois anos tentando provar a clientes e fornecedores que seu nome na fachada não era apenas uma lembrança.

Agora Renata conseguira atingir o lugar em que ela não podia se dar ao luxo de ser impulsiva.

"Segura a encomenda até sexta", respondeu. "As peças dos serviços já marcados nós temos."

Bia anotou. Não a tranquilizou por educação.

"Se isso piorar, me avisa antes de atrasar meu pagamento."

"Vou avisar."

Caio chegou pouco depois, trazendo uma folha impressa. Renata lhe enviara a solicitação formal de entrega de todo o material bruto do evento até as seis. Ele já havia separado os arquivos de acordo com o contrato.

"E a cópia das imagens da moto?", perguntou Lívia.

"Está preservada. O contrato diz que entrego o material que produzi para o clube. Não diz que preciso apagar meus arquivos de trabalho."

Ele mostrou também o registro de criação dos vídeos. As imagens de Lívia chegando ao pátio tinham sido feitas antes da discussão e não apareciam no vídeo divulgado pelo clube.

"Você pode dizer isso publicamente?", perguntou Bia.

"Posso confirmar o que gravei. Quero conferir primeiro o que entreguei e o que eles publicaram."

Lívia respeitou a cautela. Ela própria não queria que uma frase precipitada desse a Renata uma desculpa para ignorar as peças.

Às cinco, Jonas ligou da portaria do clube. A apresentação de seis motos continuava marcada para a noite. Segundo ele, seriam levadas ao pátio para fotografias e uma pequena volta de demonstração.

"Quem vai pilotar?", perguntou Lívia.

"Alguns proprietários. Dois convidados da marca."

Lívia se levantou tão depressa que a cadeira bateu na bancada.

"Você recebeu meu pedido de inspeção?"

"Recebi. Passei para a administração."

"E responderam?"

"Disseram que está tudo regular."

"Com base em qual vistoria?"

Jonas não soube dizer.

Lívia encerrou a chamada e pegou as chaves da caminhonete. Bia apontou para a mensagem que acabara de chegar no computador.

Era de Elisa. Seu mecânico havia retirado um adaptador do retrovisor esquerdo e recomendara que não participasse da volta de demonstração antes de remontar a peça original.

Agora eram três motos.

Lívia fotografou a tela e respondeu pedindo que Elisa guardasse o adaptador e as fotos da desmontagem. Em seguida, enviou à administração do clube uma nova mensagem com a informação, solicitando que cancelassem a volta de demonstração até verificar as outras motos. Cuidou para que Elisa recebesse uma cópia do que fora dito sobre seu veículo.

Renata respondeu em menos de dez minutos.

Se continuar interferindo no evento, encaminharemos o assunto ao nosso jurídico.

Bia leu por cima do ombro de Lívia.

"E agora?"

"Agora eles foram avisados por escrito."

Lívia mandou a mesma informação, sem os dados pessoais das proprietárias, aos demais participantes que tinham aceitado contato. Não podia obrigá-los a fazer nada. Podia garantir que ninguém dissesse depois que não teve oportunidade de verificar a própria moto.

Pouco antes das sete, chegou outra mensagem de Jonas. Era uma fotografia tirada da entrada de serviço: as seis motos já estavam alinhadas sob os refletores do pátio.

Na extremidade da fila, uma moto preta chamava atenção pelo adesivo no tanque. Lívia reconheceu o modelo e ampliou a imagem. Sob o retrovisor esquerdo havia uma pequena peça metálica brilhando onde não deveria haver nada.

A foto seguinte mostrava um homem colocando o capacete ao lado dela.

Estão chamando os pilotos agora

, escreveu Jonas.

Lívia ligou para a portaria enquanto Bia dava partida na caminhonete.

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