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"Ela Mandou a Dona Sair de Perto da Moto" Capítulo 3 — A Oficina de Portas Abertas

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Capítulo 3 — A Oficina de Portas Abertas

Murilo Braga não atendeu às três primeiras ligações.

Na quarta, desligou antes que Lívia terminasse de dizer seu nome.

Bia, sentada do outro lado da bancada, ergueu as sobrancelhas.

"Isso responde alguma coisa."

"Responde que ele sabe quem sou."

Lívia abriu o cadastro da fornecedora. A empresa se chamava Nova Linha Componentes e atendia oficinas e organizadores de eventos. Meses antes, enviara à oficina Duarte suportes de retrovisor diferentes dos especificados. Lívia devolvera o lote e avisara que não aceitaria substituições sem autorização.

Murilo assinara a entrega. Não era uma prova de que tivesse alterado a moto, mas agora havia uma ligação concreta entre o homem do vídeo e a peça encontrada.

Lívia separou o adaptador retirado da moto, a nota antiga e as fotografias. Depois ligou para a Nova Linha pelo número comercial.

Uma atendente informou que Murilo estava fora.

"Ele estará aí amanhã?"

"Não tenho essa informação."

"Preciso saber de um adaptador entregue em um evento hoje. Há um número de lote gravado na peça."

A atendente pediu que ela enviasse as fotos por e-mail. Lívia concordou, mas não mandou a imagem inteira. Fotografou apenas a marca parcial e perguntou qual lote correspondia àquele modelo. Guardou a mensagem enviada e o horário.

"Você acha que vão responder?", perguntou Bia.

"Talvez. Quero saber o que eles dizem antes de perceberem quanto eu sei."

No fim da tarde, Caio voltou à oficina. Trazia a confirmação por escrito das imagens que preservara e uma informação nova: o vídeo publicado pelo clube não fazia parte do material editado por ele.

"Alguém pegou outro arquivo", explicou. "O meu enquadramento estava do lado oposto."

"Renata tem acesso à conta?"

"É a responsável pela comunicação."

Lívia mostrou a ele a publicação que chamava a moto de atração da semana. Caio leu a legenda duas vezes.

"Ela pode dizer que fotografou uma moto no evento."

"Pode. Mas a apresentação ainda vai acontecer, e ninguém me perguntou se eu queria participar."

Caio apoiou os braços na bancada.

"Você pretende ir atrás dela?"

"Primeiro quero entender por que mexeram na moto."

Ela não queria transformar Caio em porta-voz de uma versão que ele ainda não podia confirmar. Pediu apenas que mantivesse os arquivos originais intactos. Ele concordou e deixou com ela uma cópia das imagens de sua chegada e da conversa com Renata, sem publicar nada.

Mais tarde, um e-mail da Nova Linha apareceu na caixa da oficina.

A resposta era curta. Segundo a empresa, o adaptador da fotografia pertencia a uma linha usada em veículos de exposição. A marca parcial não permitia identificar o lote. Para isso, seria necessário verificar um código na face interna.

Lívia levou a peça até a luminária da bancada. Com uma escova macia, retirou a sujeira presa à borda. Alguém tinha raspado parte do código, mas dois números e uma letra continuavam visíveis.

Bia buscou a caixa dos adaptadores devolvidos meses antes. Lívia conferiu um por um até encontrar a mesma combinação de marcações.

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"São da mesma linha", disse Bia.

"Sim. Ainda não sei se do mesmo lote."

Havia uma diferença importante entre suspeitar e demonstrar. Lívia colocou as peças lado a lado, fotografou as marcações e respondeu ao e-mail pedindo os registros daquele lote e os nomes dos clientes que haviam recebido o modelo destinado a exposição.

A Nova Linha não respondeu naquela noite.

Na manhã seguinte, a oficina abriu às oito. Às oito e vinte, entrou uma mulher de capacete azul, conduzindo uma moto que Lívia não conhecia. Apresentou-se como Patrícia. Tinha visto o vídeo do clube e, depois, o nome da oficina nos comentários.

"Não vim falar da briga", disse. "Vim por causa da peça que apareceu na foto que sua assistente publicou."

Lívia lançou um olhar a Bia. Ela havia publicado apenas a fotografia do adaptador, com um pedido a outros mecânicos para identificar o modelo.

Patrícia tirou o capacete.

"Minha moto participou de uma mostra organizada por aquele clube no mês passado. Quando me devolveram, o retrovisor estava diferente. Disseram que era impressão minha."

"Posso olhar?"

Patrícia assentiu.

Lívia conduziu a moto até o cavalete e chamou Bia para acompanhar a inspeção. Mostrou primeiro a Patrícia o que pretendia remover. Sob o suporte do retrovisor havia um adaptador da mesma linha. O código, porém, estava inteiro.

Bia anotou a sequência.

"É o mesmo lote", disse, comparando com as peças devolvidas.

Patrícia se aproximou.

"Isso significa o quê?"

"Por enquanto, que alguém instalou nesta moto uma peça da linha que encontrei na minha. Preciso verificar quando e por ordem de quem."

Patrícia tirou o celular da bolsa. Ainda guardava as mensagens trocadas com a organização da mostra e as fotos tiradas antes de entregar a moto. Numa delas, o retrovisor estava preso diretamente ao suporte original.

Lívia pediu que não apagasse nada.

Ao meio-dia, a Nova Linha respondeu ao e-mail. Confirmou o código do lote, mas afirmou que não poderia fornecer nomes de clientes. Anexou, sem que Lívia tivesse pedido, um catálogo mostrando o adaptador como acessório para exibição estática.

"Exibição estática", Bia repetiu. "Na moto da Patrícia, que voltou rodando."

"Na minha, que eu levei pilotando ao evento."

Lívia não precisava ainda concluir por que aquelas peças tinham sido instaladas. Precisava impedir que outra pessoa saísse pilotando uma moto alterada sem saber. Com autorização de Patrícia, registrou a inspeção e enviou à administração do clube um pedido objetivo: identificar os veículos que receberam o adaptador, informar os proprietários e suspender seu uso até que cada instalação fosse verificada.

Anexou as fotografias e ofereceu uma inspeção presencial da própria moto.

A resposta chegou menos de uma hora depois, assinada por Renata Vilar.

A mensagem não mencionava as peças nem Patrícia. Informava que a oficina Duarte estava proibida de entrar nas dependências do clube e exigia que Lívia retirasse suas publicações, sob a alegação de que prejudicavam a reputação do evento.

Lívia leu o e-mail até o fim. Então pegou uma folha e começou uma lista dos fatos que podia comprovar: duas motos, um mesmo lote, fotografias anteriores, peças guardadas e mensagens enviadas aos responsáveis.

Caio apareceu à porta enquanto ela escrevia.

"Recebi uma ligação da Renata", disse. "Ela quer todas as minhas imagens de ontem."

"Você vai entregar?"

"Meu contrato prevê a entrega do material do evento. Pedi que a solicitação viesse por escrito."

Lívia largou a caneta.

"Então temos pouco tempo para descobrir quantas motos passaram por aquela mostra."

Patrícia, que ainda esperava a remontagem do retrovisor, levantou o celular.

"Eu conheço outras duas pessoas que exibiram motos lá."

Ela fez a primeira ligação diante deles.

A outra mulher atendeu no viva-voz. Antes que Patrícia terminasse de explicar, perguntou:

"Você também achou um adaptador? Porque meu mecânico encontrou um ontem."

Lívia olhou para Bia. Bia já abria uma nova página no caderno.

A mulher continuou:

"Eu estava indo ao clube reclamar. Eles disseram que hoje à noite vão apresentar mais seis motos."

Lívia voltou os olhos para o e-mail de Renata na tela.

Seis motos. E, até aquele momento, os donos talvez não soubessem o que havia sido instalado nelas.

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