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"Ela Mandou a Dona Sair de Perto da Moto" Capítulo 2 — A Peça Que Não Era Dela

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Capítulo 2 — A Peça Que Não Era Dela

O funcionário abriu a boca, mas Renata falou primeiro.

"Você acabou de pôr a mão nele. Todo mundo viu."

"No espelho", respondeu Lívia. "Não no suporte."

"É a mesma coisa."

"Para quem não conhece a moto, talvez."

Renata pegou a taça e se virou para a entrada. O gesto encerrava a conversa para ela. Lívia não a seguiu. Fotografou o suporte de perto, incluindo o parafuso, a marca na pintura e o relógio do próprio celular em uma das imagens.

O funcionário se apresentou como Jonas. Confirmou que havia orientado Lívia a estacionar naquele ponto e prometeu perguntar à equipe quem passara pelo pátio.

"Preciso também das imagens das câmeras", disse ela.

"Vou ter que falar com a administração."

"Fale. Não vou desmontar nada antes de registrar como encontrei."

O fotógrafo se aproximou quando Jonas saiu.

"Meu nome é Caio Nogueira. Estou cobrindo o evento."

"Você filmou a discussão?"

"Parte dela."

"Filmou minha chegada?"

Caio pensou por um momento.

"Eu estava fazendo imagens do pátio uns dez minutos antes de você aparecer. Talvez a moto esteja no fundo."

Lívia entregou a ele um cartão da oficina.

"Se encontrar alguma coisa, me avisa."

Ele observou a marca de graxa no cartão, deixada pelo polegar dela.

"Você conserta motos?"

"Conserto. E desfaço o serviço de quem acha que ninguém vai notar."

Ela colocou o capacete. Em vez de sair acelerando, empurrou a moto até uma vaga mais afastada e inspecionou os pontos que podia alcançar sem ferramentas. Não havia fios expostos nem vazamento. O freio respondia normalmente. Ainda assim, preferiu chamar sua assistente para buscar a moto na caminhonete da oficina.

Renata, da porta do clube, assistiu à ligação inteira.

Duas horas depois, um vídeo da discussão apareceu nas redes do evento.

Lívia estava na oficina quando sua assistente, Bia, colocou o celular diante dela. Na tela, Renata pedia que uma desconhecida se afastasse da moto. A gravação cortava imediatamente para Lívia ligando o motor. Faltavam as perguntas sobre a propriedade, os insultos e o documento.

A legenda dizia:

Convidada é surpreendida por mulher que tenta sair com moto exposta no evento.

"Convidada?", Bia repetiu. "Você também era convidada."

Lívia pausou o vídeo no primeiro segundo. Reconheceu o ângulo. Não era o celular da amiga de Renata. Alguém filmara da entrada, perto de Jonas.

"Mandaram isso para a página do clube", disse Bia. "Já tem gente perguntando por que você foi embora."

Lívia pegou o convite no e-mail e fez uma captura de tela. Poderia publicar tudo naquele instante. Mas o vídeo falso era só uma parte do problema.

"Antes, vamos ver a moto."

A oficina ocupava o térreo de um imóvel antigo, em uma rua movimentada da Vila Mariana. Havia duas motos esperando revisão, uma bancada cheia de ferramentas e, perto da parede, a fotografia do pai de Lívia sobre a primeira moto que os dois tinham restaurado juntos.

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A rosa estava no cavalete central.

Lívia e Bia fizeram fotos de cada lado. Depois, Lívia retirou a pequena cobertura junto ao suporte do retrovisor. O parafuso novo prendia uma peça que não deveria estar ali: um adaptador metálico, barato, colocado entre o suporte original e a estrutura da moto.

"Não caiu do céu", disse Bia.

Lívia girou a peça entre os dedos enluvados.

Alguém precisara de uma ferramenta, alguns minutos de trabalho e acesso sem interrupção. O adaptador estava instalado de modo a alterar a posição do retrovisor. Era por isso que ele parecera torto.

"Por que alguém faria isso?", perguntou Bia.

"Não sei."

Lívia fotografou o adaptador antes de colocá-lo em um saco limpo, com a data e o local da retirada anotados. Verificou os demais pontos acessíveis da moto. Não encontrou outra alteração, mas decidiu que não voltaria a pilotá-la antes de uma inspeção completa.

O celular vibrou. Era uma mensagem de Caio.

Encontrei imagens da sua chegada. Posso passar aí?

Vinte minutos depois, ele apareceu na oficina com um computador na mochila. Não pediu café nem tentou tranquilizá-la. Colocou o vídeo na bancada, longe das ferramentas, e abriu a gravação.

Às quinze horas e dezessete minutos, a moto rosa entrava no pátio com Lívia ao guidão. Caio a filmara sem perceber, interessado no reflexo da pintura na fachada de vidro.

"Isso resolve a história de que tentei levar a moto", disse ela.

"Resolve uma parte."

Ele avançou a gravação. Às quinze e vinte e um, Lívia aparecia entrando no prédio para confirmar sua credencial. Ela havia deixado a moto estacionada por menos de oito minutos.

Um homem de camisa cinza cruzou o pátio carregando uma bolsa pequena. Aproximou-se da moto, agachou e sumiu atrás de uma van de entregas que entrava no quadro.

"Você conhece?", perguntou Caio.

Lívia negou.

O homem reapareceu pouco depois e caminhou em direção à entrada de serviço. De perfil, falou com uma mulher. Ela estava parcialmente encoberta por uma coluna, mas o conjunto de linho claro era impossível de confundir.

Renata.

"Você gravou a troca da peça?", perguntou Lívia.

"Não. A van cobriu a moto."

"Mas gravou o homem chegando e saindo."

Caio assentiu. "E gravei você chegando nela."

Lívia pediu uma cópia dos arquivos originais. Caio hesitou.

"Fui contratado pelo clube. Tenho que organizar o material antes de entregar."

"Não quero que você perca o trabalho", disse ela. "Quero preservar o que aconteceu."

Ele encarou a tela. "Posso guardar uma cópia sem editar. E confirmar por escrito o que aparece nas imagens."

"É um começo."

Quando Caio saiu, Bia já havia encontrado outra publicação. A página do clube anunciava a moto rosa como a atração principal de uma apresentação no fim da semana. Na fotografia, Renata pousava ao lado dela com a mão sobre o tanque.

Lívia ampliou a imagem.

A estrela prateada, feita por seu pai, aparecia exatamente sob os dedos de Renata.

"Como conseguiram essa foto?", perguntou Bia.

"Hoje, enquanto eu estava lá."

"Você autorizou a exposição?"

"Não."

Lívia voltou às imagens de Caio. O homem de camisa cinza levava uma bolsa com o logotipo de uma fornecedora de peças que ela conhecia. A oficina havia recusado produtos daquela empresa meses antes, por inconsistências nas entregas.

Ela abriu uma gaveta, encontrou uma nota antiga e comparou o desenho do logotipo.

Era o mesmo.

O telefone da oficina tocou antes que pudesse dizer qualquer coisa. Bia atendeu e ouviu em silêncio.

"É o Jonas", disse, cobrindo o aparelho. "Ele perguntou à equipe. Ninguém admite ter tocado na moto."

Lívia estendeu a mão para pegar o telefone.

Jonas esperou que ela se identificasse.

"Tem mais uma coisa", disse ele. "O homem da camisa cinza entrou com autorização da equipe de comunicação. Encontrei o nome dele na lista."

"Qual nome?"

Houve o ruído de uma folha sendo virada.

"Murilo Braga."

Lívia olhou para a nota antiga sobre a bancada. O mesmo nome aparecia no rodapé, como responsável pela entrega.

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