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"Ela Mandou a Dona Sair de Perto da Moto" Capítulo 1 — Saia de Perto da Minha Moto

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Capítulo 1 — Saia de Perto da Minha Moto

"Moça, tira a mão da minha moto."

Lívia Duarte virou o rosto. A mulher que acabara de falar estava a poucos passos dela, segurando uma taça de espumante. Usava um conjunto de linho cor de areia, sandálias de salto fino e uma expressão que parecia pedir aplausos.

Atrás dela, duas amigas interromperam a conversa para assistir.

Lívia soltou o retrovisor da moto rosa.

"Desculpa. Você falou comigo?"

"Tem mais alguém mexendo nela?"

A mulher apontou para a moto com a taça. Algumas gotas caíram no piso do pátio, diante da entrada do clube.

Lívia tinha chegado havia menos de cinco minutos. Estacionara a moto na área indicada pelo funcionário, retirara o capacete e notara que o retrovisor esquerdo estava fora da posição. Ainda tinha as marcas de graxa de uma manhã inteira de trabalho nos dedos. A camisa xadrez aberta sobre a camiseta branca e o jeans gasto não ajudavam a convencer ninguém naquele evento de que fora convidada.

Mas não precisava convencer ninguém.

"Você é a dona?", perguntou.

A mulher ergueu o queixo.

"Sou. E gostaria que se afastasse."

Uma das amigas soltou uma risadinha. A outra levantou o celular, sem fingir que não estava gravando.

Lívia olhou de novo para a moto. A pintura rosa tinha um brilho quase perolado sob o sol da tarde. No tanque, uma pequena estrela prateada fora desenhada à mão. Seu pai tinha insistido naquele detalhe quando ela ainda discutia se deveria pintar a moto de preto.

"Rosa também pode ser uma cor de quem sabe acelerar", ele dissera.

Agora uma desconhecida apontava para a estrela como se tivesse escolhido cada traço.

"Engraçado", disse Lívia. "Como você conseguiu essa moto?"

"Comprando."

"Perguntei como conseguiu esta."

A mulher abriu um sorriso para as amigas.

"Está vendo? Ela quer saber quanto custou."

"Não foi isso que perguntei."

"Custou mais do que você ganha em um ano, provavelmente."

A frase fez duas pessoas pararem perto da entrada. Um homem com crachá de fotógrafo baixou a câmera que carregava no pescoço. Lívia percebeu o movimento, mas manteve os olhos na mulher.

"Qual é o seu nome?", perguntou.

"Renata Vilar." A resposta veio rápida, orgulhosa. "Pode procurar. Sou responsável pela comunicação deste evento."

"Prazer, Renata. Sou Lívia."

Renata olhou para a camiseta branca, depois para as botas.

"Que bom. Agora já nos conhecemos. Pode sair de perto."

Lívia sentiu o impulso de puxar a chave do bolso e encerrar aquilo. Seu pai teria feito exatamente isso. Teria ligado a moto, dado uma volta no pátio e deixado o barulho do motor responder por ele.

Mas havia algo errado.

O retrovisor não estava apenas torto. A pequena tampa de borracha junto à base do suporte também parecia ter sido removida. Lívia se lembrava de encaixá-la antes de sair da oficina.

"Ela veio rodando até aqui?", perguntou a Renata.

"Como qualquer moto."

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"Você estava pilotando?"

Renata respirou fundo, exibindo paciência para a pequena plateia que se formava.

"Você sempre faz interrogatório quando vê uma coisa que não pode comprar?"

Lívia tirou a mão do retrovisor.

"Estou tentando entender por que você disse que é sua."

"Porque é."

"Tem certeza?"

O sorriso de Renata endureceu.

"Olha para você. Não tem dinheiro nem para um pneu desta moto."

O celular da amiga se aproximou. Lívia viu sua própria imagem na tela: cabelo preso de qualquer jeito, mangas dobradas, uma mancha escura no punho. Atrás dela, Renata parecia impecável.

"Não importa o que eu posso comprar", disse Lívia. "Só perguntei se a moto é sua."

"É. Agora sai daqui antes que eu chame a segurança."

Um funcionário de camisa preta apareceu junto à porta, atraído pelo tom da conversa. Renata fez um gesto para ele, satisfeita.

"Esta moça está mexendo na minha moto. Pode pedir que ela se retire?"

O rapaz olhou de Renata para Lívia.

"Senhora, aconteceu alguma coisa com o veículo?"

"Acontecerá, se ela continuar encostando."

Lívia enfiou a mão no bolso do jeans. Renata recuou um passo, como se esperasse uma discussão. Em vez disso, ouviu o clique de uma chave sendo desdobrada.

Lívia passou por ela, montou na moto e encaixou a chave na ignição. O painel se acendeu. Ela apertou o botão de partida.

O motor respondeu de imediato.

A amiga baixou o celular.

Renata ficou imóvel, a taça suspensa no ar.

Lívia desligou a moto e tirou do compartimento sob o banco uma pasta plástica dobrada. Abriu-a na frente do funcionário, mostrando o documento do veículo e sua identificação.

"Ela está registrada no meu nome", disse. "Pode conferir."

O rapaz leu uma vez. Depois, olhou para Renata.

"Senhora Vilar..."

"Isso é algum tipo de brincadeira", Renata interrompeu.

"Não é", disse Lívia.

"Uma chave não prova nada."

"Por isso mostrei o documento."

Ao redor delas, os celulares agora apontavam para Renata. Uma das amigas tinha se afastado discretamente. A outra encarava a própria tela, como se pudesse apagar os últimos minutos apenas baixando o braço.

Renata pousou a taça em uma mesa alta.

"Eu quis dizer que a moto está no evento sob minha responsabilidade."

"Você disse que era sua."

"Você entendeu errado."

"Seu amigo gravou", observou o fotógrafo de crachá. Sua voz era baixa, mas todos ouviram.

Renata virou-se para ele com um olhar afiado. Lívia aproveitou para examinar melhor o retrovisor. Tocou a base, passou o dedo pela borda da tampa e percebeu uma marca recente na pintura.

Ela se agachou.

Na parte de baixo, perto do suporte, havia um parafuso diferente dos que instalara naquela manhã.

O funcionário ainda esperava uma resposta. Renata dizia alguma coisa sobre convidados e mal-entendidos. Lívia já não prestava atenção.

A moto tinha permanecido sozinha no pátio por apenas alguns minutos.

Alguém, naquele intervalo, tinha mexido nela.

Lívia se levantou e guardou o documento.

"Eu vou retirar a moto daqui", disse ao funcionário. "Mas preciso saber quem teve acesso a ela desde que estacionei."

Renata soltou uma risada curta.

"Vai transformar um retrovisor torto em escândalo?"

Lívia olhou para o parafuso novo. Depois, para o rosto de Renata.

"Eu ainda não falei do retrovisor."

Pela primeira vez, Renata não encontrou uma resposta imediata.

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