"A Empregada Viu o Pé do Chefe da Máfia Paralisado Se Mover… E Ele Mandou Trancar a Porta" Capítulo 2 — Ninguém Pode Saber
Isabela demorou alguns segundos para falar.
“Faça de novo.”
Dante soltou uma respiração curta.
“Não é um espetáculo.”
“Faça de novo.”
Talvez nenhuma empregada tivesse dado uma ordem a Dante Montenegro dentro da própria casa.
A expressão dele deixou isso evidente.
Ainda assim, fechou os olhos.
O músculo da coxa contraiu.
O joelho se deslocou pouco mais de dois centímetros.
Dessa vez, Isabela não teve dúvida.
“É voluntário.”
“Sim.”
“Desde quando?”
Dante ficou em silêncio.
“Dante.”
“Quatro meses.”
Ela se levantou de uma vez.
“Quatro meses?”
“Fale mais baixo.”
“Há quatro meses você consegue fazer isso e ninguém sabe?”
“Você sabe.”
“Seu médico?”
“Não.”
Isabela passou a mão pelo cabelo.
Aquilo era absurdo.
“Você precisa de avaliação neurológica.”
“Já fui avaliado.”
“Recentemente.”
“Não.”
“Então precisa.”
“Não pelo homem que cuida de mim.”
A frase a fez parar.
Dante abriu uma gaveta e retirou uma folha dobrada.
“Leia.”
Era uma lista de medicamentos.
Isabela reconheceu vários nomes.
Relaxante muscular.
Medicamento para dor neuropática.
Sedativo.
Anticoagulante.
Outras substâncias.
Ela leu novamente.
“Quem prescreveu isso?”
“Dr. Henrique Valença.”
Isabela conhecia o nome.
Todo mundo que havia trabalhado na área conhecia.
Henrique aparecia em congressos, programas de televisão e eventos beneficentes.
“Essa combinação é pesada.”
“Quanto?”
“Não posso diagnosticar você.”
“Não pedi diagnóstico.”
Dante aproximou a cadeira.
“Quero saber se isso poderia deixar alguém extremamente fraco.”
“Poderia.”
“Sonolento?”
“Sim.”
“Visão turva?”
“Dependendo das doses e da interação, sim.”
“Dificuldade para sustentar o próprio peso?”
Isabela voltou para a folha.
“Possivelmente.”
Dante não demonstrou surpresa.
“Há seis meses, comecei a recuperar pequenas sensações.”
“E ninguém percebeu?”
“Henrique disse que eram respostas involuntárias.”
“E depois?”
“Comecei a piorar.”
A voz dele perdeu parte da dureza.
“Minhas mãos ficaram fracas. Eu dormia quinze, dezesseis horas. Às vezes não conseguia terminar uma reunião.”
Isabela sentiu frio.
“Quando isso começou?”
“Depois que ele alterou minhas medicações.”
Ela pousou o papel.
“Por que continuou tomando?”
“Porque eu tinha uma lesão na coluna e ele era o especialista.”
Era uma resposta simples.
Humana.
Pela primeira vez, Dante pareceu menos chefe e mais paciente.
“Você procurou uma segunda opinião?”
“Dr. Augusto Nogueira.”
Isabela conhecia aquele nome também.
“Ele disse que minha lesão era incompleta. Falou em possibilidade de recuperação neurológica.”
“Então por que não continuou com ele?”
Dante encarou-a.
“Ele morreu.”
Isabela ficou calada.
“Três semanas depois.”
“Como?”
“Infarto.”
“Isso pode acontecer.”
“Pode.”
Dante abriu outra gaveta.
Colocou uma pasta sobre a mesa.
“Dois meses depois, invadiram o consultório dele.”
“Roubaram o quê?”
“Meus exames.”
“Só seus?”
“Só os meus.”
Isabela não tocou na pasta.
“Você acha que alguém está fazendo isso de propósito.”
“Eu acho que alguém precisa que eu continue nesta cadeira.”
“Quem?”
“Se soubesse, não precisaria de você.”
Ela soltou uma risada nervosa.
“Você precisa da polícia.”
“Alguns policiais jantam nesta casa.”
“Um hospital.”
“Henrique atende nos melhores hospitais de São Paulo.”
“Outro médico.”
“Meus médicos são observados.”
Dante inclinou-se.
“Meus advogados são observados. Bruno é observado. Meus executivos são observados.”
“E eu?”
“Ninguém observa a empregada.”
Isabela sentiu a frase como uma bofetada.
Dante percebeu.
“Não quis dizer—”
“Quis, sim.”
Ela devolveu a lista.
“E talvez esteja certo.”
Virou-se para sair.
“Isabela.”
Ela parou.
“Você trabalhou seis anos com reabilitação.”
O sangue pareceu desaparecer do rosto dela.
“Quem contou?”
“Ninguém.”
“Então como sabe?”
“Eu mando investigar qualquer pessoa que entra nesta casa.”
“Até as empregadas que ninguém observa?”
Dante aceitou o golpe sem reagir.
“Clínica Santa Cecília. Técnica de enfermagem. Seis anos.”
Isabela apertou a maçaneta.
“Pare.”
“Seu Antônio Ribeiro recebeu uma dose errada durante seu plantão.”
“Pare.”
“O registro estava no seu acesso.”
“Eu não dei aquele medicamento!”
A frase explodiu.
Dante ficou quieto.
Isabela respirava rápido.
“Eu não dei.”
“Eu acredito.”
Ela riu, amarga.
“Nem minha supervisora acreditou.”
“Eu não disse que acredito em você por bondade.”
“Então por quê?”
“Porque estou olhando para um homem que talvez esteja sendo destruído exatamente da mesma forma.”
Silêncio.
Isabela olhou novamente para os medicamentos sobre a mesa.
Pela primeira vez, as duas histórias pareceram se tocar.
“Se eu ajudar”, disse ela, “você não toma nenhuma decisão médica baseado apenas no que eu disser.”
“Certo.”
“Não retiro medicamento essencial.”
“Certo.”
“Não faço nada que possa machucar sua coluna.”
“Certo.”
“E quando tivermos provas, você procura um especialista independente.”
Dante assentiu.
“Em troca, quero uma coisa.”
“O quê?”
“Descubra quem alterou o registro do Seu Antônio.”
Dante sustentou o olhar dela.
“Já mandei Bruno começar.”
Isabela ficou sem resposta.
Na manhã seguinte, às 5h30, começou o segredo.
Alongamentos assistidos.
Testes simples de movimento.
Ativação muscular.
Equilíbrio sentado.
Nada milagroso.
Nada rápido.
Dante odiava tudo.
“Mais uma.”
“Já fiz vinte.”
“Então faça vinte e uma.”
“Eu pago seu salário.”
“Teresa paga meu salário.”
“Com meu dinheiro.”
“Vinte e uma.”
Ele fez vinte e três.
Isabela quase sorriu.
“Você é insuportável.”
“É por isso que ainda estou vivo.”
“Não. É por isso que ninguém gosta de você.”
Dante olhou para ela.
Por um segundo, quase riu.
Do lado de fora, o corredor permanecia silencioso.
Isabela não viu a sombra desaparecer por baixo da porta.
Nem ouviu Teresa afastar-se.
Mas naquela manhã, antes de descer para o café, Teresa fez uma ligação.
“Começou”, disse.
Uma voz masculina respondeu:
“Tem certeza?”
Teresa olhou para o terceiro andar.
“Ela descobriu.”
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