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"Ninguém Pulou por Ele" Capítulo 5 — A Mesa de Vitória

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Capítulo 5 — A Mesa de Vitória

Fotografei a autorização e guardei a prancheta no armário, exatamente onde a encontrara.

Se Vitória soubesse que eu tinha visto a data, o documento poderia desaparecer antes de Caio recolhê-lo. Ele já tinha o cabo cortado e as imagens da garagem. Eu precisava descobrir quem preparara os registros de Helena.

No salão, os convidados ocupavam mesas compridas com taças intocadas. A festa parecia ter terminado havia horas, embora ainda fosse tarde.

Vitória estava à cabeceira, falando com três homens de terno. Reconheci dois conselheiros da Valença Logística. O terceiro era advogado.

"Minha irmã não pode impedir ninguém de sair", um convidado protestou quando passei.

"Não foi ela quem fechou os portões", respondi.

Vitória ouviu minha voz.

"De fato. Foi você quem convenceu Dante de que um acidente era um atentado."

"Cortaram o cabo da cadeira."

"A perícia de um segurança não é uma conclusão oficial."

"E uma autorização assinada antes da chegada da paciente é válida?"

O advogado interrompeu o movimento da caneta.

Vitória não olhou para ele.

"Não faço ideia do que está falando."

"Então vai ser fácil descobrir."

Eu me afastei antes que ela pudesse perguntar mais. Queria ver sua reação, não lhe contar onde estava o documento.

Perto da porta, encontrei Caio conversando com uma policial à paisana. Ela se apresentou como delegada Beatriz Nogueira. Caio havia acionado a polícia após o disparo; o ferimento do guarda e a cadeira danificada seriam examinados.

Contei o que vira na autorização, sem entregar a única fotografia a Vitória ou ao advogado dela.

"Preciso do original", Beatriz disse.

"Está no quarto onde Helena ficou. Posso mostrar."

"Você vai conosco."

Na escada, Caio falou baixo:

"Vitória pediu que eu removesse a cadeira do terraço antes da chegada da delegada."

"Você recusou."

"Fotografei onde ela estava e a guardei numa sala trancada."

"Não é a mesma coisa que entregá-la à polícia."

"Por isso a delegada está aqui."

Olhei para ele. Caio havia trabalhado para os Valença durante anos. Sua lealdade a Dante não o tornava automaticamente meu aliado, mas aquela decisão preservara uma prova.

No quarto, Beatriz recolheu a prancheta diante de nós. Conferiu as datas e chamou uma agente para registrar a posição dos objetos. Também levou o gravador que Helena escondera, depois de me permitir fazer uma cópia da mensagem.

Entregá-lo doeu. Era a única vez, em quatro meses, que eu ouvira a voz da minha mãe.

Beatriz percebeu.

"Vou registrar que você o encontrou e manter o áudio preservado."

"Encontre também quem a levou."

"Estamos buscando a van."

Caio recebeu uma ligação antes que ela terminasse. Afastou-se para ouvir e voltou com o rosto fechado.

"A van passou pelo acesso norte às 14h29. Depois entrou numa estrada sem câmeras."

"Há alguma saída?", perguntei.

"Uma estrada para as antigas instalações da família. Outra para a rodovia."

Dante voltou do hospital ao anoitecer. O médico recomendara observação, mas ele trouxera o resultado dos exames e a promessa de retornar se a respiração piorasse. No escritório, encontrou Beatriz esperando para tomar seu depoimento.

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Eu não fui convidada a ficar. Em vez disso, usei os registros da secretaria para consultar os pedidos feitos ao setor de eventos. O gelo, a van e os uniformes de manutenção constavam da mesma ordem. O pagamento tinha saído de uma conta operacional da empresa dois dias antes.

O solicitante registrado era um funcionário chamado Murilo Braga.

Procurei seu nome nos ramais. Nada.

Caio apareceu à porta.

"Murilo foi dispensado há seis meses."

"Então alguém reativou o acesso dele."

"Ou nunca o desativou."

Havia uma terceira possibilidade. Murilo podia estar trabalhando para quem controlava aquela conta.

"Quero ver quem aprovou o pagamento", falei.

"Você não tem permissão."

"Dante tem."

Caio me levou ao escritório. Beatriz acabava de sair. Dante estava sozinho, com uma manta sobre as pernas e os exames numa pasta.

"Preciso consultar a aprovação de uma despesa", expliquei. "A van foi contratada com dinheiro da empresa."

Dante abriu o sistema diante de mim. O valor não era grande. Bastava para passar despercebido entre os gastos de uma festa para quase duzentas pessoas.

A aprovação havia sido feita com a credencial de Dante.

"Você autorizou?", perguntei.

"Não."

Caio se aproximou da tela.

"Foi às 2h13 da madrugada."

"Eu estava no quarto", Dante disse.

"Isso não prova quem usou a conta."

Ele fechou a janela e abriu o histórico de acessos. O login viera de um computador do escritório, não de um telefone remoto.

Alguém entrara ali durante a noite.

"Vitória tem acesso à sala?", perguntei.

"Tem", Caio respondeu.

Dante não tentou defendê-la.

"Se a polícia recolher esse computador agora", falei, "ela saberá que encontramos a aprovação. Quero que alguém que usou a conta volte para verificar se ainda está segura."

"Você está propondo deixar uma pessoa entrar no meu escritório?", Dante perguntou.

"Estou propondo oferecer uma informação falsa que só essa pessoa vai receber."

Enviei, do ramal da secretaria, uma mensagem curta ao número usado no pedido de gelo:

Helena deixou uma cópia dos documentos no arquivo da garagem. A polícia ainda não chegou lá.

Caio leu por cima do meu ombro.

"Se esse telefone estiver com os sequestradores, você acabou de avisá-los."

"Eu sei. A garagem está vazia, e Beatriz pode esperar por eles."

Dante ligou para a delegada. Ela concordou em verificar a área, sem me prometer que a mensagem produziria resultado.

O telefone respondeu sete minutos depois.

Ela está viva. Se quiser vê-la, venha sozinha ao depósito velho antes das nove.

Mostrei a tela aos dois homens.

"Não vou sozinha", Caio disse antes que eu falasse.

"Também não vou avisar a pessoa que respondeu que vocês estarão perto."

Dante se moveu em minha direção.

"Lívia, pode ser uma armadilha."

"É uma armadilha. A questão é quem eles esperam encontrar quando eu chegar."

Caio recebeu outra chamada da estrada norte. A van tinha sido encontrada abandonada, sem ninguém dentro. No banco de trás havia uma tira de tecido claro e um pequeno volume embrulhado num pano.

"Não abram sem a delegada", pedi.

Caio repetiu a ordem pelo rádio. Alguns segundos depois, o segurança descreveu o que conseguia ver pela janela.

Era uma caixa de medicamentos com o nome de Helena.

O depósito velho ficava a menos de vinte minutos dali. Quem me enviara a mensagem tinha escolhido um lugar perto o bastante para observar minha saída da propriedade.

Olhei para Dante. Ele compreendeu antes que eu dissesse.

"Querem que você leve a polícia até lá", falei. "Ou querem ter certeza de que não levará."

Peguei meu celular e liguei para Beatriz.

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