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"Ninguém Pulou por Ele" Capítulo 4 — Vinte e Seis Meses

正文开头

Capítulo 4 — Vinte e Seis Meses

"Ele não sabe quem estava no carro naquela noite."

A gravação terminou com o som de uma porta se abrindo.

Apertei o botão outra vez. Ouvi a voz da minha mãe desde o começo, procurando algum ruído ao fundo que dissesse onde ela estava quando gravou aquilo. Havia passos, uma porta e uma voz distante que não consegui distinguir.

Guardei o aparelho no bolso do vestido molhado.

Quando saí da despensa, Dante me esperava no corredor. O médico estava ao lado dele com um casaco seco sobre os braços.

"Você precisa ir ao hospital", o médico insistiu.

"Vou."

Dante olhou para mim.

"Depois que ela fizer sua pergunta."

"Você me disse que minha mãe recebia cuidados. Por que ela gravou uma mensagem escondida debaixo do colchão?"

O médico baixou os olhos. Dante percebeu.

"Nos deixe a sós", ordenou.

"Não", respondi. "Quero que ele fique. Talvez seja o único nesta casa disposto a me dizer há quanto tempo Helena estava naquele quarto."

O médico hesitou.

"Dezessete dias."

Minha mãe estava desaparecida havia quatro meses.

"Onde ela esteve antes?"

"Não sei. Fui chamado para atendê-la quando chegou à propriedade."

"Em que estado?"

"Cansada. Desidratada. Com uma lesão antiga no braço esquerdo que exigia cuidados."

Lembrei da anotação encontrada na gaveta:

Perguntar antes de tocar no braço esquerdo.

"Ela estava impedida de sair?"

O médico olhou para Dante.

"Responda a ela", Dante disse.

"Não havia contenção física. Mas a porta do corredor principal permanecia vigiada."

"Então sim."

O médico não contestou. Dante passou a mão pelo rosto.

"Caio, leve o doutor até o carro. Quero que ele seja examinado também", falei. "O segurança ferido precisa de atendimento."

Caio, que acabara de aparecer na entrada do corredor, me encarou por um instante.

"Já chamei uma ambulância para os dois."

"Ótimo."

Esperei que se afastassem antes de me voltar para Dante.

"Você sabia que Helena estava aqui. Sabia quem eu era. Mesmo assim me deixou procurar por ela dentro da sua casa."

"Eu não sabia que ela tinha desaparecido da sua vida."

"Você nunca perguntou?"

"Helena me disse que você estava segura. Pediu que eu não entrasse em contato."

A resposta me atingiu de um jeito inesperado. Minha mãe havia mentido para ele, ou ele mentia para mim. Talvez os dois.

Mostrei o gravador, mas não o entreguei.

"Ela deixou uma mensagem sobre o ataque que pôs você nessa cadeira."

Dante ficou imóvel.

"Quero ouvir."

"Primeiro, conte o que aconteceu."

Ele olhou para a porta aberta do quarto vazio.

"Há vinte e seis meses, eu ia encontrar um homem que desviava dinheiro das nossas transportadoras. Helena tinha documentos sobre ele. Nosso carro foi atingido antes de chegarmos."

"Quem dirigia?"

"Meu motorista, Renato."

"Quantas pessoas estavam no carro?"

"Três."

"Você, Renato e minha mãe?"

"Era o que eu acreditava até acordar no hospital. Helena disse que não tinha entrado no carro."

正文1

Minha mão se fechou em torno do gravador.

"Ela disse que você não sabe quem estava lá naquela noite."

"Então ela ainda guardava alguma coisa de mim."

"Você guardou minha mãe aqui."

Dante sustentou meu olhar.

"Dezessete dias atrás, ela apareceu no portão com dois homens atrás dela. Um estava armado. Eu a trouxe para dentro e bloqueei os acessos. Ela se recusou a chamar a polícia."

"E você aceitou isso?"

"Ela tinha medo de que você fosse encontrada."

Se eu ainda estivesse segurando a folha com as instruções médicas, teria amassado o papel.

"Esse argumento permitiu que você controlasse todos os movimentos dela."

"Eu sei."

"Você também sabe quem cortou o cabo da sua cadeira?"

"Não."

Ao menos aquela resposta veio sem demora.

Caio retornou com um tablet. A imagem mostrava a garagem inferior às 14h15. Uma van branca atravessava o portão de serviço. A placa estava coberta de barro.

"Vinte minutos antes", Caio explicou, "o mesmo veículo entrou pela área de entregas. O registro diz que trazia gelo para a festa."

"Quem autorizou?", perguntei.

"O setor de eventos. A assinatura no pedido é de Vitória."

Dante estendeu a mão para ver o tablet.

"Ela vai dizer que alguém usou o nome dela."

"Então precisamos de algo que ela não possa explicar assim."

Examinei a imagem quadro a quadro. Na saída, a porta lateral da van estava mal fechada. Uma faixa de tecido claro aparecia presa à borracha.

Minha mãe usava roupas leves mesmo quando fazia frio. Aquilo não provava nada, mas dava à busca uma direção.

"Peça as imagens das estradas de acesso. A van não pode simplesmente desaparecer."

"Já pedi", Caio disse.

Um segurança aproximou-se da porta.

"Senhor Valença, sua irmã está reunindo os convidados no salão. Diz que pode liberá-los."

"Os portões continuam fechados", Dante respondeu.

"Ela chamou os advogados da empresa."

"Então teremos uma conversa com advogados."

Vi a exaustão no rosto dele quando tentou ajustar o próprio corpo na cadeira. O médico tinha razão. Ele precisava de avaliação, e eu precisava de alguém vivo para responder às minhas perguntas.

"Vá ao hospital", falei. "Caio pode manter os registros seguros."

"Não vou sair enquanto Helena estiver desaparecida."

"Se desmaiar no salão, Vitória decide por você. Vá ser examinado e volte."

Dante me estudou.

"Você sempre dá ordens às pessoas que acabou de conhecer?"

"Há onze dias você me contratou. Isso me parece tempo suficiente para saber que não escuta pedidos."

Caio disfarçou um sorriso. Dante não sorriu, mas fez sinal para que trouxessem o carro.

Fiquei com uma cópia das imagens. Antes de subir, voltei ao quarto de Helena. O médico havia deixado sobre a mesa uma prancheta com horários de medicação e observações diárias.

Havia anotações de dezessete dias. Nas primeiras páginas, minha mãe aparecia como alguém inquieta, que perguntava quando poderia me ver. Nas últimas, como uma paciente tranquila, disposta a permanecer.

Comparei as assinaturas dos responsáveis.

O nome de Helena aparecia no rodapé da página de admissão. Também aparecia numa autorização datada de três semanas antes de sua chegada.

Aproximei o papel da luz.

Quem preparara aquele quarto começara a registrar o consentimento da minha mãe antes mesmo de trazê-la para a casa.

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