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"Ninguém Pulou por Ele" Capítulo 3 — A Mulher Atrás da Parede

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Capítulo 3 — A Mulher Atrás da Parede

A porta do subsolo dava para uma passagem estreita atrás da adega.

Caio me alcançou antes da segunda curva.

"Você não vai entrar primeiro."

"Então ande mais rápido."

O corredor terminava numa porta aberta. Lá dentro havia uma cama articulada, um monitor desligado e uma cadeira junto à janela alta. Não parecia um lugar onde se mantinha alguém preso à força. Parecia um quarto arrumado para convencer visitas de que tudo estava sob controle.

Só que não havia visitas.

Passei a mão pelo colchão. Ainda estava morno.

Na mesa lateral, um copo de água deixara um círculo úmido. Havia um elástico de cabelo preso à alça da gaveta, desses que minha mãe comprava em pacotes baratos e perdia por toda a casa.

Eu o recolhi.

"Isso pode ser de qualquer pessoa", Caio disse.

"Eu sei."

Abri a gaveta. Encontrei lenços, um frasco de creme para as mãos e uma folha dobrada duas vezes. O papel trazia uma lista escrita à mão:

Não deixar a janela fechada. Chá sem açúcar. Perguntar antes de tocar no braço esquerdo.

A letra não era da minha mãe. Mas aquelas eram exigências dela. Helena sempre abria a janela, mesmo no inverno. E, desde que eu era pequena, ninguém podia segurar seu braço esquerdo sem avisar.

Atrás de nós, as rodas da cadeira de Dante pararam no corredor.

"Lívia."

Mostrei-lhe a folha.

"Ela esteve aqui?"

Caio olhou de mim para Dante.

"Quem?"

Dante entrou no quarto. A cadeira não passava com facilidade entre a cama e o armário. Ele ficou perto da porta.

"Sua mãe."

Eu precisava ouvir a frase inteira.

"Minha mãe, Helena Duarte, esteve neste quarto?"

"Sim."

Por um momento, ouvi apenas a ventilação.

Helena desaparecera quatro meses antes. A polícia recebera uma denúncia, verificara seu apartamento e concluíra que uma adulta tinha o direito de sair sem comunicar o destino. Eu havia mostrado os remédios deixados sobre a mesa, a bolsa que continuava no armário e o telefone desligado naquela mesma noite.

Agora ela estivera a poucos metros de mim durante onze dias.

Atravessei o quarto e parei diante de Dante.

"Você me entrevistou pessoalmente. Sabia quem eu era."

"Desconfiei quando vi a fotografia no currículo. Confirmei depois."

"E me deixou trabalhar aqui."

"Queria descobrir quem a enviou."

"Ninguém me enviou."

"Então como conseguiu as referências?"

"Eu as inventei."

Caio soltou o ar pelo nariz. Dante não pareceu surpreso.

"Minha mãe desapareceu", continuei. "Eu encontrei uma fotografia dela nos seus arquivos. Foi por isso que entrei nesta casa."

"Helena estava recebendo cuidados."

"Ela podia ir embora?"

Dante demorou a responder.

Antes que o fizesse, uma voz soou do corredor.

"Você sabe que a resposta é complicada."

Vitória apoiou o ombro no batente, impedindo a passagem dos guardas.

"Saia", Dante disse.

"Ela merece saber o que veio procurar."

Eu me voltei para Caio.

"Quem tinha acesso a este quarto?"

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"Uma equipe reduzida."

"Mostre a lista."

Vitória abriu um sorriso.

"A filha puxou à mãe."

Caio recebeu a lista no tablet de um dos guardas. Dante não o impediu de me entregá-la. Havia nomes, horários e entradas registradas por cartão. O último acesso aparecia às 14h12, oito minutos antes de Dante cair no reservatório.

O cartão pertencia a um técnico de manutenção.

"O mesmo uniforme visto pelo guarda ferido", falei.

Caio assentiu.

"Pode ter sido roubado."

"Pode. Mas alguém precisou saber a hora de trazer Dante para a beira da água. E alguém precisou mandar os convidados não se mexerem."

Vitória afastou-se do batente.

"Está me acusando?"

"Estou anotando quem se sente acusada."

Seu sorriso desapareceu.

Caio pegou o tablet de volta. Eu me abaixei junto à cama e examinei o chão. Uma das rodas deixara uma faixa escura sobre o piso claro. A marca ia até a porta, mas ali se dividia: duas linhas seguiam pelo corredor principal; uma terceira, mais estreita, terminava na parede atrás do armário.

Empurrei o móvel.

Ele cedeu poucos centímetros.

"Lívia", Dante disse, "espere pelos seguranças."

Pela primeira vez, obedeci. Dois homens afastaram o armário, revelando uma segunda porta sem maçaneta. Uma placa de metal escondia o mecanismo de abertura.

Caio entrou primeiro. Do outro lado havia um corredor de serviço que saía junto à garagem inferior. A porta externa estava entreaberta.

Vi marcas recentes de pneus no concreto molhado. Um carro havia saído dali enquanto todos olhavam para o reservatório.

"Fechem as saídas de serviço", Caio falou ao rádio.

"Tarde demais", respondi. "Eles planejaram as duas coisas para acontecerem ao mesmo tempo."

Voltei ao quarto. Sobre a cama havia um pequeno gravador, quase escondido na dobra do lençol. Ao lado dele, a fita adesiva que o prendera sob o colchão ainda estava colada ao tecido.

Helena o deixara onde uma pessoa procurando sinais dela provavelmente tocaria.

Guardei o aparelho na palma da mão antes que Vitória pudesse vê-lo.

Dante percebeu. Não disse nada.

"Quero os registros de saída da garagem", falei a Caio. "E quero falar com o médico que atendia minha mãe."

"Você não pode dar ordens à minha equipe", Vitória respondeu.

"Ela acabou de dar", Dante disse.

Caio saiu para verificar as câmeras. Vitória o acompanhou com o olhar, depois se voltou para o irmão.

"Está entregando a casa a uma mulher que entrou aqui mentindo."

"Foi a única pessoa no jardim que se moveu", ele respondeu.

Vitória deixou o quarto sem outra palavra.

Esperei seus passos desaparecerem. Então ergui o gravador.

"Se isto for da minha mãe, vou ouvir sozinha."

Dante recuou a cadeira para liberar a porta.

"Tem esse direito."

"Isso não significa que eu confie em você."

"Eu sei."

Passei por ele e encontrei uma pequena despensa vazia no fim do corredor. Fechei a porta, encostei nela as costas e apertei o botão.

Ouvi ruído de tecido. Uma respiração baixa. Depois, a voz de Helena.

"Lívia, se você encontrou isto, é porque eu não consegui sair com você."

Apertei o gravador com as duas mãos.

"Não acredite na história que Dante contou sobre o ataque de vinte e seis meses atrás."

Houve uma pausa. Alguém parecia chamá-la do outro lado de uma porta.

"Ele não sabe quem estava no carro naquela noite."

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