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"Ninguém Pulou por Ele" Capítulo 1 — A Água Não Fez Barulho

正文开头

Capítulo 1 — A Água Não Fez Barulho

Quando Dante Valença caiu no reservatório, cento e oitenta e sete pessoas estavam no jardim.

Eu contei depois. Naquele instante, só vi a cadeira de rodas virar de lado na beira do terraço e a mão dele procurar um apoio que já não estava ali.

A camisa branca desapareceu sob a água escura.

O quarteto continuou tocando por mais dois compassos.

Ninguém correu.

"Não faça isso", alguém sussurrou atrás de mim.

Eu não me virei para descobrir quem tinha falado. Tirei um salto, perdi o outro entre as mesas e pulei.

A água do reservatório era fria o bastante para arrancar o ar dos meus pulmões. Meu vestido azul se abriu ao meu redor como uma vela, prendendo minhas pernas. Empurrei o tecido para baixo e mergulhei outra vez.

Encontrei Dante alguns metros abaixo da superfície.

A cadeira havia descido quase na vertical pela inclinação de pedra. O cinto ainda o prendia ao assento. Ele estava de olhos abertos.

O que me assustou foi a calma com que me observava.

Agarrei seu braço e puxei. A cadeira não cedeu. Soltei o cinto, tentei erguê-lo pelo tronco e senti alguma coisa travar sob o assento.

Dante apontou para baixo.

Seu paletó estava enrolado na barra metálica da cadeira. Quanto mais eu puxava, mais o tecido apertava seu peito.

Passei os dedos pelos botões. O primeiro abriu. O segundo resistiu. Eu já sentia a pressão queimando dentro da cabeça quando arranquei o terceiro com um puxão.

Dante parou de se mover.

Por um segundo, achei que tivesse perdido a consciência. Então vi seus olhos acompanharem minhas mãos. Ele estava economizando o pouco ar que lhe restava e confiando que eu conseguiria.

Rasguei o paletó preso na barra, passei um braço sob seu queixo e bati as pernas com toda a força.

Rompemos a superfície juntos.

"Respire", eu disse, embora mal conseguisse fazer isso.

Dante tossiu uma vez. O corpo dele pesou contra o meu. Segurei sua cabeça fora d’água e nadei de costas até a escadaria de pedra.

Havia seguranças no terraço. Eu reconheci dois deles: homens que me haviam parado três vezes desde minha chegada à casa, onze dias antes. Agora me olhavam sem se aproximar.

"Ajudem!", gritei.

Nenhum entrou na água.

Quando alcancei o primeiro degrau, mãos apareceram por todos os lados. Tiraram Dante dos meus braços e o deitaram sobre a pedra clara. Eu subi sozinha, apoiando os joelhos nos degraus escorregadios.

Um médico se ajoelhou junto dele. Os convidados abriram espaço, mas continuaram em silêncio. O vestido grudava nas minhas costas. Meus dedos tremiam tanto que não consegui afastar o cabelo dos olhos.

Eu havia mentido para entrar naquela casa.

No currículo que entreguei aos Valença, havia referências inventadas, uma experiência como assistente executiva que durara muito menos do que eu alegara e um sobrenome que não era o meu. Nada daquilo parecia tão perigoso quanto o silêncio do jardim.

正文1

O médico pediu que trouxessem sua bolsa. Um garçom obedeceu.

Perto de uma mesa coberta de rosas brancas, Vitória Valença observava o irmão. Usava seda cor de creme e um colar de pérolas. Sua taça de espumante permanecia firme entre os dedos.

Ela não parecia assustada.

Parecia contrariada.

Dante tossiu água e abriu os olhos. O médico tentou falar com ele, mas Dante procurou meu rosto antes de olhar para os convidados.

"Quem mandou vocês ficarem parados?"

Ninguém respondeu.

Vitória pousou a taça.

"Você precisa entrar, Dante."

Ele não olhou para ela.

"Eu perguntei quem deu a ordem."

Alguns homens baixaram os olhos ao mesmo tempo. Um movimento pequeno, quase educado, que atravessou o terraço como uma resposta ensaiada.

O chefe da segurança, Caio Ferraz, avançou entre os convidados.

"Vamos levá-lo para dentro."

"Primeiro, feche os portões."

Caio hesitou.

"Agora", Dante disse.

Os rádios dos seguranças estalaram. Do outro lado do jardim, ouvi o motor do portão principal. A música finalmente parou.

Vitória se aproximou da cadeira vazia que alguém trouxera de dentro da casa.

"Está transformando um acidente em um espetáculo."

Dante apoiou as mãos na pedra para se erguer. Dois seguranças o ajudaram a se sentar. Ele não afastou os olhos dela.

"Então você não terá problema em esperar até descobrirmos como aconteceu."

Eu dei um passo para trás. Precisava sair dali antes que alguém verificasse meu currículo. Antes que Vitória olhasse para mim com mais atenção.

Uma mão tocou meu cotovelo.

Era Caio.

"Você vai ficar."

"Estou encharcada."

"Eu percebi."

Olhei para a água. A cerca de vinte metros da escadaria, um círculo de bolhas ainda subia do lugar onde a cadeira afundara.

"Ela virou sozinha?", perguntei.

Caio acompanhou meu olhar.

"É o que vou descobrir."

Eu tinha visto a roda direita parar. Tinha visto a esquerda continuar girando e lançar Dante de lado. Um defeito era possível. A reação de cento e oitenta e sete pessoas, não.

"Comece por quem estava atrás de mim", falei. "Alguém sabia que ele ia cair."

Caio apertou meu braço por um instante e soltou.

"Como você sabe?"

"Essa pessoa me mandou não pular antes de eu tirar os sapatos."

No terraço, Dante ergueu a cabeça.

Embora eu tivesse falado baixo, ele ouvira.

E, pela maneira como examinou os rostos à nossa volta, entendi que também reconhecia o significado daquilo.

Alguém havia avisado os convidados. Alguém havia dado uma ordem.

Eu só ainda não sabia se aquela pessoa também estava esperando que eu morresse na água.

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