"Pedi Para Um Estranho Fingir Que Me Amava… Sem Saber Que Ele Era o Chefe da Máfia" Capítulo 4 — Não Finja Mais
Isabela passou a noite sem dormir.
Três anos e meio.
Era impossível olhar para esse tempo inteiro e aceitar que talvez tudo tivesse começado com uma mentira.
Marcelo conhecia o café que ela gostava.
Sabia que ela dormia com uma janela aberta mesmo no inverno.
Sabia o nome da professora que a ajudara quando sua mãe morreu.
Sabia que ela chorava escondido no aniversário de Helena.
Tudo aquilo podia ter sido falso?
Na manhã seguinte, Isabela entrou no escritório de Dante sem bater.
“Quero falar com Ricardo.”
Dante ergueu os olhos do computador.
“Não.”
“Você nem pensou.”
“Pensei ontem.”
“Ele pode estar envolvido.”
“Exatamente por isso você não vai chegar perto dele.”
“Não decide isso.”
Dante se levantou.
“Isabela, se Ricardo estiver ligado a Marcelo, qualquer movimento agora pode destruir a única vantagem que temos.”
“Que vantagem?”
“Ele não sabe o que sabemos.”
“E eu tenho que continuar fingindo?”
“Por enquanto.”
Ela riu sem humor.
“Você gosta dessa palavra.”
“Do quê?”
“Fingir.”
Dante contornou a mesa.
“Não estou brincando.”
“Nem eu.”
Ela se aproximou.
“Você quer que eu finja que não sei que seu tio pode ter ajudado meu ex a roubar meu dinheiro, minha identidade e talvez três anos da minha vida.”
“Quero que fique viva enquanto descobrimos.”
A frase a calou.
Dante percebeu que tinha ido longe demais.
“Isabela…”
“Não.”
Ela recuou.
“Você não pode usar medo para me controlar.”
“Não estou tentando controlar você.”
“Parece exatamente isso.”
“Estou tentando impedir que você entre sozinha em uma situação que não entende.”
“E você entende?”
Silêncio.
Foi a resposta.
Isabela balançou a cabeça.
“Você também não sabe o que está acontecendo.”
“Não.”
“Então pare de agir como se pudesse me proteger de tudo.”
Dante a encarou.
“Eu não posso.”
A honestidade novamente a atingiu.
“Mas posso tentar.”
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Isabela saiu antes que dissesse alguma coisa da qual se arrependeria.
***
Dois dias depois, o Grupo Montenegro realizou um jantar beneficente no salão principal do Hotel Imperial.
Isabela não queria ir.
Augusto insistiu que ela estava na equipe de eventos.
Ela vestiu um conjunto preto simples e prendeu o cabelo.
Durante quase uma hora, tudo correu normalmente.
Até ouvir uma voz atrás dela.
“Olha só.”
Isabela congelou.
Marcelo.
Ele usava smoking.
Valentina não estava com ele.
“De garçonete a convidada do chefe em menos de uma semana.”
Isabela virou-se.
“Como entrou?”
“Você anda muito preocupada com portas ultimamente.”
“Vai embora.”
Marcelo sorriu.
“Está nervosa?”
“Não.”
“Deveria.”
Alguns convidados começaram a olhar.
Marcelo aproximou-se.
“Eu sempre disse que você podia ir longe se aprendesse a usar o que tem.”
Isabela sentiu o rosto queimar.
“Cuidado.”
“Com o quê?”
“Com o que vai dizer.”
Marcelo riu.
“Agora fala como ele.”
“Eu não preciso do Dante para responder a você.”
“Claro que precisa.”
Ele olhou ao redor.
“Sem ele, você ainda estaria carregando bandeja.”
“E trabalhando honestamente.”
“Honestidade não paga dívida de quatrocentos e vinte mil.”
O coração de Isabela disparou.
Marcelo sorriu ao perceber.
“Você acha que eu não sei?”
“Você sabe porque foi você que fez.”
“Prova.”
A palavra saiu quase sussurrada.
“Prova, Isabela.”
Ela deu um passo à frente.
“Eu vou provar.”
“Antes ou depois de dormir com Montenegro?”
O salão pareceu silenciar.
Isabela ergueu a mão.
Não bateu nele.
Parou.
Marcelo sorriu.
“Vai. Faz.”
“Ela não precisa.”
A voz veio atrás dele.
Dante.
Marcelo virou-se.
Dante estava de smoking preto.
Não parecia furioso.
Parecia pior.
“Senhor Montenegro.”
“Ferraz.”
“Estamos apenas conversando.”
“Não parece.”
“Pergunte a ela.”
Dante não tirou os olhos de Isabela.
“Quer que ele seja retirado?”
A pergunta importava.
Ele não disse aos seguranças para arrastar Marcelo.
Não decidiu por ela.
Perguntou.
Isabela respirou fundo.
“Ainda não.”
Dante assentiu.
Marcelo olhou de um para o outro.
“Bonito.”
“Marcelo”, Isabela avisou.
“Ele sabe que você agarrou o primeiro homem rico que encontrou porque ficou com vergonha de eu ver você servindo bebida?”
Dante finalmente olhou para ele.
“Eu estava lá.”
“Então sabe.”
“Sei.”
Marcelo riu.
“E mesmo assim continua com essa encenação?”
Dante não respondeu.
Em vez disso, caminhou até Isabela.
Parou diante dela.
Não a tocou.
“Você ainda quer?”
Ela franziu a testa.
“O quê?”
“Que eu finja.”
Marcelo perdeu o sorriso.
Isabela sentiu o coração bater mais forte.
“Fingir o quê?”
Dante manteve os olhos nos dela.
“Que estou com você.”
O salão desapareceu.
Por um segundo, Isabela esqueceu Marcelo.
Esqueceu os convidados.
Esqueceu tudo.
“Dante…”
“Porque eu não estou mais fingindo.”
O ar ficou preso nos pulmões dela.
Marcelo falou alguma coisa.
Isabela não ouviu.
Dante levantou uma mão.
Parou antes de tocar seu rosto.
Esperou.
A escolha era dela.
Isabela poderia recuar.
Não recuou.
Os dedos dele tocaram sua face.
Suavemente.
E Dante a beijou.
Não houve pressa.
Não houve força.
O beijo começou como uma pergunta.
Isabela respondeu.
Quando percebeu, seus dedos estavam segurando a lapela do paletó dele.
Exatamente como na primeira noite.
Mas daquela vez não havia medo.
Quando se separaram, Dante manteve a testa próxima à dela.
“Isso foi fingimento?”
Isabela tentou recuperar o ar.
“Não.”
Marcelo estava branco.
“Vocês são ridículos.”
Dante finalmente olhou para ele.
“Agora pode retirá-lo.”
Bruno apareceu quase imediatamente.
Marcelo recuou.
Antes de sair, encarou Isabela.
“Isso não termina aqui.”
Ela sustentou o olhar.
“Para mim, terminou há dois meses.”
***
Depois do jantar, Dante ofereceu levá-la para casa.
Isabela recusou.
“Preciso pensar.”
Ele não insistiu.
“Me manda uma mensagem quando chegar.”
Ela arqueou uma sobrancelha.
“Isso foi uma ordem?”
“Um pedido.”
“Melhor.”
Dante quase sorriu.
Isabela entrou no carro por aplicativo.
Durante todo o caminho, tocou os próprios lábios como uma adolescente.
Aquilo era absurdo.
Dante Montenegro era perigoso.
Complicado.
Talvez ligado ao pior período da vida dela.
E ainda assim, pela primeira vez em muito tempo, Isabela tinha sido beijada sem sentir que devia alguma coisa em troca.
Quando chegou ao prédio, subiu as escadas.
O corredor estava escuro.
A lâmpada havia queimado.
Ela colocou a chave na porta.
Parou.
A fechadura estava arranhada.
Seu coração acelerou.
Isabela empurrou a porta.
“Meu Deus.”
A sala estava destruída.
Gavetas no chão.
Almofadas rasgadas.
Documentos espalhados.
A televisão quebrada.
Ela entrou lentamente.
“Tem alguém aqui?”
Nada.
Pegou o celular.
Antes que pudesse ligar, viu a parede.
Alguém havia escrito uma frase enorme com tinta vermelha.
**ELE NÃO VAI CONSEGUIR PROTEGER VOCÊ.**
Isabela ficou imóvel.
O telefone começou a vibrar em sua mão.
Dante.
Ela atendeu.
“Isabela?”
Ela não conseguiu responder.
“Isabela, fala comigo.”
Seus olhos continuavam presos à parede.
“Entraram aqui.”
A voz de Dante mudou imediatamente.
“Saia do apartamento.”
“Está tudo destruído.”
“Não toca em nada. Vai para o corredor.”
Ela obedeceu.
“Dante…”
“Estou indo.”
“Eles escreveram uma coisa.”
“O quê?”
Isabela olhou novamente para as palavras.
“Que você não vai conseguir me proteger.”
Silêncio.
Depois a voz dele voltou.
Fria.
Controlada.
“Isabela, escuta com atenção. Bruno está a seis minutos daí.”
“Como você sabe?”
“Porque mandei que ele ficasse perto depois do jantar.”
Ela deveria ficar irritada.
Naquele momento, não conseguiu.
“Não entra novamente.”
“Tá.”
“Fica comigo no telefone.”
“Dante…”
“Estou aqui.”
Ela encostou na parede do corredor.
Pela primeira vez desde que tudo começara, deixou que a voz dele a acalmasse.
Então ouviu um ruído vindo de dentro do apartamento.
Isabela congelou.
“Dante.”
“O que foi?”
“Tem alguém lá dentro.”
Uma sombra atravessou a porta aberta.
Isabela recuou.
E a ligação caiu.
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