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"O Homem Que Não Devia Se Levantar" Capítulo 6 — Diante de Todos

正文开头

Capítulo 6 — Diante de Todos

Mostrei a Caio o registro de acesso duas vezes.

"Pode ser um erro", ele disse.

"Pode. Ou alguém pegou a credencial de Lívia."

"Ela a guarda no chaveiro da casa."

"Lugar ao qual Renato e Helena têm acesso?"

"Renato entra quando vem atender. Helena tem as próprias chaves."

Nenhuma resposta encerrava a dúvida. Se acusássemos Lívia com aquele registro, a pessoa que usara sua credencial teria tempo para desaparecer com o que houvesse no armário. Se não fizéssemos nada, Helena chegaria à reunião de família com uma fotografia roubada e uma história preparada sobre o irmão.

"Precisamos de algo que possa ser conferido fora desta casa", falei.

Caio olhou para o estojo preto sobre a mesa. Os frascos permaneciam ali desde que me defendera diante dos seguranças.

"Renato prometeu os registros do tratamento", disse. "Entregou duas páginas sem assinatura."

"Então ainda não temos os registros."

"Temos os números das remessas."

Peguei meu celular. As etiquetas da van, o controle da sala de serviço e as fotos dos frascos traziam códigos. Alguns dígitos coincidiam, mas eu não saberia explicar o que havia nas caixas sem documentos de origem.

Beatriz talvez soubesse onde procurar a folha original do meu antigo processo. Liguei para ela de um telefone público perto do mercado, longe da casa.

"Você guardou mais alguma coisa?", perguntei.

"Já lhe dei o e-mail."

"Preciso encontrar a anotação original da noite de dona Célia. Não quero que a retire para mim. Quero saber se existe uma cópia que eu possa solicitar."

Beatriz demorou a responder.

"O livro de ocorrências foi digitalizado antes de você sair. Para uma auditoria de rotina. Não sei se apagaram o arquivo depois."

"Quem recebeu a auditoria?"

"Uma empresa externa. Tenho o nome num recibo antigo."

Ela enviou a foto do recibo vinte minutos depois. Eu procurei o contato e expliquei que precisava de uma cópia de um registro associado a uma apuração trabalhista em meu nome. Pediram que enviasse documentos para verificar a solicitação. Fiz isso naquela mesma tarde.

A resposta veio na manhã da reunião.

O arquivo preservado não continha a página inteira do livro, apenas uma imagem capturada durante a auditoria. Era suficiente para mostrar que, no horário em que a dose fora atribuída a mim, eu estava registrada em outra ala, acompanhando uma transferência. O campo da medicação havia sido preenchido depois, com tinta diferente. Ainda precisaria de análise formal para concluir quem o alterara.

Pela primeira vez desde a demissão, eu tinha uma prova que não dependia apenas da minha palavra.

Enviei o arquivo para Beatriz, que confirmou o horário da transferência. Depois fiz uma cópia numa pasta compartilhada com um advogado indicado por ela. Pedi que ele preservasse tudo e não apresentasse nenhuma acusação antes de examinarmos o conjunto dos documentos.

Caio me esperava na biblioteca.

"Conseguiu?", perguntou.

"Consegui uma imagem original da auditoria. A anotação que usaram contra mim não estava completa naquele momento."

正文1

Ele se aproximou com a cadeira.

"Marina..."

"Não quero que você resolva isso por mim."

"Eu ia dizer que a reunião começa em uma hora."

Mostrei o arquivo a ele. Caio examinou as datas e devolveu o celular.

"Isso muda o que podem dizer sobre você."

"Muda o que posso provar."

Lívia apareceu à porta. Estava pálida.

"Helena pediu que a senhora Marina não entre na sala de reuniões."

"Ela vai entrar", Caio disse.

"Seu advogado acha que isso vai piorar a situação."

"Qual advogado?"

"Dr. Álvaro. Está lá dentro com ela."

Caio passou por Lívia, mas eu fiquei.

"Seu nome consta no acesso ao armário 18", falei.

Ela fechou a porta atrás de si.

"Eu sei. A segurança me perguntou hoje cedo."

"Você esteve no terminal?"

"Não saí desta casa naquela noite."

"Alguém usou sua credencial."

Lívia tirou o chaveiro do bolso e o colocou sobre a mesa. Entre as chaves da casa havia um espaço vazio na argola, marcado por metal mais claro.

"Uma chave sumiu há três dias", disse. "Pensei que tivesse perdido."

"Por que não contou a Caio?"

"Porque, quando perguntei a Renato se a tinha visto, ele me mostrou uma cópia da denúncia contra você. Disse que você levara coisas da casa e talvez tivesse pegado a chave também."

Eu a encarei.

"Ele sabia que eu tinha os frascos. Caio disse isso na frente de todos."

"Foi antes da conversa." Lívia apertou o chaveiro. "Renato disse que havia outras coisas."

"Você acreditou?"

"Achei que precisava conferir."

Ela havia me acusado diante dos seguranças. Não seria apagado por uma explicação tardia. Mas, naquele momento, eu precisava saber onde terminava o erro dela e começava a mentira dos outros.

"Quem mais sabia que sua chave tinha desaparecido?"

"Renato. E Helena, porque ele falou com ela na minha frente."

"Então diga isso na reunião."

Lívia olhou para a porta.

"Helena decide quem trabalha aqui enquanto Caio não pode administrar."

"É justamente o que vão decidir hoje."

A sala principal estava cheia quando entrei com ela. Havia quatro familiares, dois advogados e o contador das empresas. Helena ocupava a cabeceira da mesa. Renato estava sentado à sua direita.

Caio permanecia perto da janela, na cadeira de rodas.

Helena viu meu rosto e fechou uma pasta.

"Esta reunião é reservada."

"Marina tem informações sobre entregas feitas em nome dela", Caio disse.

"Ela não é acionista."

"Nem você é médica", ele respondeu, olhando para a irmã. "Ainda assim, trouxe Renato para falar da minha capacidade."

Helena respirou fundo.

"Porque sua saúde afeta decisões que você vem tentando tomar sem consultar ninguém."

O advogado Álvaro distribuiu cópias de uma proposta. Helena queria manter temporariamente o controle exclusivo das operações do terminal. Alegava que Caio havia desobedecido orientações médicas e visitado o porto sem avisar a equipe.

Então retirou a fotografia roubada da minha bolsa.

"Ele passou a esconder episódios importantes até de seu médico", disse.

正文2

O contador se inclinou para ver a imagem. Renato ergueu os olhos para Caio.

"Você conseguiu ficar de pé e não me contou?"

"Consegui", Caio respondeu.

O murmúrio ao redor da mesa começou imediatamente. Helena esperou que crescesse.

"Não há como confiar em decisões tomadas nesse estado", afirmou. "Ele expôs a própria saúde e trouxe uma funcionária recém-contratada para interferir no tratamento."

Caio pousou as mãos sobre os braços da cadeira. Eu sabia que poderia tentar levantar. Também sabia que suas pernas talvez não o sustentassem naquele instante e que Helena usaria a queda contra ele.

Aproximei-me da mesa.

"Essa foto foi tirada há três semanas", falei. "Não diz como ele estava antes nem como ficou depois. Tomás Nogueira estava presente naquele dia. É dele que precisamos ouvir a explicação."

"Tomás abandonou o emprego", Helena respondeu.

"Quem registrou a saída dele?"

"Assuntos de pessoal não lhe dizem respeito."

"Minha assinatura consta numa entrega feita à empresa meses depois de eu sair do Instituto Santa Clara. Isso me diz respeito."

Mostrei no tablet as imagens do registro, minha rescisão e o arquivo da auditoria. Não pedi que acreditassem em mim sem conferir. Dei as datas ao advogado e ao contador para que as comparassem.

"Vocês podem verificar cada documento", disse. "A acusação que tirou meu emprego se apoiou numa anotação feita depois da imagem preservada pela auditoria."

Renato afastou a cadeira.

"Isso não tem relação com o tratamento de Caio."

"Tem relação com a clínica que enviou material para cá", respondi. "E com a entrega assinada em meu nome."

Helena virou-se para o advogado.

"Essas imagens podem ter sido alteradas."

"Podem ser examinadas", falei. "As cópias também estão fora desta casa."

Caio me olhou. Eu não havia contado a ele que já as enviara. Dessa vez, o segredo era meu.

Lívia se levantou perto da porta.

"Minha credencial foi usada para abrir um armário do terminal ontem à noite", disse. "Eu estava aqui. A chave correspondente sumiu do meu chaveiro."

Helena bateu a pasta na mesa.

"Por que só está dizendo isso agora?"

"Porque achei que a funcionária a tivesse pegado", Lívia respondeu. "Renato me disse para suspeitar dela."

Renato ficou de pé.

"Eu disse para verificar. É diferente."

Caio moveu a cadeira até a mesa.

"O armário é o de número dezoito", falou. "Foi aberto depois que alguém mandou uma fotografia dele vazio. Quero o registro das câmeras e a identificação de quem usou a chave."

Álvaro pediu silêncio. O contador começou a anotar os números das remessas. Pela primeira vez, Helena não comandava todas as perguntas.

Ela se voltou para mim.

"Você criou uma cena com documentos que ainda não foram examinados. Quando a reunião acabar, sairá desta casa."

"Isso pode ser decidido depois", respondi. "Antes, quero que Renato explique o registro do tratamento no dia em que a fotografia foi tirada."

"Já entreguei os registros", disse ele.

"Entregou duas páginas sem assinatura. A consulta daquele dia não aparece nelas."

O celular que eu deixara sobre a mesa começou a chamar. Na tela, havia apenas um nome:

Testemunha

.

Helena olhou para o aparelho. Renato deu um passo em direção à porta.

"Fique", Caio disse a ele.

Ativei a chamada e coloquei o celular diante de todos.

A imagem apareceu primeiro escura, instável. Em seguida, o rosto de um homem surgiu na tela.

Caio segurou a borda da mesa.

"Tomás?"

O homem olhou diretamente para Renato.

"Antes que ele diga que eu sumi por vontade própria", falou, "perguntem por que meu nome consta no registro de saída se eu passei aquela noite trancado dentro do terminal."

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