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"O Homem Que Não Devia Se Levantar" Capítulo 5 — O Homem Que Me Observava

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Capítulo 5 — O Homem Que Me Observava

Caio ampliou a imagem.

A porta metálica do armário tinha um adesivo antigo de identificação. No chão, perto da dobradiça, havia um pedaço de lacre azul. Nada na fotografia mostrava quem a tirara nem quando.

"O terminal tem câmeras?", perguntei.

"Tem. As imagens ficam com a segurança da empresa."

"Quem pode pedir acesso?"

"Eu."

"E quem controla a segurança enquanto sua família diz que você não pode trabalhar?"

Caio não respondeu de imediato.

Helena Valença comandava as decisões do dia a dia desde o acidente do irmão. Lívia organizava a casa. Renato cuidava do tratamento. Caio podia exigir uma gravação, mas qualquer um dos três saberia que ele a procurava.

Mostrei a ele o bilhete sobre a chave.

"Alguém quis me mandar até esse armário", falei. "Agora manda a foto para você. Talvez queira saber se vamos correr até lá."

"Ou quer que eu pense que Tomás guardou algo."

"É por isso que preciso descobrir quem entrou na sala de serviço para deixar o bilhete."

Caio deslizou a cadeira até a escrivaninha e abriu uma gaveta. Retirou um caderno pequeno, cheio de horários anotados à mão.

"Passei a registrar quem sobe ao terceiro andar", disse. "Depois que comecei a sentir as pernas, precisava saber quem estava perto quando isso acontecia."

Folheei as páginas. Havia datas de consultas, banhos, visitas de Helena e períodos em que Lívia ficava sozinha com ele. Caio também marcara os dias em que conseguira mover o pé, apoiar o peso ou ficar de pé por alguns segundos.

As melhoras apareciam mais vezes antes das consultas de Renato. Depois, desapareciam durante dias.

Era um padrão que justificava investigação. Não era uma prova de causa.

"Por que não procurou outro médico?", perguntei.

"Procurei. Pedi uma avaliação fora daqui. Renato soube antes de a clínica confirmar o horário."

"Como?"

"É o que gostaria de saber."

Eu apontei para a agenda aberta.

"Se queremos descobrir quem repassa informação, damos a pessoas diferentes informações diferentes."

Caio ergueu os olhos.

"Você tem um plano?"

"Tenho uma hipótese para testar."

Naquela tarde, enquanto trocava os panos da sala de serviço, deixei Lívia me ouvir dizer a uma funcionária que Caio havia pedido os frascos de volta e que eu os entregaria à noite. Depois, fui ao terceiro andar pela escada de serviço levando uma caixa de produtos de limpeza.

Lívia estava junto à porta do escritório.

"Eu disse que você não subiria", falou.

"Renato pediu que limpassem a sala de consultas antes da visita de amanhã."

"Eu não fui informada."

"A senhora pode confirmar com ele."

Ela tirou o telefone do bolso. Eu continuei parada com a caixa nas mãos até que desistiu de ligar.

"Cinco minutos."

Entrei na sala de consultas. Sobre a bancada, deixei uma caixa vazia de frascos, fechada com fita. Por dentro, havia apenas papel. Na tampa, escrevi uma data antiga e a palavra

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amostra

. Tirei uma fotografia que mostrava o objeto, a bancada e o relógio de parede.

Não tentava enganar um laboratório. Queria saber se alguém abriria a caixa depois que eu saísse.

Ao anoitecer, Helena Valença chegou num carro escuro. Eu a vi atravessar o saguão com uma pasta fina sob o braço. Era mais nova que Caio, usava um vestido azul sem adornos e caminhava como se ainda morasse ali. Não olhou para mim ao passar.

"Seu irmão está no terceiro andar", Lívia disse.

"Primeiro quero falar com Renato."

As duas seguiram para o corredor dos fundos.

Esperei até a casa se aquietar e voltei à sala de consultas com autorização de Caio. A fita da caixa estava cortada. A tampa fora recolocada com cuidado, mas o papel dentro estava amassado de outro jeito.

Fotografei tudo. Em seguida, fui à lavanderia para conferir se a câmera do corredor de serviço registrara a entrada. A tela usada pela equipe mostrava apenas imagens ao vivo; as gravações dependiam de senha.

Pedi a Caio que solicitasse o vídeo à segurança, sem revelar o motivo. Enquanto esperávamos, alguém bateu à porta da pequena sala onde ele estava.

Era Helena.

"Precisamos conversar em particular", disse ao irmão.

Caio não pediu que eu saísse.

"Marina estava terminando um assunto comigo."

Helena finalmente me olhou.

"Percebi que ela anda ocupada."

"Descobri uma entrega registrada com meu nome", falei. "Quero saber quem a recebeu."

Helena pousou a pasta na mesa.

"Esse é um assunto da empresa. Não tem relação com seu trabalho aqui."

"Usaram minha assinatura depois que fui demitida do instituto."

"Então procure o instituto."

"Já procurei."

Por um momento, ela pareceu medir o quanto eu sabia.

"Caio, amanhã todos vão perguntar por que você está trazendo uma funcionária doméstica para reuniões sobre tratamento e carga", disse. "Pense no que isso fará com sua credibilidade."

"Eu pensarei", ele respondeu.

Helena pegou a pasta e saiu. Só depois que a porta se fechou Caio soltou o ar.

"A empresa é grande o bastante para que eu não conheça cada entrega", disse. "Helena conhece."

"Isso faz dela alguém que pode responder."

"E alguém capaz de esconder a resposta."

Seu celular vibrou. A segurança enviara o trecho da câmera do corredor. Vimos a imagem juntos.

Às dezenove e quarenta e dois, uma pessoa entrou na sala de consultas. Não era Lívia. A câmera mostrou apenas o perfil e parte do uniforme branco.

Renato.

Ele permaneceu menos de um minuto lá dentro.

"Isso confirma que abriu a caixa", falei. "Não confirma que levou os frascos."

"Mas achou que poderia haver algo nela."

Voltei o vídeo alguns segundos. Antes de entrar, Renato olhara para o corredor. Em seguida, retirara do bolso uma chave pequena.

"Ele não costuma trancar essa sala", Caio disse.

"Talvez a chave não seja daqui."

Congelamos a imagem. Na argola havia uma etiqueta metálica retangular. O número não aparecia inteiro, mas eu conseguia ver o último algarismo.

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Oito.

Caio pegou o telefone e enviou uma mensagem curta a um contato sem nome salvo. Perguntei a quem escrevia.

"A um homem que ainda trabalha no terminal. Pedi que conferisse quem acessou os armários ontem."

"Você confia nele?"

"Confiava em Tomás também."

Aquilo não me tranquilizou. Pedi que não enviasse a imagem da chave nem mencionasse meu nome. Ele aceitou.

Na manhã seguinte, encontrei minha bolsa aberta no vestiário. Não faltava dinheiro. Faltava a fotografia impressa de Caio em pé.

A cópia digital continuava comigo, mas quem entrara ali talvez não soubesse.

Fui direto ao quarto de Caio. Helena estava saindo, com Renato logo atrás. Ela não disfarçou o aborrecimento ao me ver.

"Perdi uma fotografia", falei diante dos dois. "Se alguém a encontrou, quero que devolva."

Renato manteve o rosto imóvel. Helena perguntou que fotografia era.

"Uma que mostra o senhor Caio no terminal."

O silêncio durou um segundo a mais do que deveria.

Caio olhou para mim. Eu sabia que havia acabado de revelar a existência da imagem aos três. Fizera isso para observar quem reagiria, mas também para que ninguém pudesse usá-la depois fingindo que eu a inventara.

Helena foi a primeira a falar.

"Mostra meu irmão quando?"

"Três semanas atrás."

Ela virou-se para Caio.

"Você foi ao terminal sem me contar?"

"Fui."

"E conseguiu ficar de pé?"

Caio não respondeu. Renato se moveu em direção à porta, mas Helena o deteve com uma pergunta:

"O senhor sabia disso?"

"Não vi a fotografia", ele disse.

Não era o que ela havia perguntado.

Mais tarde, o contato do terminal respondeu a Caio. O armário 18 fora aberto na noite anterior com uma chave de uso administrativo. O acesso estava registrado em nome de uma pessoa.

Lívia Brandão.

Mas o horário de entrada no prédio correspondia ao momento em que ela estivera na casa, diante de nós dois.

Alguém usara a credencial dela.

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