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"O Homem Que Não Devia Se Levantar" Capítulo 4 — A Culpa Que Me Deram

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Capítulo 4 — A Culpa Que Me Deram

Lívia assinava com um traço longo no fim do nome.

A rubrica atribuída a mim no registro da entrega terminava do mesmo jeito.

Eu ainda segurava o bilhete quando ela entrou na área de serviço. Dobrei a folha e a enfiei no bolso antes que pudesse ver o que estava escrito.

"Renato disse que você fotografou uma entrega", falou.

"Fotografei uma etiqueta."

"Apague."

"Por quê?"

"Porque a encomenda pertence ao senhor Caio."

"E está ligada ao instituto onde eu trabalhava."

Lívia apoiou uma das mãos na bancada. Olhou para meu bolso, depois para o meu rosto.

"Você sabe muito bem o que aconteceu naquele instituto."

Eu sabia o que constava na denúncia: uma dose administrada fora do horário, uma paciente que passou mal, meu nome ao lado do registro. Também sabia que não tinha feito aquela anotação. Na época, eu não conseguira provar isso.

"Se sabe alguma coisa sobre aquela entrega, diga agora", pedi.

"Tenho uma casa inteira para administrar."

Ela saiu antes que eu pudesse insistir.

Às seis e dez, encontrei Beatriz na padaria diante da rodoviária de Santos. Ela havia escolhido uma mesa de onde se via a calçada e segurava um copo de café já vazio. Trabalháramos juntas por quatro anos no Santa Clara. Antes de eu me sentar, ela perguntou se tinha vindo sozinha.

"Vim de ônibus", respondi. "O que você sabe sobre as entregas?"

Beatriz olhou para a porta.

"Depois que saiu, mandavam caixas para um terminal dos Valença. Diziam que eram equipamentos de apoio para pacientes particulares. Eu conferia o que saía da farmácia da clínica, mas não via o que colocavam nos veículos."

"Meu nome aparece recebendo uma delas."

"Foi por isso que você me ligou?"

Mostrei a foto do registro. Ela aproximou o celular dos olhos.

"Essa assinatura não é sua."

"Você consegue confirmar isso por escrito?"

"Consigo confirmar que seu contrato já tinha acabado." Beatriz devolveu o aparelho. "Sobre o conteúdo, não. Não vi as caixas abertas."

Era menos do que eu queria, mas mais do que tivera durante meses.

"Você lembra da paciente do meu processo?", perguntei.

Beatriz endireitou as costas.

"Dona Célia."

"Eu procurei a folha original de administração antes de sair. Só me mostraram uma cópia."

"Porque a original sumiu naquela semana."

"Por que nunca me contou?"

"Falei na apuração interna. Meu depoimento não entrou no relatório final."

Ela tirou da bolsa uma folha dobrada em quatro. Era a cópia de um e-mail enviado ao responsável pela clínica, com data anterior à minha demissão. Nele, Beatriz pedia que preservassem o livro de ocorrências e registrava que havia uma divergência entre o horário da medicação e a passagem de plantão.

Li duas vezes.

"Você guardou isto?"

"Guardei porque, depois da sua saída, começaram a dizer que ninguém tinha questionado o registro."

Uma atendente trouxe outro café. Esperamos que se afastasse.

"Marina, ouvi o nome de Tomás Nogueira no Santa Clara", disse Beatriz. "Ele apareceu uns meses atrás pedindo informações sobre remessas antigas. Não deram nada a ele."

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"Quando foi a última vez que você o viu?"

"Na portaria. Estava discutindo com um homem."

"Que homem?"

"Não vi o rosto. Só o carro."

Ela descreveu um sedã cinza com uma avaria pequena na lanterna traseira. Anotei, embora soubesse que havia centenas de carros iguais na cidade.

Ao sair, enviei o e-mail de Beatriz para minha conta pessoal. Fotografei a folha original dos dois lados e devolvi-a. Não queria ser a única pessoa guardando aquela prova.

Na manhã seguinte, Lívia me esperava na entrada de serviço com dois seguranças.

"Abra sua bolsa", ordenou.

"Por quê?"

"Desapareceram medicamentos do armário do terceiro andar."

O estojo preto estava na minha bolsa. Eu o havia levado para casa porque temia que sumisse. Agora entendi quanto aquela decisão poderia me custar.

"Quero Caio presente", falei.

"Você não está em posição de exigir nada."

"Então chame a polícia e explique por que o armário guarda três frascos separados do material de uso diário."

Um dos seguranças olhou para Lívia.

Ela estendeu a mão.

"Abra."

Abri a bolsa e tirei o estojo. Não tentei esconder o que fizera.

"Eu peguei os frascos depois do banho", disse. "Fotografei os rótulos e os mantive guardados."

"Admite que os retirou?"

"Admito. Quero que isso seja registrado com data e com as pessoas presentes."

Lívia pegou o estojo pela alça, mas não o abriu. Um dos seguranças me pediu que o acompanhasse até o portão.

"Marina."

A voz de Caio veio do corredor principal.

Ele avançou na cadeira de rodas, sem casaco, com o telefone apoiado sobre a perna. Renato apareceu atrás dele.

"Devolva o estojo a ela", Caio disse.

"Senhor Caio, encontramos material do seu tratamento na bolsa da funcionária", Lívia respondeu.

"Eu pedi que ela guardasse os frascos."

Renato parou ao lado da cadeira.

"Por que faria isso?"

"Porque ontem tive uma lesão durante o banho e quis saber exatamente o que estava recebendo antes da próxima aplicação."

Os seguranças trocaram olhares. Pela primeira vez, aquela conversa tinha testemunhas que Lívia não escolhera sozinha.

"Você poderia ter me perguntado", disse Renato.

"Estou perguntando agora. Quero as prescrições e o registro das doses administradas desde o acidente."

Renato olhou para mim. Caio percebeu e virou a cadeira ligeiramente, colocando-se entre nós.

"A solicitação é minha", falou.

Lívia devolveu o estojo. Caio o recebeu, mas não o guardou.

"Marina continua trabalhando aqui", declarou. "E ninguém apaga as imagens da entrega que ela fotografou."

Depois que os seguranças saíram, ele me pediu que o acompanhasse à sala de estar. Renato tentou ir junto.

"Mais tarde", Caio disse.

Ficamos sozinhos por menos de um minuto.

"Você foi à clínica ontem?", ele perguntou.

"Encontrei uma antiga colega. Ela guardou um e-mail que contradiz parte da denúncia contra mim."

Caio passou a mão pelo rosto.

"Eu deveria ter falado sobre o Santa Clara antes."

"Deveria."

"Você tem razão."

A resposta direta me tirou a frase seguinte. Ele parecia cansado, e ainda assim seus olhos acompanhavam qualquer movimento no corredor.

"Por que me defendeu na frente deles?", perguntei.

"Porque fui eu que coloquei o estojo no seu avental."

"E porque precisa da minha ajuda?"

"Também."

Não gostei da honestidade quando ela veio tão tarde.

"Você não vai decidir por mim o que posso investigar", falei.

"Então me diga o que encontrou."

Contei sobre a assinatura, o número da remessa e o encontro com Beatriz. Não lhe entreguei a cópia do e-mail. Ainda precisava conferir que parte do que ele dizia coincidia com os fatos.

Caio ouviu sem interromper.

"Lívia assina os recebimentos da casa", disse por fim. "Mas não tinha autorização para receber material no terminal em seu nome."

"Alguém deixou um bilhete dizendo que a chave de um armário está com quem recebeu a entrega."

"Que armário?"

"O de número dezoito."

Antes que ele respondesse, uma porta bateu no andar de cima. Logo depois, o celular de Caio vibrou.

Ele leu a mensagem. A cor sumiu de seu rosto.

"Minha irmã chega hoje à noite."

"Ela mora aqui?"

"Helena não pisa nesta casa sem querer alguma coisa."

Virou o telefone para mim. A mensagem dizia que Helena antecipara a reunião da família para dali a dois dias. Na pauta: a administração das empresas durante a incapacidade de Caio.

Ele ainda segurava o aparelho quando chegou outra mensagem, dessa vez de um número desconhecido.

Havia apenas uma fotografia.

O armário 18 estava aberto e vazio.

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