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"O Homem Que Não Devia Se Levantar" Capítulo 3 — O Nome no Registro

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Capítulo 3 — O Nome no Registro

"Uma entrega de quê?"

Caio não teve tempo de responder. A porta se abriu, e Renato entrou com a mesma maleta de couro. Lívia vinha atrás dele.

Guardei a fotografia dentro do bolso do uniforme enquanto o médico se aproximava.

"Pensei que a funcionária tivesse terminado o expediente", ele disse.

"Pedi que trouxesse café", Caio respondeu.

A xícara intocada estava sobre a mesa. Não gostei de ouvi-lo mentir por mim, mas naquele momento era a única explicação disponível.

Renato examinou o curativo. Caio permaneceu sentado, com a mão direita apoiada no braço da cadeira. Poucos minutos antes, aquela mesma mão o ajudara a ficar de pé.

"Não houve piora", disse Renato. "Vou orientar a troca amanhã."

"Antes da sua próxima visita?", perguntei.

Ele levantou os olhos.

"É uma pergunta clínica, Marina?"

"É uma pergunta sobre o curativo."

"Lívia receberá as instruções."

Entendi que minha presença ali havia terminado. Caio também.

"Pode ir", ele disse.

Saí sem protestar. No corredor, esperei o elevador e ouvi a voz de Renato através da porta ainda entreaberta.

"A partir de hoje, prefiro que apenas Lívia entre no banheiro."

"O banho é meu", respondeu Caio. "Eu decido quem entra."

A porta se fechou antes que eu ouvisse o resto.

No depósito da lavanderia, a marca de caneta na caixa estava intacta. Peguei o estojo, envolvi-o num pano limpo e o coloquei no fundo da minha bolsa. Eu não podia entregá-lo a Caio enquanto Renato circulava pelo terceiro andar; também não pretendia mantê-lo sem registrar a procedência.

No caminho para o vestiário, passei pela sala de serviço. A porta estava aberta. Sobre a mesa de Lívia havia uma pasta de controle de acesso que ela usava para conferir entregas e equipes de manutenção.

Passei direto.

Voltei dois minutos depois com um balde vazio. Entrei para encher a garrafa de detergente guardada no armário, tarefa que eu fazia todos os dias. Se alguém me visse, estaria no lugar certo pelo motivo certo.

A pasta tinha divisórias por mês. Folheei até a data da fotografia.

Tomás Nogueira entrara no terminal às 9h12 e saíra às 16h43, segundo uma cópia impressa do registro eletrônico. Caio estava registrado como visitante das 13h05 às 14h20.

Na linha seguinte aparecia uma remessa destinada ao mesmo terminal.

Origem: Instituto Santa Clara de Reabilitação.

Meu antigo local de trabalho.

O campo de recebimento tinha um nome que me fez esquecer o detergente na mão.

Marina Duarte.

Havia uma rubrica ao lado.

Não era minha.

Fotografei a página. Depois fotografei o cabeçalho, a data, o número da remessa e as duas folhas anteriores, para preservar o contexto. Ouvi passos na cozinha e fechei a pasta no instante em que uma funcionária entrou para buscar chaves.

"Você ainda está aqui?", ela perguntou.

"Terminando o material de amanhã."

Ela pegou o chaveiro e saiu. Fiquei mais um segundo na sala, olhando a pasta fechada.

正文1

Eu tinha sido dispensada do Instituto Santa Clara nove meses antes daquela entrega. Na data registrada, sequer poderia entrar no prédio sem autorização.

Alguém usara meu nome depois que eu já havia perdido o emprego.

Em casa, a primeira coisa que fiz foi verificar o celular antigo onde ainda guardava mensagens da época da clínica. Morava num apartamento pequeno em São Vicente, acima de uma farmácia. A janela dava para uma rua movimentada; ônibus passavam até tarde, e o barulho me ajudou a não imaginar passos atrás da porta.

Encontrei a mensagem de desligamento, enviada nove meses antes da data no registro. Fiz uma cópia. Encontrei também uma foto do crachá devolvido no meu último dia, com a assinatura da recepcionista no comprovante.

Eu não sabia o que havia dentro da remessa. Mas agora podia demonstrar que a assinatura não correspondia ao meu vínculo de trabalho.

Liguei para Beatriz, uma antiga colega da clínica. Ela atendeu na terceira chamada.

"Marina? Aconteceu alguma coisa?"

"Preciso fazer uma pergunta sobre o Santa Clara."

Houve silêncio.

"Eu não trabalho mais lá", ela disse.

"Eu sei. É sobre uma entrega feita depois que saí. Meu nome aparece como responsável pelo recebimento."

"O seu nome?"

"Você ouviu falar de remessas para o terminal dos Valença?"

A respiração dela mudou.

"Não fala disso por telefone."

"Então sabe de alguma coisa."

"Se quiser conversar, amanhã, depois das seis. Na padaria em frente à rodoviária. E não leve ninguém da casa."

A ligação terminou antes que eu pudesse perguntar mais.

Passei a noite examinando o que possuía. A foto de Caio em pé provava um instante, não uma recuperação completa. Os frascos levantavam dúvidas, não uma conclusão médica. O registro tinha meu nome, mas uma assinatura diferente. Cada peça sozinha deixava espaço para alguém me chamar de mentirosa.

Juntas, talvez fossem suficientes para impedir que apagassem minha pergunta.

Na manhã seguinte, voltei à casa dos Valença com o estojo ainda na bolsa. Havia enviado cópias das fotografias para um endereço de e-mail pessoal que não usava no trabalho. Não contei a Caio; depois do que ele omitira, eu precisava manter uma parte da investigação sob meu controle.

Lívia me esperava perto da escada.

"Não vai limpar o terceiro andar", disse.

"Nunca foi parte das minhas tarefas."

"Também não vai falar com o senhor Caio."

"Ele está proibido de falar comigo?"

"É uma instrução minha."

Ela me entregou uma lista de tarefas na área externa. Eu a aceitei e fui trabalhar perto da garagem. Dali via o portão de serviço e as pessoas que entravam na casa.

Às dez e vinte, uma van branca estacionou junto à entrada lateral. Dois homens descarregaram caixas para o consultório particular montado no terceiro andar. O motorista deixou uma prancheta sobre o capô enquanto conferia as embalagens.

Vi o nome do Instituto Santa Clara numa das etiquetas.

Esperei os homens atravessarem a entrada com a primeira carga. Fui até a van carregando um saco de folhas recolhidas do jardim e fotografei de longe as etiquetas das caixas que ainda estavam no carrinho. Uma delas trazia o mesmo número de referência do registro assinado em meu nome.

正文2

Não tive tempo de me aproximar mais.

"Procurando alguma coisa?"

Renato estava atrás de mim.

Deixei o saco no chão.

"Estou recolhendo as folhas."

"O carrinho de entregas fica fora do jardim."

"Eu vi."

Ele olhou para o meu celular na mão.

"Fotografou as caixas?"

"Fotografei a etiqueta do Instituto Santa Clara."

A expressão cordial desapareceu.

"Você continua tentando participar de assuntos que não compreende."

"Por que uma entrega para esta casa foi registrada em meu nome nove meses depois que deixei o instituto?"

Renato ficou imóvel por um instante. O motorista voltou pela porta lateral e parou ao nos ver.

"Esse registro não está comigo", disse o médico.

"Alguém aqui tem uma cópia."

"Então apresente sua dúvida pelos canais adequados."

"É o que vou fazer."

Ele se aproximou o suficiente para falar sem que o motorista ouvisse.

"Antes disso, pense em como conseguiu este emprego. Sua antiga denúncia ainda existe, Marina."

Eu havia passado meses envergonhada por causa daquele processo. Ouvir Renato usá-lo como ameaça, ali, diante de caixas vindas da clínica, tornou a vergonha menor que a raiva.

"Eu também tenho uma cópia da data em que fui dispensada", respondi.

Passei por ele, apanhei o saco de folhas e voltei ao jardim. Minhas pernas tremiam, mas mantive o passo regular até alcançar a porta dos fundos.

Ao meio-dia, encontrei um papel dobrado entre os panos limpos da área de serviço. Não tinha assinatura.

Tomás deixou algo no armário 18 do terminal. A chave está com quem recebeu a entrega.

Li a frase duas vezes.

A entrega estava em meu nome. Quem escrevera o bilhete queria que eu acreditasse que possuía uma chave que nunca tinha visto.

Virei a folha. No verso, havia uma cópia pequena da minha suposta rubrica. A última letra terminava num traço longo e inclinado.

Eu reconheci aquele traço.

Tinha visto a mesma maneira de assinar, naquela manhã, quando Lívia recebeu a van no portão.

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