"O Homem Que Não Devia Se Levantar" Capítulo 2 — A Fotografia
Capítulo 2 — A Fotografia
Renato tentou abrir a porta outra vez.
"Caio, sou eu."
O estojo pesava no meu avental. Se eu permanecesse no banheiro, ele o veria mais cedo ou mais tarde.
Apontei para a pele avermelhada de Caio e falei baixo:
"Ele vai precisar examinar isso."
"Depois."
"Não. Você pode esconder o que quiser sobre o pé. Uma queimadura, não."
Caio me lançou um olhar irritado. Eu não recuei.
"Eu digo a Renato que abri a torneira errada", propus. "Você diz que me mandou corrigir. Ele examina sua pele, e ninguém fala sobre o movimento."
"Você aceita levar a culpa?"
"Já levaram meu nome por coisa pior. Dessa vez, pelo menos, vou saber exatamente o que aconteceu."
A expressão dele mudou. Não havia tempo para perguntar por quê.
Abri a porta.
Renato Azevedo estava no corredor com uma maleta de couro na mão. Tinha o cabelo grisalho cuidadosamente penteado e a calma estudada de quem entrava naquela casa sem pedir licença. Lívia permanecia um passo atrás dele.
"O que houve?", perguntou.
"Eu abri a água quente demais", respondi. "Percebi quando fui deixar as toalhas."
Renato passou por mim e se aproximou de Caio.
"Você não percebeu nada?"
"Não nas pernas", Caio disse.
Enquanto o médico avaliava a pele, Lívia me observou. Seus olhos desceram até o avental. Mantive as mãos visíveis, uma sobre a outra.
"Eu disse para deixar as toalhas no banco", ela falou.
"E deixei. Vi a pele dele quando me virei."
"Ela fechou a água", Caio interveio. "Fez o que precisava."
Renato ergueu a cabeça. Era a primeira vez que eu o via olhar para Caio sem aquela segurança tranquila.
"Vou usar um curativo adequado e acompanhar a região", disse o médico. "Lívia, peça que tragam material limpo."
Ela saiu. Eu também deveria ter saído, mas Renato me deteve.
"Você trabalhava numa clínica, não trabalhava?"
"Trabalhava."
"Então sabia que não devia intervir num procedimento sem conhecer o paciente."
"Eu sabia que aquela água estava quente demais."
"Da próxima vez, chame a equipe."
"A próxima vez pode ser tarde."
Renato fechou a maleta com um estalo seco.
"Espero que compreenda a gravidade do erro que cometeu."
Não respondi. A pele de Caio era uma resposta melhor do que qualquer coisa que eu pudesse dizer.
Lívia voltou com o material. Ajudei apenas quando Renato pediu, mantendo o estojo oculto. Depois que terminou, ele informou que voltaria no início da noite para reavaliar Caio.
"Vou revisar a temperatura da banheira", acrescentou.
"É uma boa ideia", falei.
Seus olhos encontraram os meus. Dessa vez, ele não sorriu.
Saí para o corredor antes de Lívia. A porta do banheiro ficou aberta enquanto ela recolhia as toalhas molhadas. Eu precisava levar o estojo a um lugar onde não pudesse ser tirado de mim sem deixar rastro.
Então vi a fotografia no tapete.
Estava junto à parede, meio escondida sob um aparador. Eu tinha certeza de que não estava ali quando subi.
Abaixei como se fosse apanhar uma toalha caída.
Na imagem, Caio aparecia ao lado de um carro escuro, em pé, apoiado com uma das mãos na porta. Atrás dele, reconheci a estrutura metálica de um terminal de cargas. A data impressa no canto era de três semanas antes.
Havia algo escrito a caneta no verso.
Pergunte quem tirou a foto.
Guardei-a sob o avental no momento em que Lívia saiu do banheiro.
"Pode voltar ao térreo", ela disse. "Vamos conversar sobre o seu trabalho mais tarde."
Desci sem responder. Na área de serviço, esperei até ficar sozinha, retirei o estojo e fotografei cada rótulo com meu celular. Fotografei também os frascos juntos, sobre uma folha em branco, e a imagem de Caio dos dois lados.
Não sabia quem tinha deixado a fotografia no corredor. Quem quer que fosse, conhecia minha presença no banheiro e queria que eu encontrasse aquilo.
Escondi o estojo dentro de uma caixa de panos que eu mesma havia separado para lavar. Levei a caixa ao depósito junto da lavanderia e coloquei uma marca discreta de caneta numa das abas. Se alguém a abrisse, eu perceberia.
A fotografia ficou comigo.
Lívia me chamou ao escritório de serviço uma hora depois. Não ao escritório principal, onde os Valença recebiam advogados e empresários, mas à salinha estreita em que ela guardava escalas, chaves e recibos.
"Você desobedeceu uma ordem direta", disse.
"Entrei porque a senhora pediu que levasse toalhas."
"Permaneceu depois de entregá-las."
"A água estava queimando a pele dele."
Lívia pousou a caneta.
"Há pessoas responsáveis pela saúde do senhor Caio."
"Então deveriam conferir a temperatura antes do banho."
O rosto dela permaneceu sereno, mas seus dedos apertaram a caneta com força.
"Ele é um homem difícil. Às vezes, insiste numa água mais quente."
"Isso não torna a queimadura menos real."
Ela desviou o olhar para a porta. Eu tinha a impressão de que escolhera cada palavra daquela conversa para que outra pessoa pudesse ouvi-la.
"Hoje você termina o expediente. Amanhã veremos se continua."
Saí da sala com o salário da semana já perdido na cabeça. Mesmo assim, não me arrependi de ter aberto a torneira fria.
Ao anoitecer, Caio mandou me chamar. Lívia informou que eu tinha dez minutos e ficou no corredor.
Ele estava numa sala menor do terceiro andar, sentado junto à janela. A região queimada havia sido coberta. Sobre a mesa havia uma xícara de café intocada.
"Renato voltará às oito", disse. "O estojo?"
"Em lugar seguro. Tenho imagens dos rótulos."
"Quero os frascos."
"Eu também quero respostas."
Caio soltou um riso curto, sem humor.
Tirei a fotografia do bolso e a deixei sobre a mesa.
Ele parou de rir.
"Onde encontrou isso?"
"Na porta do banheiro."
Caio examinou a imagem sem tocá-la. A mão apoiada no braço da cadeira se fechou.
"Você estava em pé", falei.
"Por alguns segundos."
"E me disse que só conseguia mover o pé."
"Eu disse que escondia a recuperação. Não contei tudo."
"Isso é uma diferença conveniente."
"É a verdade."
"Quem tirou a foto?"
Ele aproximou a cadeira da mesa. Só então vi o rosto do homem que todos chamavam de perigoso perder a cor.
"Tomás Nogueira."
"O funcionário desaparecido?"
"Sim."
"Quando?"
"Naquele dia."
O bilhete no verso da foto adquiria outro sentido. Caio viu minha expressão e estendeu a mão. Virei a imagem para que ele lesse.
"Você escreveu isso?", perguntei.
"Não."
"Tomás?"
"Ele estava comigo quando a foto foi tirada. Não precisaria mandar que eu perguntasse a mim mesmo."
No corredor, Lívia disse que o tempo havia terminado. Caio pediu mais dois minutos. Ela não respondeu, mas ouvi seus passos se afastarem.
"Você está em perigo se ficar com a fotografia", ele falou.
"Já estava quando descobri que você pode se levantar."
Caio se apoiou nos braços da cadeira e ergueu o corpo. Primeiro, os pés tocaram o chão. Ele segurou a borda da mesa, transferiu o peso com cuidado e ficou de pé diante de mim.
As pernas tremiam. A direita sustentava mais do que a esquerda. Ele levou vários segundos para se equilibrar.
Aquilo não era a postura firme da fotografia. Nem a imobilidade que todos na casa acreditavam conhecer.
"Foi assim que Tomás me viu", disse Caio, respirando com dificuldade. "No terminal. Ele queria buscar os registros antes que Renato soubesse."
"Registros de quê?"
"Das remessas pagas pela empresa para a clínica onde você trabalhava."
Meu estômago se contraiu.
"Você sabe qual era a minha clínica?"
"Descobri ontem. Depois que contratamos você."
Ele voltou a se sentar. A raiva que senti não vinha apenas do segredo. Meu antigo trabalho estava ligado àquela casa, e Caio só me contava agora que eu já tinha arriscado o emprego por ele.
"Você me deixou entrar naquele banheiro sem me avisar de nada."
"Eu não sabia que você encontraria a foto."
"Mas sabia que meu passado podia importar."
Antes que respondesse, passos se aproximaram. Peguei a fotografia da mesa.
Caio olhou para a porta e baixou a voz.
"Tomás não procurava apenas os meus exames, Marina. Ele descobriu que alguém usou seu nome numa entrega."
A maçaneta se moveu.
Renato havia chegado antes das oito.
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