localização atual: Novela Mágica O Homem Que Não Devia Se Levantar Capítulo 1 — A Água Fria
标题上

"O Homem Que Não Devia Se Levantar" Capítulo 1 — A Água Fria

正文开头

Capítulo 1 — A Água Fria

A água estava quente o bastante para queimar a minha pele.

Caio Valença, porém, permanecia imóvel dentro da banheira.

Segurei as seis toalhas contra o peito e olhei para a porta do banheiro. Eu tinha sido contratada para limpar o andar térreo. Não deveria estar no terceiro andar, muito menos sozinha com o homem que comandava metade dos galpões do porto de Santos.

Seis dias antes, Lívia Brandão havia explicado as regras enquanto me entregava o uniforme.

"Os quartos são proibidos. O escritório também. No terceiro andar, você só entra se alguém mandar."

Naquela tarde, foi ela mesma quem me mandou subir.

Caio precisava de toalhas limpas, disse. Eu devia deixá-las sobre o banco e sair.

O vapor escondia os espelhos. A porta de vidro da varanda estava fechada, e o ar do banheiro parecia cada vez mais pesado. Atravessei o piso úmido até o banco, tentando não olhar para a banheira junto à janela.

"Deixe aí."

A voz de Caio veio de dentro da névoa.

"Sim, senhor."

Eu poderia ter obedecido.

Precisava daquele emprego. Depois da denúncia que encerrara minha carreira numa clínica de reabilitação, poucos lugares aceitavam sequer me chamar para uma entrevista. A casa dos Valença pagava bem e, até então, ninguém ali havia perguntado por que uma mulher com seis anos de experiência cuidando de pacientes agora limpava pisos.

Abaixei as toalhas. Ao me virar, vi a pele avermelhada no braço dele, logo acima da linha da água.

Caio estava sentado numa banheira terapêutica, com os antebraços apoiados nas bordas. Tinha ombros largos, cabelo escuro e o rosto de alguém habituado a receber respostas antes de terminar uma pergunta. Fazia catorze meses que usava cadeira de rodas.

"Senhor Valença, há quanto tempo está nessa água?"

"Tempo suficiente."

"A água parece muito quente."

"Você pode ir, Marina."

A maneira como ele disse meu nome me fez parar. Eu só o havia visto duas vezes desde que começara a trabalhar ali, e em nenhuma delas tínhamos sido apresentados.

Dei um passo em direção à saída. Então vi uma pequena área de pele mais escura perto do quadril, onde a água se movia contra ele.

Eu conhecia aquela aparência.

"Quem preparou o banho?"

Caio virou o rosto devagar.

"Você está fazendo perguntas sobre o meu banho?"

"Estou perguntando porque sua pele pode estar queimando."

"Eu saberia."

"Talvez não saiba."

O olhar dele endureceu. Lá embaixo, homens que se gabavam de nunca baixar a cabeça se afastavam quando ele passava. Eu estava contrariando Caio Valença enquanto ele estava nu dentro de uma banheira.

Mesmo assim, ajoelhei ao lado da borda e encostei a parte interna do pulso na água.

A dor veio imediatamente.

Recolhi a mão.

"Isso precisa esfriar."

"Não toque em nada."

"Olhe para o seu braço."

Ele olhou. Por um instante, a irritação em seu rosto deu lugar a algo mais difícil de ler.

正文1

"Não sinto a temperatura nas pernas", disse.

"Eu percebi. É por isso que estou preocupada."

Havia uma torneira fria ao alcance da minha mão. Abri um pouco, mantendo os olhos na pele dele. Um jato atingiu a superfície da água e desceu junto à perna direita de Caio.

O pé dele se afastou.

Não foi um tremor discreto. O tornozelo deslizou alguns centímetros, e os dedos se fecharam como se ele quisesse fugir do frio.

Fiquei imóvel.

Caio também.

A água continuou correndo entre nós.

"Você viu?", perguntei.

Ele não respondeu.

Fechei a torneira. A pele do meu pulso latejava, mas mal conseguia sentir a dor.

"Seu pé se moveu."

"Foi um espasmo."

"Ele se afastou da água fria."

"Espasmos podem acontecer."

Eu havia visto espasmos antes. Também sabia que uma reação isolada não explicava toda a condição de alguém. Mas Caio não olhava para o próprio pé com surpresa.

O medo em seu rosto era de quem esperava havia muito tempo que outra pessoa visse aquilo.

Houve passos no corredor.

Caio agarrou a borda da banheira.

"Tranque a porta."

"Quem está lá fora?"

"Marina."

A firmeza da voz dele desapareceu por um segundo.

"Por favor."

Levantei e girei a chave. O clique pareceu alto demais naquele silêncio. Em seguida, voltei à banheira e fechei o ralo para começar a baixar o nível da água.

"Primeiro vamos tirar você daqui", falei. "Depois conversamos."

"Não chame ninguém."

"Então me ajude a fazer isso com segurança."

Ele indicou o apoio de transferência fixado na parede. Peguei uma toalha, posicionei a cadeira ao lado da banheira e conferi as travas. Caio sustentou o próprio tronco enquanto eu o ajudava a se deslocar. Era forte nos braços; não dependia de mim para erguer todo o peso.

Quando se acomodou na cadeira, cobri suas pernas e observei a região avermelhada. A pele estava íntegra, mas precisava ser avaliada por um profissional. Ele percebeu meu olhar.

"Se chamar Renato, ele vai perguntar quem tocou nas torneiras."

"Renato é seu médico?"

"É."

"Ele deveria saber que a água estava nessa temperatura."

"É justamente o que me preocupa."

Três batidas suaves vieram da porta.

"Senhor Caio?", chamou Lívia. "Está tudo bem?"

Caio e eu nos encaramos.

"A toalha caiu na água", ele respondeu. "Marina está me ajudando."

"Por que a porta está trancada?"

"Porque estou saindo do banho."

Houve uma pausa. Imaginei Lívia parada no corredor, com a mão ainda erguida diante da madeira. Desde minha chegada, ela aparecia nos lugares mais improváveis sem fazer ruído.

"Vou buscar outra toalha", disse ela.

Seus passos se afastaram.

Caio esperou até não ouvirmos mais nada. Então apontou para o pequeno armário sob a pia.

"Abra a gaveta de baixo."

Encontrei gaze, luvas e embalagens de produtos médicos. Atrás delas havia um estojo preto.

"Pegue."

"Caio, sua pele..."

"Eu sei. Há uma pomada no armário de cima. Mas primeiro preciso que você veja o estojo."

Dentro estavam três frascos pequenos, etiquetados com datas. Li o nome da substância e senti um aperto no estômago. Não podia concluir o que aquelas doses haviam causado só olhando os rótulos. Precisava de prontuário, prescrição e avaliação. Mas aquela medicação exigia perguntas que ninguém parecia interessado em fazer.

"Renato administra isso?"

"Duas vezes por semana. Disse que ajudaria com os espasmos."

"Desde quando?"

"Desde o acidente."

Olhei outra vez para os frascos.

"Você contou a ele que consegue mover o pé?"

"Não."

"Quando percebeu?"

"Há três meses."

O banheiro pareceu ficar ainda menor.

"Você escondeu por três meses?"

"Eu tentei contar a alguém."

"Quem?"

Caio apoiou as mãos nas rodas da cadeira. Seus olhos foram até a porta.

"Um funcionário do porto. Ele pediu para ver os registros das minhas consultas. Dois dias depois, desapareceu."

"Isso não prova que as coisas estão ligadas."

"Eu sei."

A resposta me surpreendeu mais do que uma ameaça teria surpreendido.

"Mas foi o bastante para eu parar de falar", continuou ele.

Uma tábua rangeu do lado de fora. Os passos de Lívia não haviam voltado; aqueles eram mais pesados.

Caio pegou o estojo das minhas mãos e o colocou no bolso amplo do meu avental.

"Esconda."

"Não vou levar medicamentos embora daqui sem saber o que são."

"Então guarde por cinco minutos. Se Renato entrar agora, eles somem antes que você consiga fazer uma única pergunta."

A maçaneta girou.

Eu levei a mão ao bolso, sentindo o contorno duro dos frascos contra meus dedos.

Do outro lado da porta, um homem falou:

"Caio? Lívia disse que você pediu ajuda."

Caio fechou os olhos por um instante.

Era a voz do doutor Renato Azevedo.

下一张上
下一章下

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos:

页面底部