"Jogaram a Garçonete na Piscina… Sem Saber Que Ela Era Dona do Hotel" Capítulo 4 — O Nome da Filha do Dono
Rafael chegou ao Hotel Ferraz Atlântico em nove minutos.
Camila veio logo atrás com uma equipe de segurança e dois advogados. O prédio ocupava uma esquina da orla do Gonzaga, em Santos. Hóspedes tomavam café no terraço sem perceber que uma funcionária estava presa no arquivo do subsolo.
O gerente tentou impedir a entrada.
“Esta área pertence ao Grupo Ferraz.”
Camila mostrou o termo de auditoria assinado por Antônio.
“E este documento nos dá acesso integral.”
Rafael desceu pela escada de serviço. Encontrou a porta fechada por fora com uma barra metálica apoiada entre a maçaneta e uma tubulação.
“Maria!”
“Estou aqui.”
Ele retirou a barra. Maria saiu carregando duas caixas. Estava pálida, mas não ferida.
“Quem fez isso?”
“Não vi o rosto. Um deles usava uniforme de manutenção.”
As câmeras do corredor tinham parado de gravar quinze minutos antes da chegada dos homens. Alguém com acesso administrativo desligara o sistema.
Dentro das caixas havia espelhos de ponto, folhas de pagamento, relatórios de acidentes e cópias de e-mails. Maria guardara tudo durante anos.
“Por que não entregou antes?” perguntou Camila.
“Porque eu não sabia quem continuaria empregado depois que eu falasse.”
O gerente do hotel insistiu que desconhecia a lista negra e a porta bloqueada. Rafael confiscou o registro de acessos. Um cartão ligado à equipe de Marcos fora usado no subsolo.
Antônio chegou de helicóptero pouco depois das dez.
“Marcos está suspenso”, disse. “Não poderia acessar nada.”
“Uma suspensão não apaga dezessete anos de lealdades”, respondeu Camila.
Na sala de reuniões do hotel, Vitória foi chamada para esclarecer as mensagens recuperadas. Ela entregou voluntariamente o telefone.
Havia pedidos arrogantes, reclamações fúteis e cobranças que revelavam o modo como tratara empregados. Mas nenhuma ordem de demissão.
Em várias conversas, Marcos respondia:
“Deixe comigo. Vou garantir que isso não se repita.”
Vitória nunca perguntava o que ele faria.
“Eu não sabia”, disse ela.
Maria a encarou.
“A senhora nunca quis saber.”
Vitória não conseguiu responder.
Camila colocou uma mensagem na tela. Depois de Vitória reclamar que uma recepcionista demorara a conseguir um carro, Marcos escrevera ao gerente:
“Retire-a da escala. A família perdeu a confiança.”
“Eu não pedi isso”, insistiu Vitória.
“Mas seu nome tornou a ordem possível”, disse Antônio.
Ele não gritava. A decepção em sua voz atingiu a filha de maneira mais profunda.
Rafael organizou as caixas e encontrou uma planilha de serviço. Os clientes pagavam dez por cento adicionais acreditando que o valor iria para as equipes. Em alguns eventos, menos de quatro por cento chegava aos empregados.
O restante era classificado como apoio operacional, fundo de excelência e treinamento Horizonte.
Júlia reconheceu uma festa na qual trabalhara dezesseis horas. Recebera cento e oitenta reais. A taxa de serviço cobrada dos convidados superara quarenta mil.
“Quanto foi dividido?”
“Seis mil e trezentos”, respondeu Rafael.
Antônio se levantou.
“Isso é fraude.”
O diretor financeiro, Eduardo Lemos, participou por chamada. Alegou que os contratos permitiam usar parte da taxa em custos administrativos.
“O cliente sabia?”, perguntou Camila.
“O texto estava disponível.”
“E o empregado?”
“Recebia conforme a política interna.”
“Uma política que ninguém consegue mostrar.”
Eduardo desviou a pergunta. Disse que Projeto Horizonte financiava capacitações, uniformes e integração de equipes.
Maria abriu outra caixa.
“Então mostre os nomes dos alunos.”
Não havia alunos.
Camila ordenou congelamento de todos os pagamentos ligados ao projeto. Rafael localizou cinco empresas fornecedoras. Duas usavam o mesmo endereço de uma consultoria pertencente ao cunhado de Marcos.
O conflito deixou de ser apenas trabalhista. Havia indícios de desvio, falsidade documental e lavagem de dinheiro.
Antônio apoiou as mãos sobre a mesa.
“Vou chamar a polícia.”
“Primeiro, preserve os dados”, alertou Rafael. “Se anunciarmos antes de copiar os servidores, perderemos o resto.”
Naquela tarde, a Polícia Civil de Santos recebeu uma comunicação reservada. Peritos começaram a duplicar os registros financeiros.
Marcos apareceu na entrada do hotel acompanhado de um advogado.
“Quero meus pertences.”
“Você está proibido de entrar”, respondeu Antônio.
Marcos sorriu sem humor.
“Depois de tudo que fiz por você?”
“O que exatamente fez?”
“Entreguei os números que pediu. Expansão. Margem. Resultado.”
“Eu não pedi que roubasse funcionários.”
“Não. Você só perguntou por que cada unidade não rendia mais.”
A frase atingiu Antônio.
Marcos continuou:
“Nunca quis saber como eu conseguia. Agora apareceu uma garota com sobrenome importante, e você decidiu descobrir sua consciência.”
Camila se aproximou.
“A garota tem vinte e oito anos e é a pessoa que pode encerrar seu acesso a três hotéis.”
“E acredita que dois dias carregando bandeja a transformaram em especialista.”
“Não. Transformaram-me na pessoa que sabe quais perguntas fazer.”
Marcos olhou para Vitória.
“Vai deixar que ela destrua o legado do seu pai?”
Vitória deu um passo para trás.
“Foi você quem usou meu nome.”
“Usei o que todos já sabiam. Você queria obediência.”
Ela ficou em silêncio porque parte da acusação era verdadeira.
O advogado retirou Marcos antes que dissesse mais. Na calçada, repórteres cercaram os dois. Alguém avisara a imprensa.
Ao anoitecer, os peritos encontraram a origem dos pagamentos do Projeto Horizonte. O dinheiro passava por três prestadoras e terminava numa holding em Campinas.
O beneficiário não aparecia nos documentos públicos.
Rafael solicitou dados bancários emergenciais. Enquanto esperava, mostrou a Camila outra descoberta.
Todos os pagamentos exigiam duas aprovações digitais. Uma pertencia a Marcos.
A outra pertencia a Antônio Ferraz.
“Ele pode não ter lido”, disse Helena.
“Ou pode ter autorizado”, respondeu Rafael.
Camila olhou através do vidro para Antônio, que conversava com Maria e Júlia. O homem parecia devastado, mas aparência não era prova.
Seu telefone recebeu uma mensagem anônima.
PARE A AUDITORIA. A PRÓXIMA PESSOA NÃO SAIRÁ DO ARQUIVO.
Logo abaixo havia uma fotografia de Rafael entrando no estacionamento do hotel.
Alguém os observava naquele exato momento.
Rafael fechou as persianas da sala e chamou a segurança. No estacionamento, um motociclista arrancou antes que os agentes alcançassem a cancela. As câmeras externas registraram apenas uma placa coberta por fita preta.
Antônio leu a ameaça duas vezes.
“Marcos nunca faria isso.”
Maria soltou uma risada sem humor.
“O senhor também dizia que ele nunca apagaria minhas horas.”
Vitória olhou para o pai. A cada nova prova, a certeza dele sobre as pessoas que o cercavam se tornava uma forma de cegueira.
Camila pediu proteção para Maria e Júlia. Rafael recusou proteção pessoal para si até que todos os depoentes estivessem seguros.
“A fotografia é sua”, argumentou Camila.
“Justamente para fazer você olhar para mim e esquecer quem tem menos recursos.”
Ela reconheceu na resposta a mesma lógica que aprendera com a mãe. Não discutiu, mas determinou que nenhum integrante da auditoria circulasse sozinho.
O banco respondeu às dez da noite. A holding de Campinas pertencia formalmente a um contador aposentado. Porém, os dividendos eram enviados a uma conta conjunta encerrada seis meses antes.
Um dos titulares era o cunhado de Marcos.
O outro nome não apareceu inteiro no relatório preliminar. Apenas as iniciais: E.L.
Eduardo Lemos.
O diretor financeiro que acabara de defender a legalidade das transferências também recebia parte do dinheiro.
Antes que Camila pudesse confrontá-lo, o sistema de incêndio do arquivo disparou no celular de Maria. Uma câmera voltou a funcionar por poucos segundos e mostrou fumaça entrando por baixo da porta.
As caixas que eles haviam retirado eram cópias.
Os livros originais ainda estavam lá dentro.
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