"Jogaram a Garçonete na Piscina… Sem Saber Que Ela Era Dona do Hotel" Capítulo 2 — A Mulher Que Carregava a Bandeja
À meia-noite e vinte, os convidados já tinham deixado a Casa das Palmeiras.
As taças permaneciam sobre as mesas, as flores começavam a murchar sob o calor e os funcionários recolhiam discretamente o que sobrara de uma festa que deveria ter celebrado um contrato histórico.
Na biblioteca, ninguém pensava em dormir.
Camila vestia calça preta e um suéter creme emprestado por Helena. Os cabelos ainda estavam úmidos, e um curativo cobria sua mão. Diante dela, Antônio Ferraz tentava compreender como uma noite cuidadosamente planejada se transformara numa investigação.
“Onze denúncias”, disse Camila, abrindo uma pasta.
“Recebemos quatro.”
“As outras sete chegaram diretamente à Azevedo Patrimônio.”
Rafael colocou cópias sobre a mesa. A primeira era de um garçom de Santos obrigado a chegar uma hora antes do início oficial sem registrar o período. A segunda vinha de uma camareira de Campos do Jordão punida por não aceitar limpar dezessete quartos.
A terceira descrevia um manobrista insultado por um hóspede. O gerente pedira desculpas ao cliente, não ao trabalhador.
Antônio fechou a pasta.
“São casos graves, mas temos recursos humanos, auditorias e canais internos.”
“E, apesar disso, seus empregados procuraram uma empresa que ainda nem era parceira.”
Helena cruzou os braços.
“Isso significa que deixaram de confiar nos canais do próprio grupo.”
Antônio olhou para Camila.
“Você entrou disfarçada por causa dessas mensagens?”
“Eu entrei trabalhando.”
“Poderia ter falado comigo.”
“A festa teria acontecido da mesma forma se todos soubessem quem eu era?”
Ele não respondeu.
Do lado de fora, Vitória aguardava sentada no corredor. Pela primeira vez, ser filha do dono não lhe dava acesso automático a uma reunião.
Camila começou a relatar o que vira em dois dias: pontos encerrados antes do fim da limpeza, piadas sobre o sotaque nordestino de um auxiliar, uma cozinheira escondendo dor no pulso e gerentes dizendo que convidados importantes nunca deviam ser contrariados.
“Sua filha não trabalha na empresa”, disse Antônio.
“Oficialmente, não.”
Camila abriu outro documento.
Três relatos mencionavam Vitória. Uma recepcionista tivera o horário alterado para acompanhá-la em uma viagem. Um motorista fora obrigado a levar amigos dela a São Paulo fora do expediente. Uma camareira recebera ordem para cuidar do cachorro de uma convidada.
Em todos os casos, o gerente usara a mesma frase:
“Com a senhorita Ferraz, não se discute.”
Antônio apertou a mandíbula.
“Nunca dei essa ordem.”
“Eu acredito.”
“Então por que estou sendo responsabilizado?”
“Porque sua empresa aprendeu que agradar à sua família vale mais do que cumprir uma regra.”
O celular de Rafael vibrou. A equipe técnica recuperara parte da pasta apagada. Havia quarenta e três nomes na lista de não recontratação.
Ao lado de cada nome, códigos indicavam o motivo.
RC significava “reclamação de carga”.
AT significava “atitude”.
JF significava “questionou família”.
“Família”, repetiu Antônio. “Que família?”
“A sua”, respondeu Rafael.
Um dos nomes era Maria Fernandes, antiga governanta-geral do Hotel Ferraz Atlântico, em Santos. Vinte e três anos de empresa. Transferida para uma função administrativa depois de denunciar alterações de jornada.
Camila pediu que a localizassem antes do amanhecer.
Antônio levantou-se e caminhou até a janela. A piscina brilhava no escuro.
“O que você pretende fazer?”
“Auditoria independente. Trinta dias de acesso integral.”
“Trinta dias paralisariam a negociação.”
“A negociação já está paralisada.”
“Temos bancos, obras e oito mil empregados.”
“Justamente por isso não assinarei sem saber o que estou financiando.”
Camila exigiu verificação dos registros de ponto, pagamentos de serviço, reclamações internas, acidentes, terceirizações e ordens dadas por membros da família.
“Se eu recusar?”, perguntou Antônio.
Helena respondeu:
“A Azevedo Patrimônio retira os três hotéis do acordo.”
O empresário permaneceu em silêncio. O contrato estruturaria os próximos dez anos do Grupo Ferraz. Perder os imóveis significaria perder investidores e expansão.
“Aceito”, disse finalmente. “Mas quero acompanhar tudo.”
“Você receberá os resultados”, corrigiu Camila. “Não escolherá quem pode falar.”
Ele assentiu com dificuldade.
Quando a reunião terminou, Vitória esperava no mesmo lugar. O vestido azul agora parecia inadequado ao corredor vazio.
“Quero falar com você”, disse.
Camila permaneceu de pé.
“Fale.”
“Eu sinto muito.”
“Pelo quê?”
Vitória piscou, surpresa.
“Por ter empurrado você.”
“Por ter me empurrado ou por ter descoberto quem eu sou?”
“Não é justo.”
“Você teria empurrado meu advogado?”
Vitória não respondeu.
“Seu pai?”
“Não.”
“Uma amiga sua?”
“Não.”
Camila esperou.
Vitória baixou os olhos.
“Eu tinha bebido.”
“O álcool fez você acreditar que eu não podia reagir?”
“Eu não queria machucar você.”
“Preferia que eu caísse sem me cortar?”
Vitória ficou pálida.
“Não foi isso que quis dizer.”
Camila suavizou a voz, mas não a pergunta.
“Por que eu?”
O silêncio durou tanto que se tornou doloroso.
“Porque achei que você não podia fazer nada”, confessou Vitória.
Camila assentiu.
“Essa é a razão da auditoria.”
“Você vai colocar oito mil empregos em risco por causa de uma coisa que eu fiz?”
“Seu gesto não criou o problema. Tornou impossível continuar fingindo que ele não existe.”
Vitória perguntou se seria perdoada.
“Não esta noite.”
Camila passou por ela.
Rafael a esperava no antigo escritório da casa. Ele fechou a porta e mostrou uma planilha recuperada. Havia valores cobrados como taxa de serviço, valores pagos aos empregados e uma terceira coluna sem identificação.
Em apenas seis meses, a diferença ultrapassava um milhão e duzentos mil reais.
“Para onde foi?”
“Ainda não sabemos.”
“Quem tinha acesso?”
“Diretores regionais, financeiro e presidência.”
Camila respirou fundo.
Rafael observou o curativo em sua mão.
“Você deveria descansar.”
“Depois.”
“Sua mãe diria isso?”
Camila ergueu os olhos. Rafael conhecera Elisa Azevedo quando trabalhara como carregador em um hotel do grupo. Sabia que a preocupação de Camila com os funcionários não nascera em uma sala de conselho.
“Minha mãe diria que eu devia ter usado sapatos baixos.”
Ele quase sorriu.
“Também.”
Camila contou a Antônio por que carregara uma bandeja. Elisa fora camareira e garçonete antes de se casar com o pai de Camila. Quando a filha completara dezessete anos, obrigara-a a passar um verão na lavanderia de um hotel.
“Ela dizia que eu nunca deveria assinar o salário de alguém sem saber o que o corpo daquela pessoa pagava pelo meu lucro.”
Antônio ouviu sem interromper.
Às quatro e dez da manhã, Rafael recebeu a resposta sobre Maria Fernandes.
Ela ainda trabalhava no hotel de Santos, arquivando notas em uma sala sem janelas. Aceitara conversar, mas impusera uma condição.
“Qual?” perguntou Camila.
“Ela não fala dentro de nenhum prédio do Grupo Ferraz.”
Antes que decidissem o local, outra mensagem apareceu.
Era de Júlia.
“Doutora Camila, o supervisor levou meu celular. Disse que meu nome já está na lista.”
Logo depois, o aparelho ficou desligado.
Camila tentou retornar três vezes. Rafael acionou a equipe que permanecia na mansão e pediu que verificassem as saídas de funcionários. O supervisor já havia deixado o condomínio usando o carro de um fornecedor.
“Ele sabia que procuraríamos Júlia”, disse Rafael.
Antônio autorizou a entrega imediata dos registros de acesso, mas Helena apontou algo ainda mais grave. O supervisor não tinha cargo suficiente para apagar arquivos do servidor nem para incluir nomes na lista negra.
“Alguém acima dele está coordenando cada resposta”, concluiu.
Camila observou a planilha das taxas de serviço. As transferências eram sempre feitas dois dias depois de grandes eventos, quando o volume de pagamentos dificultava perceber a diferença.
“Não estamos procurando um gerente assustado”, disse ela. “Estamos procurando uma estrutura.”
Rafael guardou os documentos e pegou as chaves do carro.
“Primeiro encontramos Júlia. Depois desmontamos a estrutura.”
Camila o acompanhou. Ao passar pelo salão, viu Vitória sozinha, recolhendo do chão o próprio sapato dourado. Por um instante, a herdeira pareceu menos poderosa do que qualquer funcionária daquela casa.
Mas vergonha não era transformação. Ainda não.
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