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"As Batidas Debaixo do Chão" Capítulo 10 — A Casa de Antônio Almeida

正文开头

Sofia não achava que estava fugindo.

Na cabeça dela, estava ajudando.

A antiga casa de Antônio Almeida aparecia em muitas histórias do pai.

Rafael a levara até lá duas vezes.

Na última, enquanto procuravam documentos antigos, Sofia encontrara uma pequena caixa de madeira dentro de uma gaveta.

“É do vovô?”

Rafael olhara rapidamente.

“Depois vejo isso.”

Mas nunca vira.

Agora todos estavam preocupados com coisas que o avô escondera.

Então Sofia lembrou da caixa.

A casa ficava perto.

Ela saiu pelo portão lateral enquanto Lúcia falava ao telefone.

Caminhou pela calçada abraçada ao coelho de pelúcia.

Quando chegou, o portão estava entreaberto.

Isso deveria tê-la feito voltar.

Mas Sofia tinha cinco anos.

Para ela, porta aberta significava que alguém havia chegado primeiro.

Entrou.

“Papai?”

Nenhuma resposta.

A sala estava escura.

“Sua avó sabe que você está aqui?”

Sofia congelou.

Um homem apareceu no corredor.

Cabelos grisalhos.

Camisa clara.

Sorriso calmo.

Ela já o vira numa fotografia.

“Você é o homem da caixa da Vanessa.”

Otávio Brandão parou.

A frase apagou seu sorriso.

“Que caixa?”

Sofia recuou.

“Vou embora.”

“Espera.”

Ela virou.

Otávio segurou seu braço.

Sofia gritou.

“Solta!”

“Calma.”

“Meu pai está vindo!”

“Eu sei.”

A resposta assustou mais do que o aperto.

Na rua, três viaturas se aproximavam sem sirene.

Rafael estava no banco traseiro de uma delas.

“Ela está lá dentro.”

Camila falou:

“Você não entra até autorizarmos.”

“É minha filha.”

“Por isso mesmo.”

“Se ele tocar nela—”

“Rafael.”

Ela segurou seu olhar.

“Se você entrar correndo e ele estiver armado, piora tudo.”

Rafael respirava como se o ar não chegasse.

Dentro da casa, Sofia chutou a perna de Otávio.

Ele soltou.

Ela correu.

Entrou no antigo escritório.

Bateu a porta.

Girou a chave.

Otávio chegou segundos depois.

“Sofia.”

Ela recuou.

“Abre.”

“Não.”

“Eu sou amigo do seu pai.”

“Você não é.”

Otávio ficou em silêncio.

“Por que acha isso?”

“Amigo não deixa ele triste.”

A resposta infantil o irritou.

Ele bateu na porta.

“Abre.”

Sofia olhou em volta.

O escritório cheirava a poeira.

Havia livros.

Fotografias.

Uma escrivaninha.

Então viu a pequena caixa.

Ainda estava onde lembrava.

Sofia correu até ela.

Pegou.

Otávio bateu novamente.

“Coloca essa caixa no chão.”

Ela ficou imóvel.

Como ele sabia?

“Você quer isso?”

“Sim.”

“Por quê?”

“Porque pertence a mim.”

Sofia abraçou a caixa.

“É do meu vovô.”

Do lado de fora, Camila recebeu a informação de um policial.

“Movimento no escritório dos fundos.”

Rafael reconheceu.

“O escritório do meu pai.”

“Existe outra entrada?”

“Janela para o jardim.”

Dois policiais seguiram pelos fundos.

Rafael ouviu um grito.

Sofia.

Ele não esperou.

Correu.

“Rafael!”

Entrou pela porta principal.

“SOFIA!”

“PAPAI!”

A voz veio do escritório.

Otávio se virou.

Rafael apareceu no corredor.

Os dois ficaram frente a frente pela primeira vez em anos.

“Afasta da porta.”

Otávio sorriu.

“Você sempre chega tarde.”

“Afasta.”

“Como seu pai.”

Rafael avançou.

Camila entrou atrás dele.

正文1

“Otávio Brandão, mãos onde eu possa ver.”

Otávio não obedeceu.

“Vocês não têm ideia do que estão fazendo.”

“Tenho uma boa ideia”, Camila respondeu.

“Afaste-se da porta.”

Otávio olhou para Rafael.

“Seu pai também achou que podia destruir tudo.”

“Meu pai descobriu você.”

“Seu pai era um sentimental.”

“E você era amigo dele.”

“Negócios não têm amigos.”

A frase fez Rafael entender.

Todos aqueles anos.

Almoços.

Aniversários.

O funeral.

Otávio nunca sentira culpa.

“Foi você que mandou Vanessa entrar na minha vida.”

“Vanessa era uma ferramenta.”

Rafael cerrou os punhos.

“Ela virou minha esposa.”

“Erro dela.”

“Minha filha confiava nela.”

“Erro seu.”

Rafael avançou.

Camila bloqueou.

“Não.”

Otávio sorriu.

“Ele sempre foi assim. Primeiro sente, depois pensa.”

Rafael parou.

Camila disse:

“Você está admitindo participação no esquema?”

Otávio riu.

“Estou conversando.”

“Tudo bem. Continue.”

Ele percebeu tarde demais.

Havia câmeras corporais ligadas.

O sorriso desapareceu.

Nesse instante, Sofia falou do outro lado.

“Pai.”

“Estou aqui.”

“Tenho a caixa.”

Otávio mudou.

“Não abre!”

Rafael percebeu.

Era aquilo.

Não o pendrive.

Não Eduardo.

Não Vanessa.

A caixa.

“Sofia, fica aí.”

“Tá.”

Otávio deu um passo para a porta.

Dois policiais o interceptaram.

Ele tentou recuar.

Foi imobilizado.

“Vocês não entendem!”

Camila algemou uma das mãos.

“Pode explicar na delegacia.”

“Aquela caixa é minha!”

Rafael olhou para ele.

“Não.”

Bateu três vezes na porta.

Pausa.

Duas.

Do outro lado, Sofia respondeu.

Três.

Pausa.

Duas.

Rafael sentiu os olhos arderem.

“Sou eu.”

A chave girou.

Sofia abriu.

Correu diretamente para ele.

Rafael caiu de joelhos e a abraçou.

“Você nunca mais faz isso.”

“Eu queria ajudar.”

“Eu sei.”

“Desculpa.”

“Eu sei.”

Ele a apertou ainda mais.

Sofia entregou a caixa.

“Era isso que ele queria.”

Na delegacia, a caixa foi aberta diante de Camila.

Dentro havia um envelope.

Um pequeno gravador digital.

Documentos.

E uma carta.

Na frente:

**PARA RAFAEL.**

Ele ficou olhando.

Mariana estava ao lado.

“Abre.”

Rafael rompeu o envelope.

A letra era do pai.

**Filho, se você está lendo isso, significa que eu não consegui terminar o que comecei.**

Rafael parou.

Mariana segurou sua mão.

Ele continuou.

Antônio explicava que descobrira os desvios.

Primeiro Augusto.

Depois Otávio.

Tinha provas suficientes para denunciar os dois.

Mas temia que documentos desaparecessem.

Por isso fizera cópias.

A carta não dizia que esperava morrer.

Dizia algo muito mais simples.

**“Não confie em ninguém apenas porque essa pessoa esteve ao nosso lado por muitos anos.”**

O gravador continha conversas entre Antônio e Otávio.

Numa delas, Otávio dizia:

**“Se você levar isso para a polícia, destrói a empresa do seu filho.”**

Antônio respondia:

**“Prefiro entregar uma empresa quebrada a entregar para ele uma empresa construída sobre roubo.”**

Rafael fechou os olhos.

O pai acreditara nele.

No fim, acreditara.

A última gravação era a mais importante.

Otávio detalhava contas.

Empresas de fachada.

Pagamentos.

Nomes.

Datas.

Augusto.

Eduardo.

Tudo.

Camila respirou fundo.

“Isso fecha grande parte da estrutura.”

Rafael olhou para ela.

正文2

“E Mariana?”

“Eduardo já confessou a agressão.”

“Vanessa?”

“Confinamento, ocultação, fraude, participação financeira e agressão contra Sofia serão tratados separadamente.”

Mariana perguntou:

“Ela ajudou a impedir Eduardo de levar Mariana.”

“Isso poderá ser considerado no processo”, Camila respondeu. “Mas não apaga o que fez depois.”

Rafael assentiu.

Era exatamente como precisava ser.

Sem transformar Vanessa em monstro sem história.

Sem transformá-la em vítima inocente.

Ela fizera escolhas.

E Sofia pagara por algumas delas.

Dias depois, Vanessa pediu para falar com Rafael.

Ele aceitou.

Atrás do vidro, ela parecia menor.

“Como está Sofia?”

“Melhor.”

Vanessa fechou os olhos.

“Ela pergunta por mim?”

“Não.”

A resposta doeu.

“Eu amava ela.”

Rafael permaneceu sério.

“Então deveria ter protegido ela.”

“Eu sei.”

“Amar alguém não torna tudo que você faz depois menos grave.”

Vanessa começou a chorar.

“Eu tentei impedir Eduardo de levar Mariana.”

“E depois trancou a porta.”

“Eu entrei em pânico.”

“E ligou a máquina quando Sofia ouviu a mãe.”

Vanessa baixou a cabeça.

“Sim.”

“Bateu nela.”

“Sim.”

Rafael levantou.

“Não quero que você peça para Sofia perdoar você.”

“Eu não ia—”

“Nem escreva pedindo.”

Vanessa olhou.

“Ela tem cinco anos. Não vou colocar nas mãos dela a obrigação de aliviar a culpa de um adulto.”

Vanessa chorou em silêncio.

“Posso escrever uma carta sem pedir nada?”

Rafael hesitou.

“Pode.”

“Você entrega?”

“Eu decido.”

Semanas depois, a carta chegou.

Rafael não abriu.

Entregou para Mariana.

“Você decide comigo.”

Mariana olhou para Sofia brincando na sala.

“Não agora.”

Guardou numa gaveta.

Naquela noite, Rafael levou Sofia para casa.

Ao passar pelo corredor, ela parou.

A porta do porão continuava fechada.

A moldura quebrada ainda não havia sido consertada.

Sofia segurou a mão dele.

“Pai.”

“Oi.”

“Pode tirar essa porta?”

Rafael olhou.

“Posso.”

“Hoje?”

Ele entendeu.

“Hoje.”

Pegou as ferramentas.

E, para Sofia, aquele foi o primeiro barulho vindo do porão que não significava que alguém precisava ser salvo.

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