"As Batidas Debaixo do Chão" Capítulo 7 — O Homem Em Quem Rafael Confiava
Eduardo desapareceu naquela mesma tarde.
Seu advogado chegou para acompanhá-lo numa nova oitiva.
Eduardo não.
O celular estava desligado.
O apartamento vazio.
A garagem também.
“Ele fugiu”, Rafael disse.
Camila não concordou imediatamente.
“Ou alguém quer que pareça que fugiu.”
“Você acha que Augusto está envolvido?”
“Acho que ainda não temos provas suficientes.”
“Ele iniciou aquelas autorizações.”
“Isso é um fato.”
“Está no Brasil escondido.”
“Isso também.”
“E Eduardo desaparece.”
“Isso ainda não transforma hipótese em prova.”
Rafael odiava aquela calma.
Mas sabia que ela estava certa.
A busca no apartamento de Eduardo encontrou poucas coisas.
Roupas.
Documentos comuns.
Um notebook formatado.
Nada que explicasse onde ele estava.
Até um investigador abrir uma gaveta no escritório.
Dentro havia uma fotografia.
Sofia saindo da escola.
Rafael ficou sem voz.
No verso, escrito à mão:
**Família é o ponto fraco dele.**
“Isso é ameaça.”
Camila colocou a fotografia num saco de evidências.
“Agora tratamos como uma.”
Rafael ligou imediatamente para Lúcia.
“Sofia está onde?”
“Comigo.”
“Não sai.”
“Por quê?”
“Só não sai.”
“Rafael.”
“Fecha a porta.”
Lúcia percebeu.
“Alguém ameaçou ela?”
“Não diretamente.”
“Não mente para mim.”
Rafael respirou.
“Encontraram uma foto.”
“Meu Deus.”
“Policiais vão até aí.”
Sofia ouviu parte da conversa.
Mais tarde perguntou:
“É por causa do tio Eduardo?”
Rafael se abaixou diante dela.
“Por que perguntou?”
“Porque vocês ficam falando dele.”
“Você não precisa se preocupar com isso.”
“Ele é mau?”
Rafael hesitou.
“Ele fez coisas erradas.”
Sofia pensou.
“Ele brigava com Vanessa.”
Rafael parou.
“Quando?”
“Na cozinha.”
“Na nossa casa?”
Ela assentiu.
“Você estava lá?”
“Eu estava no corredor.”
“Quando foi?”
Sofia encolheu os ombros.
“Antes.”
Para uma criança de cinco anos, “antes” podia significar ontem ou seis meses.
“Você lembra do que eles falaram?”
“Vanessa falou para ele ir embora.”
“E Eduardo?”
Sofia pensou.
“Falou que ela não podia.”
“Não podia o quê?”
“Não sei.”
“Mais alguma coisa?”
Sofia brincou com a orelha do coelho.
“Ele colocou uma coisa preta na cozinha.”
Rafael ficou atento.
“Que coisa?”
“Pequena.”
“Um celular?”
“Não.”
“Uma chave?”
Ela balançou a cabeça.
“Parecia aquela coisa que você coloca no computador.”
Rafael sentiu o coração acelerar.
“Um pendrive?”
“Isso.”
“Onde?”
Sofia apontou para uma direção imaginária.
“Perto das xícaras.”
“Você viu ele levar?”
“Não.”
Rafael ligou para Camila.
A casa de Alto da Lapa permanecia isolada parcialmente para investigação.
Naquela noite, eles voltaram.
Sofia ficou com Mariana e Lúcia.
Camila procurou primeiro nos armários da cozinha.
Nada.
Atrás da cafeteira.
Nada.
Dentro das gavetas.
Nada.
Rafael verificou prateleiras.
“Pode ter sido meses atrás.”
“Ou Eduardo voltou e pegou.”
Duas horas.
Nenhum pendrive.
Quando Rafael estava prestes a desistir, Mariana telefonou.
“Sofia quer falar.”
“Pai?”
“Oi.”
“Vocês acharam?”
“Não.”
“Estão procurando errado.”
Rafael olhou para Camila.
“Onde?”
“Na casinha.”
“Que casinha?”
“Minha.”
Ele entendeu.
No antigo quarto de brinquedos havia uma casa de bonecas de madeira que Sofia não usava havia meses.
Rafael correu.
A casa estava coberta por uma fina camada de poeira.
Abriu.
Nada.
Camila iluminou o interior com o celular.
“Espera.”
Havia uma pequena peça de fita adesiva sob o telhado removível.
Ela puxou.
Um pendrive preto caiu sobre o tapete.
Rafael ficou olhando.
“Sofia viu.”
Camila colocou luvas.
“E alguém escondeu depois.”
“Vanessa?”
“Provavelmente.”
O conteúdo foi analisado numa máquina isolada.
Centenas de arquivos.
Planilhas.
Contratos.
Comprovantes.
Registros de transferências.
E uma pasta chamada simplesmente:
**A.A.**
Rafael sabia as iniciais.
Augusto Almeida.
Dentro havia gravações.
Camila abriu a primeira.
A voz de Eduardo surgiu.
**“Você vai continuar fazendo exatamente o que combinamos.”**
Vanessa respondeu:
**“Eu quero sair.”**
**“Não existe sair.”**
**“Eu já fiz tudo.”**
**“Ainda não.”**
Outra gravação.
Eduardo:
**“Rafael nunca olha para os detalhes porque confia em mim.”**
Vanessa:
**“Você está movimentando mais dinheiro.”**
**“Isso não é problema seu.”**
Então uma terceira.
A data era recente.
Vanessa parecia desesperada.
**“Mariana está fazendo perguntas.”**
Eduardo respondeu:
**“Então faça ela parar.”**
**“Não vou machucar ninguém.”**
**“Eu não pedi isso.”**
“Pausa”, Rafael disse.
Camila interrompeu.
“Ele sabia.”
“Sim.”
“Continua.”
A gravação voltou.
Vanessa:
**“Se o Rafael descobrir quem começou tudo, nós dois estamos mortos.”**
Eduardo riu.
**“Rafael não faz ideia de quem construiu essa empresa de verdade.”**
Vanessa respondeu:
**“Então conte você quem começou.”**
Silêncio.
Eduardo falou novamente.
Mas naquele momento o áudio ficou distorcido.
Um nome quase surgiu.
Depois o arquivo terminou.
Rafael bateu na mesa.
“Droga!”
Camila examinou os dados.
“Tem mais arquivos.”
Abriram outro.
A voz não era de Vanessa.
Nem de Eduardo.
Era masculina.
Mais velha.
**“O garoto acha que a Almeida Engenharia é dele porque o nome está na porta.”**
Rafael ficou imóvel.
Conhecia aquela voz.
Não precisava de análise.
Não precisava de perícia.
Não precisava ouvir outra vez.
“Tio Augusto.”
Camila olhou para ele.
A gravação continuou.
**“Enquanto Rafael assinar o que colocamos na frente dele, nada muda.”**
Outra voz perguntou:
**“E se ele descobrir?”**
Augusto respondeu:
**“Família sabe onde dói.”**
Rafael sentiu o sangue gelar.
A mesma palavra escrita atrás da fotografia de Sofia.
Família.
Camila desligou o áudio.
Nesse momento, o telefone dela tocou.
Ela atendeu.
Ouviu.
Seu rosto mudou.
“Quando?”
Outra pausa.
“Tem certeza?”
Desligou.
“O que foi?”
Camila pegou a bolsa.
“Encontraram o carro de Eduardo.”
“Ele está lá?”
“Não.”
“Onde?”
“Num estacionamento perto da Rodoviária do Tietê.”
“E Eduardo?”
“Ninguém sabe.”
Rafael pegou o casaco.
Camila continuou:
“Mas encontramos sangue dentro do carro.”
Ele parou.
“De quem?”
“Ainda não sabemos.”
“Então Eduardo pode estar ferido.”
“Pode.”
“Ou morto.”
“Também.”
Rafael olhou para o pendrive.
Se Eduardo estava fugindo, alguém talvez tivesse impedido.
Se estava morto, alguém estava apagando rastros.
E agora aquele alguém sabia que a família de Rafael era seu ponto fraco.
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