"As Batidas Debaixo do Chão" Capítulo 6 — A Madrasta Quer Falar
Vanessa Carvalho pediu para falar às seis e dez da manhã.
Não com Rafael.
Não com Mariana.
Com a delegada Camila Torres.
“Sem meu advogado”, disse.
Camila ergueu os olhos.
“Tem certeza?”
“Tenho.”
“Depois não poderá dizer que eu pressionei você.”
“Eu sei.”
Vanessa parecia diferente.
Sem maquiagem, sem as roupas elegantes que Rafael estava acostumado a vê-la usar, parecia mais jovem.
E mais cansada.
Camila ligou o gravador.
“Pode começar.”
Vanessa ficou alguns segundos olhando para as próprias mãos.
“Eu tranquei Mariana no porão.”
Camila não reagiu.
“Continue.”
“Mas eu não bati nela.”
“Quem bateu?”
Vanessa respirou.
“Eduardo.”
Camila permaneceu imóvel.
“Você viu?”
“Vi.”
“Por quê?”
“Porque Mariana descobriu a conta.”
“Que conta?”
“Uma das contas usadas para tirar dinheiro da Almeida Engenharia.”
“Você participava?”
Vanessa fechou os olhos.
“Sim.”
A palavra saiu quase inaudível.
“Desde quando?”
“Antes de conhecer Rafael.”
“Então seu relacionamento com ele foi planejado?”
Vanessa começou a chorar.
Camila não interrompeu.
“Foi.”
“Por quem?”
“Eduardo.”
“Por quê?”
“Para ter alguém dentro da casa.”
“Alguém com acesso a Rafael?”
“Sim.”
“Assinaturas?”
“Documentos. Computador. Celular. Rotina.”
“Você roubou a assinatura digital dele?”
“Eu copiei arquivos.”
“Para Eduardo?”
“Sim.”
“E recebeu dinheiro?”
Vanessa assentiu.
“Quanto?”
“Não sei.”
“Não sabe?”
“Eu parei de contar.”
Camila se inclinou.
“Vanessa, isso não ajuda.”
“Eu sei.”
“Então por que está falando?”
Vanessa levantou os olhos.
“Porque Sofia me viu.”
Camila ficou em silêncio.
“Quando ela olhou para mim naquele corredor...”
Vanessa engoliu em seco.
“Eu vi o que eu tinha virado.”
“Você bateu nela.”
Vanessa começou a chorar mais forte.
“Eu sei.”
“Uma criança de cinco anos.”
“Eu sei!”
Camila deixou o silêncio fazer o resto.
Depois perguntou:
“Por que Mariana foi trancada?”
“Eu entrei em pânico.”
“Eduardo mandou?”
“Ele queria levar ela para outro lugar.”
Camila parou.
“Explique.”
“Quando Mariana caiu, ele disse que precisávamos tirar ela da casa.”
“Para onde?”
“Não sei.”
“Você acredita nisso?”
Vanessa ficou pálida.
“Não.”
“Então?”
“Eu achei que ele ia matar ela.”
Camila não desviou o olhar.
“E você fez o quê?”
“Esperei ele sair.”
“E trancou Mariana no porão.”
“Sim.”
“Isso seria sua forma de protegê-la?”
“Não.”
Vanessa chorou.
“Foi covardia.”
Pela primeira vez, não tentou justificar.
“Eu pensei que teria algumas horas para decidir o que fazer.”
“E depois?”
“Rafael ligou.”
“E você mentiu.”
“Sim.”
“Sofia ouviu Mariana.”
“Sim.”
“E você ligou máquinas para esconder o som.”
Vanessa baixou a cabeça.
“Sim.”
“Depois bateu na criança.”
Vanessa não respondeu.
“Olha para mim.”
Ela levantou.
“Você não vai transformar isso numa história em que você é vítima.”
“Eu sei.”
“Então me diga por que Eduardo tinha tanto controle sobre você.”
Vanessa limpou o rosto.
“Porque ele tinha provas.”
“De quê?”
“Do começo.”
“Que começo?”
Vanessa olhou para a câmera.
“Eu conheci Eduardo quando tinha vinte e quatro anos.”
Ela trabalhava numa empresa terceirizada que prestava serviços administrativos para construtoras.
Eduardo percebeu que Vanessa tinha acesso a documentos financeiros.
Primeiro pediu pequenas coisas.
Cópias.
Planilhas.
Senhas temporárias.
Depois dinheiro.
“Você sabia que era crime?”
“Sabia.”
“E continuou.”
“Continuei.”
“Por quê?”
“Porque no começo eu queria o dinheiro.”
Camila assentiu.
Finalmente uma resposta sem maquiagem.
“E Rafael?”
“Era um alvo.”
“Quando deixou de ser?”
Vanessa não respondeu imediatamente.
“Depois que conheci Sofia.”
Camila cruzou os braços.
“Você espera que eu acredite?”
“Não.”
“Ótimo.”
“Mas é verdade.”
Vanessa começou a falar mais rápido.
“Eu deveria ficar seis meses. Conseguir acesso. Criar confiança. Depois terminar.”
“Mas casou.”
“Porque eu me apaixonei.”
“E continuou roubando.”
Vanessa fechou os olhos.
“Eduardo não deixou eu sair.”
“Ele ameaçou você?”
“Disse que contaria tudo.”
“E?”
“Eu perderia Rafael.”
“Então continuou cometendo crimes para não contar ao homem que dizia amar que havia se aproximado dele para cometer crimes.”
Vanessa assentiu.
A contradição ficou no ar.
“Existe prova contra Eduardo?”
“Existe.”
“Onde?”
Vanessa respirou fundo.
“Num cofre.”
“Qual?”
Ela deu um endereço.
Um guarda-volumes privado na região da Avenida Paulista.
“Código?”
Vanessa informou.
“Tem dinheiro?”
“Não.”
“O que tem?”
“Tudo que guardei porque sabia que um dia Eduardo ia tentar colocar a culpa em mim.”
Horas depois, Camila estava diante do conteúdo.
Fotografias.
Extratos.
Cópias de contratos.
Pendrives.
Um envelope.
Dentro havia uma procuração.
Rafael foi chamado.
Mariana também.
Camila colocou o documento sobre a mesa.
“Reconhece?”
Rafael pegou.
Era uma autorização societária antiga.
Sua assinatura aparecia no final.
“É minha.”
“Leia.”
Rafael começou.
A procuração concedia poderes para movimentações específicas ligadas a projetos da empresa.
“Isso venceu há anos.”
“Deveria ter vencido.”
Ele virou a página.
Havia uma renovação.
Depois outra.
Depois outra.
Todas com assinatura digital.
“Eu nunca renovei.”
Camila apontou para baixo.
“Olha quem aparece como segundo autorizador.”
Rafael leu.
**Eduardo Henrique Ferraz.**
“Então era ele.”
“Talvez.”
“Como talvez?”
Camila colocou outra folha.
“Porque encontramos uma autorização anterior.”
Rafael pegou.
Era de nove anos atrás.
Antes de Eduardo assumir a área financeira.
Antes de Vanessa.
Havia outro nome.
Um nome que Rafael conhecia desde antes de fundar a empresa.
Ele empalideceu.
Mariana percebeu.
“Quem é?”
Rafael não respondeu.
“Rafael?”
Ele levantou os olhos.
“Augusto Almeida.”
Camila perguntou:
“Parente?”
Rafael soltou lentamente o papel.
“Meu tio.”
“Ele trabalha na empresa?”
“Não mais.”
“Quando saiu?”
Rafael engoliu em seco.
“Sete anos atrás.”
“Por quê?”
“Eu mandei ele embora.”
“Por fraude?”
“Não.”
“Então?”
Rafael olhou novamente para o documento.
“Porque achei que ele estava roubando de mim.”
Mariana ficou imóvel.
“Achou?”
“Eu nunca consegui provar.”
Camila fechou a pasta.
“Talvez agora consiga.”
Rafael balançou a cabeça.
“Augusto está fora do país.”
“Tem certeza?”
“Portugal.”
Camila virou o notebook para ele.
Uma informação migratória aparecia na tela.
**Augusto Almeida entrara no Brasil vinte e três dias antes.**
E não havia registro de saída.
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